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É dia de estreia

Tem dias que são os primeiros. Podem chegar após anos de angustiante espera, ou quando menos imaginamos. Podem ser exatamente como sonhamos, ou uma sucessão de imprevistos. Às vezes, nos dão a certeza de estarmos vivendo algo especial; noutras, só reconhecemos quanto foram cruciais sob o distanciamento do tempo. Seja como for, ficam na memória. Quem não se lembra do primeiro dia na escola, do mais antigo beijo, da estreia no trabalho, do nascimento de um filho?
Carregados de emoção e de significado, esses dias são especiais porque definem quem somos. Eles concentram em 24 horas a explosão do confronto entre expectativa e realidade, a concretização de nossas escolhas, o desafio de se superar, o medo de fracassar, a essência do que é se sentir vivo. A seguir, uma seleção de primeiros dias – frustrados e bem-sucedidos, mas sempre engrandecedores – para inspirar não só a recordar os que você já viveu, mas também a planejar os que estão por vir.
Cabeça na lua
“Como milhares de outros garotos, meu sonho de infância era ser astronauta. No meu caso, nascido numa família humilde, no interior de São Paulo, parecia ainda mais impossível. Mas, enquanto muitos outros abandonaram suas fantasias de infância, eu, aos 14 anos, trabalhando como aprendiz de eletricista para ajudar nos custos da casa, ainda acreditava. Então me tornei piloto da Força Aérea Brasileira, e segui sempre determinado a ir mais alto. Após anos e anos de preparação, em 29 de março de 2006 o dia chegou: eu me tornei o primeiro astronauta brasileiro. Ao ver a Terra de longe, lembrei-me dos olhos azuis da minha mãe, uma italiana brava que dizia que a gente consegue tudo o que quer quando trabalha e persiste.”
Marcos Pontes, 46 anos, Huston, Texas, EUA
Negócio das arábias
“Uma casa de chá egípcia! É isso! A ideia de montar o próprio negócio surgiu no banho. Enrolei uma toalha e liguei para minha então noiva, que foi a primeira a dizer: ‘acho que não vai dar certo’. Os amigos a quem propus sociedade falaram o mesmo. Não desisti. Passei dois anos comprando xícaras e bules. Em 22 de julho de 1982 abri as portas. No dia da inauguração, casa cheia – era boca-livre. Foi uma correria, problemas, gente me chamando por todo lado. Quando foram embora, fiquei sozinho, no silêncio, realizado e ansioso com tantas questões ainda a melhorar. Dormi por lá mesmo. Nos outros dias, achei que o sucesso continuaria. Doce ilusão! Quem entraria numa casa de chá egípcia, se nunca existira outra antes? Mas aprendi na prática como fazer o negócio dar certo. E hoje tenho orgulho de comemorar 27 anos de história.”
Jorge Sabongi, 49 anos, São Paulo (SP)
Aquele bilhetinho
“Aprendi a ler aos 55 anos. Até os 40, trabalhava na roça, não tinha como ir à escola. Mas sempre gostei de fazer versos. Tanto que já lancei seis livros, alguns antes de ser alfabetizado – eu ditava e alguém punha no papel. Agora eu mesmo escrevo. A primeira coisa que li foi o nome da minha cartilha: Estudante em Ação. E já fiz um verso: ‘Meu santo Deus poderoso, agradeço de coração pelas minhas poesias, por mais uma inspiração. Estou aprendendo a ler, começando a escrever, estudante em ação’. Nesse tempo todo sem saber ler, a coisa mais difícil que me aconteceu foi um bilhetinho que recebi da namorada, aos 18 anos. Só aos 55 fiquei sabendo o que dizia nele. Mas aí era tarde demais, ela já estava casada e com filhos.”
Antonio Faria da Silva, 60 anos, Gurupi (TO)
Pedalada em equipe
“Não saber andar de bicicleta nunca foi um problema para mim. Até que fui morar na Dinamarca, por volta dos 20 anos. Lá só se pedala. Uns amigos tentaram me ensinar, mas faltava equilíbrio e sobrava medo. Além de cair, eu morria de raiva por eles soltarem o selim sem avisar. No ano passado, um amigo confessou que tinha aprendido depois de adulto e se empenhou a me ajudar, com toda a paciência do mundo. Deu certo! Nunca me senti tão livre e independente. Olhava para as outras pessoas pedalando e sentia vontade de gritar ‘eu também sei!’. Foi uma delícia descobrir como as bicicletas deslizam macio. Quando cheguei em casa mandei e-mails para vários amigos contando meu feito. No Natal, adivinha que presente ganhei?”
