editorial
É só o começo

O mês inteiro foi assim: era só falar que a revista seria sobre o acaso que todo mundo tinha uma história incrível para contar.
Todo mundo, menos eu. Minha vida não é dada a momentos cinematográficos. Planejo cada passo com antecedência, não faço nada à toa, tenho sempre planos B, C e D. Não dou trela para a sorte, nem para o azar: prefiro fazer por onde a esperar que um raio caia. Nem mesmo na loteria jogo e, definitivamente, não acredito que o que tem de ser, será. Ou a gente faz acontecer, ou nada acontece.
Parecia uma boa filosofia. Mas daí comecei a ouvir as histórias: “Teve aquela vez em que...”, e lá vinha uma coincidência inacreditável, uma sorte impossível, um encontro com sinos e fogos de artifício. Esse é o negócio sobre as histórias. Elas fazem você repensar a vida. E fiquei olhando a minha, de repente sem graça – poxa, nada assim me acontece. Perdi alguma fila. Onde está toda a mágica?
Foi folheando um velho álbum de fotos que me dei conta: em toda parte.
Meus pais cresceram a 2 mil quilômetros de distância, eram solteiros decididos, sem ter nada em comum além de uma vogal no nome. Conheceram-se no saguão de um prédio e... Minha mãe tinha poucas chances de engravidar, e vim eu – e mais dois irmãos não planejados. Um assalto à nossa casa fez com que eles decidissem se mudar para uma pequena cidade do interior, a 20 horas de estrada, que nunca havíamos sequer visitado, e isso moldaria toda a minha juventude.
Aos 17 anos, eu ouvi de médicos que, no dia em que quisesse engravidar, só com tratamento – nem liguei, porque não fazia planos de ter filhos. Meses depois, havia um coraçãozinho inesperado batendo no ultrassom. Conheci meus melhores amigos na rua, em uma fila, no ônibus, na padaria, em uma banca de livros porque o meu preferido era o mesmo da garota ao lado. No show de uma banda que eu odiava, encontrei aquele que seria o pai da minha filha. E depois amaria alguém que conheci em uma aula a qual só fiz porque não havia vaga na turma que queria. Outro namorado surgiu numa troca de e-mails. Ultimamente acho que meu amor é alguém com quem cruzei por anos sem nunca dizer mais do que oi – e pensar que sempre esteve tão perto me parece uma surpresa ao contrário.
Talvez os acasos na minha vida não sejam os mais surpreendentes. Não mudaram tudo de um minuto para o outro. Mas eles aconteceram, assim como na sua. Esperamos reconhecê-los na forma de eventos espetaculares, como ser sorteado na loteria ou se apaixonar à primeira vista. Na verdade, me parece que as manifestações mais extraordinárias – e frequentes – do aleatório em nossa existência são na forma de pessoas. Que chegam como quem não quer nada. Mas, se aproveitamos o instante para transformá-lo em algo maior, essas pessoas ficam... a ponto de parecer que sempre estiveram por perto e esquecermos que incrível sorte foi encontrá-las.
O acaso, me dei conta, não é o ponto alto da história – é só o começo dela. As pessoas que amo não estão aqui porque planejei. Elas aconteceram. Não há mágica maior. Talvez não renda causos fantásticos. Mas é a história da minha vida.
Espero que esta edição também inspire você a valorizar mais o que não está nos planos. E a reconhecer toda a mágica que esquecemos de admirar.

















































