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Em boa companhia

Eles poderiam trabalhar sozinhos, sem ninguém a quem dar satisfações. Mas descobriram que dividir o ambiente de trabalho torna o dia a dia mais agradável e ainda impulsiona os negócios
Texto: Cristina Casagrande // Ilustração: Romolo
Em boa companhia
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A publicitária Fernanda Trugilho não podia nem acreditar. Após anos virando madrugadas, ela conseguira um emprego mais tranquilo. E o melhor de tudo: trabalharia em casa. “Eu podia ficar de pijama o dia inteiro, não sofria no trânsito e almoçava comida caseira. Era um sonho!”, lembra.

Mas bastaram três meses para virar um pesadelo: “Senti falta de ver gente. Ia a cafés só para estar entre pessoas. Mas ninguém falava comigo, continuava sozinha”.

Aí, Fernanda percebeu que esse problema não era só seu. Muita gente, descontente com as amarras corporativas, aposta no trabalho em casa como alternativa, mas logo percebe a falta que faz o convívio profissional. Foi quando ela ouviu falar de um conceito que vinha dando certo nos Estados Unidos e decidiu ajudar a trazê-lo para o Brasil. É o coworking: escritórios coletivos, ocupados por profissionais independentes, interessados em compartilhar infraestrutura e companhia.

Em 2008, aos 27 anos, ela fundou o Pto de Contato, em São Paulo. O escritório é composto de mesas sem divisórias, onde profissionais de várias áreas trabalham lado a lado. O aluguel é cobrado por hora, em planos mensais. O lugar dispõe de sala de reuniões, sala de espera, copa e mesa do cafezinho. Entre os usuários há uma advogada, uma arquiteta, um agropecuarista, uma empresa que constrói campos de golfe e pequenos negócios de tecnologia e comunicação.

Um dos clientes é Antônio Siqueira, de 30 anos, dono de uma empresa de propaganda. Ele está no Pto de Contato desde junho de 2010, quando desistiu de trabalhar isolado na sala particular que alugava. “Era exatamente o que eu procurava. Este lugar facilita o diálogo, permitindo que a gente faça contatos que podem gerar ótimos frutos”, afirma.

A própria Fernanda é um exemplo de que o bate-papo entre os usuários acaba por alavancar os negócios de todos. “Uma advogada e um arquiteto, que antes eram apenas nossos clientes, agora nos prestam serviços”, conta.

Unindo forças

Apesar de ainda serem novidade no Brasil, espaços como o Pto de Contato se baseiam num princípio bem conhecido entre profissionais liberais ou autônomos. Engenheiros, médicos e dentistas, por exemplo, podem muito bem trabalhar em espaços individuais, mas muitas vezes preferem se unir a colegas.

É o caso dos advogados Isis Bório, de 28 anos, Natalicio dos Santos, de 46, e Cleber da Silva, de 33. Há cerca de um ano, eles dividem um escritório em Osasco (SP). Quem teve a ideia foi Isis, que pensava em uma maneira de diminuir as despesas. Ela reencontrou, por acaso, o colega de faculdade Natalicio, que tinha ideias parecidas, e ele a apresentou a Cleber, formando a parceria.

Juntos, eles atraem mais clientes. “Dividindo os gastos, conseguimos alugar um imóvel bem localizado, o que nos dá visibilidade”, conta Isis. Além disso, o fato de eles atuarem em diferentes áreas do direito amplia a abrangência de casos a que o escritório pode atender. Isis costuma ficar com as causas de família e sucessões. Já previdência é com Cleber ou Natalicio. Na área trabalhista, os três atendem, mas isso não é motivo para disputas. “Quando um cliente procura o escritório, rateamos a causa”, diz Cleber.

Em esquema parecido funciona a clínica RP Saúde, também em Osasco. Quando a esteticista Rosita Santos, de 50 anos, decidiu abrir o próprio salão, viu na sobrinha emprestada, Priscila de Souza, a parceira ideal. Filha de uma das melhores amigas de Rosita, a jovem de 29 anos é fisioterapeuta e especialista em RPG. Dois anos depois, em 2009, elas conheceram a acupunturista Suellen Boni, que também passou a fazer parte da empreitada.

A sociedade funciona informalmente, na base da confiança. Aluguel, água, luz e demais despesas coletivas são divi­didos igualmente entre as três. E, como cada uma tem sua especialidade, não há concorrência. Muito pelo contrário: “Já aconteceu, por exemplo, de um cliente que fazia massagem comigo passar a fazer, também, acupuntura com a Suellen e RPG com a Priscila”, conta Rosita.

Ao dividir tarefas, elas se beneficiam do talento de cada uma. Suellen, que diz ter facilidade de lidar com o público, trabalha com Priscila na divulgação da clínica. Já Rosita cuida da parte administrativa. E assim elas vão descobrindo que melhor que fazer aquilo de que gosta é poder compartilhar esse cotidiano com parceiros que ajudem a carreira e a vida a decolar.

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