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Em busca da comida de verdade

Nina – Aos 6 anos, cozinhei pela primeira vez. Fiz o único prato que havia no meu livrinho de receitas: sopa de legumes. Piquei os vegetais, joguei na panela e, algum tempo depois, lá estava ela, prontinha e cheirosa. Nos 20 anos seguintes, porém, por preguiça e conveniência, eu me esqueci dessa incrível capacidade de preparar a própria comida. Vim recuperá-la agora, ao fazer esta reportagem.
O desafio, topado por mim e pela Rita, minha colega de redação, foi passar um mês comendo da maneira mais sustentável possível. Isso significou diminuir ao máximo os produtos industrializados: pois, quanto mais complexo o processo de produção, mais provável que seja poluente e que envolva ingredientes nocivos à saúde. Abrimos exceção apenas para itens indispensáveis, como farinha, óleo e fermento. Também privilegiamos produtores locais, para diminuir as emissões de carbono resultantes do transporte. E, já que o objetivo era aumentar nossa consciência a respeito do que comemos, nos comprometemos a ser as cozinheiras de nossas refeições.
Comecei fazendo uma vistoria na despensa. Li todos os rótulos e vi que muitos ingredientes não tinham o menor jeito de comida: espessantes goma guar, carragena, estabilizantes monoestearato de glicerina, polisorbato 80... Eu me lembrei do livro Regra da Comida, do jornalista Michael Pollan. Segundo ele, devemos evitar alimentos com componentes que, se fossem vendidos separadamente, nós não compraríamos.
Esses itens de nome estranho não existem por acaso. “São aditivos, usados para manter sabor, textura e aroma. Sem eles, os alimentos seriam mais escassos e caros”, afirma Florência Cladera, engenheira de alimentos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas não se obtém essa vantagem sem correr riscos. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, aditivos podem provocar obesidade e alergias e aumentar a vulnerabilidade ao câncer.
Deixei de lado as lasanhas congeladas e nuggets, que normalmente habitam minha geladeira, e fui às compras. Decidi investir nos vegetais orgânicos, aqueles feitos à moda antiga, sem agrotóxicos nem outros químicos com efeitos colaterais à natureza e à nossa saúde. Ao chegar ao mercado, levei um susto: o quilo do tomate orgânico custava mais de 9 reais! Não é à toa que 52% dos brasileiros das classes C e D nunca compraram esse tipo de hortaliça. Então, eu reservei um sábado para conhecer uma feira de orgânicos do Parque da Água Branca, em São Paulo. Lá, paguei menos da metade do preço no tomate: R$ 4,50. E ainda me diverti conversando com os produtores. Um deles me falou que até o ovo que ele vendia era orgânico, porque a galinha que o botou vive “feliz” – ou seja, livre e ciscando o próprio alimento. Mas, nessa pesquisa sobre proteína animal, a Rita foi mais fundo.

Rita – Eu andava encucada com a carne que comia. Começou depois que li Eating Animals (Comendo Animais, inédito no Brasil), do escritor americano Jonathan Safran Foer. Além de contar o filme de horror em que se transformou a criação de animais para abate, ele comprova como a pecuária moderna é um dos grandes vilões ambientais. A atividade tem uma contribuição 40% maior para o aquecimento global que todo o transporte do planeta reunido e usa 8% da água consumida no mundo. Foi aí que pensei em arrumar um jeito de comer carne que não agredisse tanto a natureza. E essa matéria foi a oportunidade que encontrei para começar.
Queria achar carne de animais capazes de se locomover. As criações em esquema de confinamento produzem montanhas de dejetos poluentes. Além disso, os bichos criados livremente demandam menos antibióticos e rações industrializadas, itens potencialmente nocivos para os animais, para quem come sua carne e para toda a sociedade – o uso indiscriminado de antibióticos, por exemplo, contribui para o surgimento de bactérias perigosamente resistentes.
Querer saber o que os bois comem foi motivo de gargalhadas de vários açougueiros. Depois de muita pesquisa, encontrei uma marca cujos animais são criados livres e ruminam pastagem nativa: a Organic Beef. Só que isso é feito no Pantanal. A carne é mesmo diferente, tenra e saborosa. Mas não sei se compensa investir num produto que viaja 1,5 mil quilômetros, soltando gás carbônico pelas estradas, até chegar ao meu prato.
Então, passei para os pescados. Em mercados e feiras, os vendedores sabiam dizer se a carne era fresca e se vinha de água doce ou salgada. Mas não de que região procedia nem se os peixes eram pescados ou criados. O pessoal do Laboratório de Processamento e Análise de Pescado da Universidade de São Paulo (USP) me explicou que o setor de frutos do mar é mesmo desorganizado. A criação, no ano passado, do Ministério da Pesca e Aquicultura foi uma tentativa de estabelecer regras mais claras. Iniciativas recentes, como o projeto dos supermercados Walmart de mapear até 2013 todos os fornecedores de pescados da rede, indicam um possível avanço.