Gisela Blanco, 25 anos, São Paulo (SP)

Santo empurrãozinho
“Depois de muito esforço, consegui passar no vestibular em Pelotas (RS), a 230 quilômetros da cidade onde nasci, Bagé (RS). Só me esqueci de um detalhe: teria de me mudar e enfrentar todas as provações de uma faculdade. Aos 18 anos, morrendo de medo do desconhecido, quis desistir. Minha irmã me confortou, dizendo que estaria sempre ao meu lado. Quando o primeiro dia de aula chegou, ela me levou até a porta da sala. Quis fugir, mas ela disse firmemente ‘entra’, e me empurrou. Aí, assisti a aula, perdi o medo, me formei. Minha mãe ainda resmunga que, se não fosse por isso, até hoje estaria sob a asa dela.”
Gislene Rodrigues, 43 anos, Pato Branco (PR)
Boneca nova
“Aos 10 anos, recebi empolgadíssima a notícia de que minha irmã estava grávida. Não via a hora de segurar minha sobrinha no colo. Durante meses treinei com minha boneca favorita, a Cheirinho. Em 29 de maio de 1995, a Taynara nasceu. Depois de muito incomodar minha mãe, ela deixou eu pegar o bebê no colo. Me preparei, abri os braços e... que decepção! A Taynara era muito mais pesada do que a Cheirinho. Eu não ia ter fôlego para carregá-la a todo lado como fazia com minhas bonecas... Hoje, o primeiro bebê que peguei no colo já está maior do que eu.”
Alene Santos, 24 anos, Itapeva (SP)
À primeira vista
“Quando a Carla entrou na sala de aula, percebi nela um desejo pela vida que nunca tinha visto em ninguém. Eu tinha só 19 anos e não imaginava encontrar meu grande amor na universidade. Muito menos que ela seria uma professora. Aquele encontro deu origem a uma relação que hoje tem onze anos e inclui nossos filhos Joaquim Amandio e Maria Clara.”
Michele Kamers, 31 anos, Blumenau (SC)
Embalos da noite
“Durante mais ou menos um ano, minhas noites foram um inferno. Deitava e o sono não vinha. Ligava a TV, desligava, e nada de adormecer. Cochilo, só de manhãzinha, quase na hora de ir trabalhar. Então, no dia 16 de julho de 2005, eu me iniciei no reiki, uma terapia baseada na imposição das mãos. A intenção inicial não era usá-lo contra a insônia. Mas, após o terceiro dia de autotratamento, acordei e percebi que havia passado a noite inteira dormindo! Foi algo mágico! E as emissoras perderam pra sempre uma telespectadora noturna.”
Nélia Urbano, 48 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Eu era outro
“Minha primeira matéria publicada como jornalista, aos 20 anos, foi inesquecível – não só pela emoção da estreia, mas principalmente pela confusão que ela gerou. Como sempre gostei de física, o editor pediu uma entrevista com um pesquisador dessa área que acabara de fazer uma descoberta. Conversei com o físico, anotei tudo, mas, na hora de montar o texto, não tinha a menor ideia de como começar. Então escrevi como se fosse o próprio cientista, cheio de termos técnicos. No dia seguinte, os telefones do jornal não paravam de receber ligações parabenizando o físico Edson Flosi pelo artigo. Tiveram de explicar para todos que eu não sabia quase nada de física (aliás, nem de reportagem...) e dar os créditos ao verdadeiro cientista.”
Edson Flosi, 70 anos, São Paulo (SP)
Lousa e cordinha
“No começo deste ano fui à escola pela primeira vez na minha vida. Paredes pintadas, desenhos para colorir, muitas pessoas: tudo bem diferente do que eu já tinha visto. O que eu mais gostei foi da lousa verde e da cordinha que a professora pendurou para colocar nossos desenhos.”
Ana Laura Pinto, 4 anos, Inúbia Paulista (SP)
Ordenado em queda livre
“Ganhei meu primeiro salário com 19 anos. Eu sabia que estava entrando em uma nova fase da vida, cheia de compromissos e contas para pagar. Mas ela podia esperar mais um mês para começar. Então decidi gastar tudo num salto de paraquedas. Além de ser algo que eu sempre quisera fazer, significava exatamente o que eu estava sentindo naquele momento: liberdade.”
