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Em boa companhia

Começou com um alho que esqueci na geladeira. Quando vi, tinha um respiro de vida brotando dele. Fiquei com pena de abandoná-lo à própria sorte naquele ambiente inóspito. Roubei um punhado de terra, joguei num pote de geleia e o enterrei lá dentro, perto da janela. Em pouco tempo deu pra ver sua nervosa raiz, tal qual uma cabeleira branca, explorar todos os cantos do frasco. Desde que eu tive de dar meu cachorro, quando me mudei de casa para apartamento, não quis mais ser responsável por outra forma de vida. Mas esse alho veio para revolucionar. Depois dele, criei coragem para comprar outra planta. Procurei a mais independente de todas: um cacto. E aí abriu-se definitivamente a porteira do mundo vegetal. Em viagem à casa dos meus pais, peguei uma muda da costela-de-adão, que desde que eu me conheço por gente se estica pelo canto da sala. Batizei sua filha de Costelinha. Da namorada, ganhei a Escarlate, uma frondosa bico-de-papagaio. Com minha vó, consegui umas sementes de pimenta, que se transformaram num arbusto de quase 1 metro de altura. Do pai libanês de um grande amigo, recebi mudas de hortelã vindas diretamente do Oriente Médio. E, um dia destes, voltando do almoço, catei de um canteiro público um galhinho de manjericão, que multiplicou seu aroma buscando a luz da minha varanda. Com toda essa companhia, minha casa ficou muito mais bonita e alegre. E eu, que tinha medo de cuidar de outras vidas, descobri que posso ajudá-las a surgir e vingar.

















