O último desafio foram as aves. E aí tive uma bela surpresa. Fiquei sabendo de uma marca especializada em frangos orgânicos, a Korin. Além de não receber antibióticos nem promotores artificiais de crescimento, os bichos só ciscam alimentos sem agrotóxico. Outra vantagem é que a fazenda fica em Ipeúna (SP), a 200 quilômetros de São Paulo – ou seja, o custo ambiental do frete não é muito alto. E os produtos são distribuídos por uma grande rede de supermercados. Desconfiada, liguei para a empresa. E, ao contrário dos grandes frigoríficos, que não deixam pessoas comuns conhecer suas criações (já tentei algumas vezes, sempre sem sucesso), eles queriam agendar minha visita no ato. Parecem realmente sérios.
Depois dessa peregrinação, chegou a hora de saborear o resultado de minha suada conquista. E valeu a pena o esforço. Logo que abri a embalagem, não senti aquele cheiro ruim que o frango cru costuma ter. Preparei um saboroso filé com legumes e, pelo menos naquela noite, dormi com a consciência tranquila.
"Empolgada com o desafio, quis fazer só receitas especiais. Gastei
mais do que devia, desperdicei muita comida e, mais uma vez, fiquei
cozinhando até as 2 horas da manhã. Vi que precisaria me organizar"
Nina – Pois chegou minha vez de pôr a mão na massa também. Empolgada, quis fazer só receitas especiais: jantar mexicano, molhos exóticos, sobremesas requintadas. Gastei mais do que devia e desperdicei muito – como o creme de abacate para a guacamole, que não tinha ideia de como conservar. Além de, mais de uma vez, ter ficado cozinhando até as 2 horas da manhã.
Vi que precisaria me organizar. Criei um cardápio para a semana, concentrando as compras em um só dia. A feira de orgânicos era boa e barata, mas longe de casa. Então, passei a frequentar, toda terça, a feira livre do bairro. Priorizei os produtores locais, que eram minoria. A maior parte dos feirantes revende alimentos distribuídos pela Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que recebe produtos de todo o país. E apenas uma banca tinha selo de produção orgânica, fornecido pelo Instituto Biodinâmico (IBD).
O passo seguinte foi aprender a conservar e reaproveitar. O livro Refeições Incríveis por Menos de R$ 5 (Editora Seleções do Reader’s Digest) foi muito útil. Ali aprendi, por exemplo, a guardar a alface numa tigela com água e vinagre, na geladeira, para durar mais tempo. Graças às dicas do livro, também me aventurei a fazer caldo de galinha, cozinhando a carcaça de um frango – depois usei o ingrediente num risoto.
Aos poucos, fui descobrindo quais receitas eram mais práticas, como tortas feitas no liquidificador e assados em geral. E fiquei mais agilizada. Em dez minutos, já conseguia preparar um prato completo, como frango grelhado e salada.
Também aproveitei para arriscar receitas que ainda eram tabu para mim. Como pão. Após cursar uma oficina que prometia ensinar a técnica em duas horas, precisei de duas tentativas: na primeira, a massa queimou. Mas o segundo ficou gostoso e me encheu de orgulho.
Rita – Com o mês acabando, foi hora de fazer um balanço da experiência. Ao ver que o quilo do frango orgânico, assim como o do contra-filé das pastagens nativas, é mais caro que filé-mignon comum, caiu a ficha: eu não preciso comer carne todo dia. Três ou quatro vezes por semana está de bom tamanho, mesmo para uma carnívora voraz como eu. Para balancear, investi em outras saborosas fontes de proteína: verduras escuras, queijo, leite e ovos. Assim, poupo os recursos naturais e me sinto mais satisfeita: prefiro comer uma carne mais gostosa, cheirosa e saudável menos dias por semana a um bife que eu não sei de onde veio em todo almoço e jantar.
Nina – Na nova dieta, eu gastei 40% menos com comida. E passei a respeitar mais meu paladar. Cozinhando, percebi como os restaurantes abusam do sal. E abri mão de certas facilidades em prol da saúde. Troquei, por exemplo, o pão de fôrma industrializado pelo caseiro, por ficar incomodada com sua longa duração. É como diz a nutricionista Regina Lang, da Universidade Federal do Paraná (UFPR): “Prefira comidas que estragam. Se nem bactérias e fungos comem, você também não deveria”.
Por último, melhorei meu contato com a terra. Comprei vasinhos de temperos e ervas para chá, que deixo na janela da lavanderia. E, bem, aquele meu livrinho de receitas da infância, que por 20 anos conteve apenas uma simples sopinha de legumes, cresce a cada dia, enchendo minha vida de sabor e de boas histórias para contar.
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SAIBA MAIS |
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• 15% dos bebês entre 4 e 6 meses comem macarrão instantâneo. E 30% entre 6 e 12 meses bebem refrigerante, segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria feita em três capitais do país. |
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