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Em busca de equilíbrio

Nem tanto para cá, não muito para lá, e assim vamos. Desde pequenos, nossa vida é feita de procurar o balanço ideal – seja para o corpo, seja para a mente
Texto: Camila Gonçalves, Jeanne Callegari e Ricardo Ferraz // Foto: Rodrigo Braga e Andrea Marques / Fotonauta
Em busca de equilíbrio
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O equilibrista começa o número. Pé ante pé, avança sobre o fio pendurado nas alturas. Um segundo de desatenção, uma tremida de nervosismo, um vento que sopre mais forte... e ele despencará no chão. Mas o artista segue em frente, os braços abertos buscando o eixo. Lentamente, chega ao fim. A plateia solta a respiração e aplaude aliviada: ele venceu a corda bamba.

Seja vista no circo, seja pela TV, essa cena está no imaginário de todos. E representa bem uma tarefa na qual empenhamos grande esforço desde muito pequenos: a busca pelo equilíbrio. Ainda bebês, lutamos contra a inexperiência de nossas pernas, ainda meio tortas, para conseguir ficar de pé. Depois ousamos dar um passo, caminhar. Assim que possível, queremos correr. Mais tarde, chega o desafio da bicicleta – sem rodinhas!

Amadurecemos, e o grande desafio passa a ser não mais o equilíbrio do corpo, mas o da mente. São tantas coisas demandando nossa atenção que parece impossível cuidar bem de todas elas. É preciso estudar, ser um profissional competente, encontrar o grande amor, preservar os amigos, dedicar-se à família, cuidar da alimentação, praticar esportes, cavucar tempo para se divertir...

Podem parecer searas bem distintas, mas muita gente já descobriu que, para ajudar a  manter o balanço emocional, um bom caminho pode ser treinar o equilíbrio físico. A concentração exigida pelo segundo afasta o estresse e dá serenidade para organizar a mente. No fim, a cabeça equilibra o corpo, como comprovam as histórias a seguir.

Surfe no metal

Uma corrente de ferro atravessando a passagem nem sempre é um aviso pra manter distância. Para Paulo César Galdino de Carvalho, o PC, de 30 anos, de São Paulo, pode ser um convite para testar os limites do equilíbrio. Há 13 anos ele pratica um misto de arte circense e esporte urbano chamado surfe de corrente. PC sobe no metal como se fosse uma corda bamba, mas, em vez de caminhar sobre ela, balança de um lado para o outro. Esse é o movimento básico. Quando quer aumentar a dificuldade, ele fica em um pé só, joga malabares ou balança tão forte que parece que seus pés vão decolar. “Você quer ir cada vez mais longe. É um desafio permanente”, conta.

PC conheceu o surfe de corrente vendo seus vizinhos praticá-lo. Hoje, ele é uma referência na cidade. Há seis anos, foi convidado por uns amigos a fazer uma apresentação na praça Aprendiz das Letras (essa que aparece na foto). Lá, toda segunda-feira, uma turma se encontra para praticar artes circenses, como andar sobre monociclos e fazer malabarismos com claves e argolas. Atendendo a pedidos, logo as exibições se transformaram em oficinas. “Hoje nem consigo mais treinar nos encontros, pela quantidade de surfistas que aparecem”, orgulha-se. Ao ver os pupilos se arriscarem, ele relembra seu processo de aprendizado. “Até dominar a corrente, leva tempo. É preciso conhecer e respeitar os próprios limites”.



Magrela dose dupla

Quando ele passa, todo mundo se vira para olhar. É o paulistano Carlos Augusto Gallo Jr., o Gallo, de 27 anos, que pedala pela metrópole no alto de sua bicicleta de dois andares. A estranha magrela ele mesmo montou, depois de ver uma parecida desfilando pela rua. Encantou-se, pediu a ajuda do pai, habilidoso na arte da soldagem, e montou a própria. Já está no segundo modelo: “A primeira era muito instável. Em qualquer vala que eu passasse, levava um tombo”, conta. Cair de costas de uma altura de 1,60 metro não é experiência agradável, mas Gallo não desistiu. Desenhou um novo modelo, que já tem cinco anos.

Desde então, pelo menos uma vez por mês ele dá uma longa passeada com a bike gigante: Gallo é presença certa nas Bicicletadas – encontros realizados nas últimas sextas-feiras de cada mês, em São Paulo, para reivindicar melhores condições para os ciclistas circularem pela cidade. Se precisar pegar a estrada, ele não se intimida: pedalando nas alturas, já percorreu 260 km até Ubatuba, no litoral.

Você pode estar se perguntando: como é que ele faz para montar? “No começo, eu subia em alguma coisa alta e depois pulava para a bicicleta. Mas logo peguei o jeito. Agora basta dar um impulso do chão e já estou lá em cima”, explica – mas só vendo para entender o mistério. Até atingir esse grau de domínio sobre o corpulento veículo, Gallo aprendeu a controlar a si mesmo e a saber qual era a melhor forma de se colocar para não cair. Aos poucos, foi ganhando confiança. Hoje, a bicicleta é sua forma de atingir, também, o equilíbrio das emoções. “Quando estou estressado,
saio para pedalar. E volto sorrindo.”

Questão de postura

Uma a uma, as posições se sucedem. Tem a da montanha, a da vela, a do herói... Algumas são mais fáceis, outras mais complicadas de executar – e, principalmente, de manter. Mas a carioca Diamantina Silva Reigas, de 83 anos, não se intimida. “Faço todos os movimentos dentro das minhas possibilidades. Se não consigo, paciência, o professor me passa outro exercício em substituição”, conta. Falando com essa humildade, ela se passa por uma iniciante. Nada disso: Diamantina pratica ioga há 30 anos. Hoje em dia, são três vezes por semana – duas com pessoas mais jovens e uma com a turma da terceira idade.

A milenar disciplina indiana lhe foi indicada para combater um problema nas vértebras. Após se curar, não conseguiu parar. Era o início de uma revolução em sua vida. “Antes eu tinha o ‘pavio curto’. Por causa da ioga, passei aos poucos a ser mais estável, mais compreensiva e observadora”, diz. No início, era difícil fazer todos os movimentos. Mas Diamantina foi se adaptando, gostando mais a cada dia. Hoje, se perde uma aula – só quando viaja, e olhe lá – , o corpo reclama. Por causa do exercício, equilibrou até a alimentação e deixou de comer carne vermelha e laticínios. Ficou mais calma, mas a energia aumentou. Na idade em que tanta gente fica vendo o tempo passar, ela tem mil coisas pra fazer. “De tanto não me encontrarem, minhas amigas falam que eu não moro na minha casa: estou só de passagem”, diverte-se.

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