Julio César Bueno, 24 anos, São Paulo (SP)
E com vocês... eu!?
“Há uns 15 anos, fui convidado para uma mesa-redonda sobre criação de peixes. Incentivado pela indústria de pescado na qual trabalhava havia 25 anos, aceitei. Imaginei que seria só uma conversa entre poucas pessoas. Chegando lá, havia um auditório com 150 participantes. Sentei, abri o programa para saber qual seria a primeira palestra e então veio a surpresa: lá estava o meu nome! Senti um imenso calafrio. Tive vontade de sair de fininho, mas já estavam me anunciando. Tive de aguentar no osso no peito. Tirei os óculos para não enxergar ninguém e pensei: ‘é só falar o que eu sei’. Gastei os 45 minutos de que dispunha e então veio aquela salva de palmas maravilhosa! Mas, quando vi o segundo palestrante ir à mesa, um doutor em psicultura, cheio de painéis e livros, disse que tinha um compromisso urgente e dei no pé. Hoje, acho que deveria ter ficado. Depois dessa experiência, as outras palestras foram muito mais fáceis. Sempre podemos compartilhar nossos conhecimentos.”
Dilson do Valle Branco, 66 anos, Rio Grande (RS)
Anestesiada de vergonha
“Fiz minha primeira cirurgia de extração na prova final da faculdade de odontologia. Eu deveria anestesiar o lado esquerdo superior da arcada do paciente. Mas, nervosa, anestesiei o lado direito. Morri de vergonha, mas tive de chamar o professor. Ele deu risada, não era nada grave. Completei a cirurgia, passei no exame e ganhei, além da gratidão do paciente, uma confiança essencial para minha carreira.”
Ana Paula Lavoura, 37 anos, Limeira (SP)
Pequena mestra
“Sempre quis ser professora. Aos 16 anos, veio a oportunidade: passei numa seleção para dar aula de inglês, substituindo uma professora em licença. Os alunos, quase todos com mais de 30 anos, ficaram atônitos quando viram aquela baixinha, aparentando ainda menos idade do que tinha, dizendo que era a ‘teacher Thaise’. Apesar de nervosa, mostrei que dominava a língua e ganhei confiança. Ficamos tão próximos que fizemos uma comemoração no fim do semestre, num barzinho. Eles brindaram com cerveja; eu, com suco.”
Thaise Pregnolatto, 24 anos, São Paulo (SP)
Sagrado som
“Na primeira vez em que ouvi o choro do meu filho, entendi o que significa entrar em transe. Durante a cesárea, sem enxergá-lo, o som foi a maneira de nos comunicarmos. Enquanto ele chorava, uma intensa luz dourada tomou conta da sala. Senti que tudo que é belo, bom e sagrado havia dominado o ambiente. Ao vê-lo e beijá-lo, minha vida passou a ser vivida só para ele.”
Lilian de Souza, 28 anos, Campinas (SP)
Cilindradas do coração
“Quando completei 40 anos, percebi que precisava trazer cor à minha vida. Sempre fui apaixonada por motos, mas nem sequer sabia ligar uma. Aprender a pilotar me pareceu o desafio ideal. Na semana seguinte, estava na autoescola, ouvindo as explicações sobre as terríveis manobras exigidas no exame final. ‘Onde fui me meter?’, pensava. As primeiras tentativas foram um fiasco, mas logo pude observar singelos progressos: conseguia me equilibrar sem receio, não deixava o motor morrer nem derrubava mais que três cones por circuito. No dia do exame, meu coração estava disparado, sinal de que o primeiro objetivo havia sido atingido: eu estava novamente me sentindo viva! Antes de entrar na pista, ouvi meu instrutor dizer: ‘segure firme, olhe sempre para a frente e acelere’. Mal pude acreditar quando soube que fora aprovada. A primeira vez em que pilotei uma moto ficará para sempre em minha memória, não apenas como lembrança de uma vitória, mas como a certeza de que a realização dos sonhos depende só de nós – e de nossa capacidade de ‘segurar firme, olhar sempre para a frente e acelerar’”.
Lucila Scalfi, 44 anos, São Paulo (SP)

















































