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Entrando no clima

De uma hora para outra, o tempo vira. O vento esfria o calor do sol, a chuva escurece o céu. Então, vêm os espirros, para lembrar que as mudanças bruscas de temperatura chacoalham o corpo. O sistema respiratório de Paula Belmino é o primeiro que sofre com o clima instável. Quando a temperatura cai, a pedagoga de 36 anos, que mora em São Paulo, fica com o nariz entupido, a cabeça doendo e a garganta áspera. A voz começa a falhar, e lá vem a tosse, fiel companheira nas estações mais frias e secas do ano. Sua filha, de 4 anos, adoece ao menos duas vezes ao mês. “Sempre que esfria no fim da tarde, ela veste uma blusa”, diz Paula. “Mas tenho de dizer que é muito chique vestir roupa de inverno no verão para que ela aceite.”
Afinal, doenças motivadas pela mudança do clima são perigosas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), elas estão entre os grandes fatores que contribuem para a mortalidade global. Diversos microrganismos que causam infecções contagiosas são sensíveis a variações climáticas – adoram calor e umidade. Mas, no frio, quem faz a festa são os vírus de gripe e resfriado. “A cápsula de proteína que os envolve é mais resistente em baixas temperaturas, e isso facilita a transmissão”, diz o médico João Amadera, especialista em fisiatria intervencionista (a medicina física). Além disso, nas estações frias, as vias aéreas teimam em ressecar. Com a poeira, as mucosas do nariz e da garganta ficam irritadas e abrem caminho para a proliferação de bactérias e vírus. Mais um ponto para as doenças respiratórias.
Meu joelho diz que vem chuva...
O tempo frio faz também com que as articulações reclamem. Os idosos com artrose ou reumatismo percebem quando a temperatura cai porque a viscosidade do líquido que lubrifica as articulações (chamado sinovial) fica diferente. É a justificativa científica para a “dor nas juntas”. A sensação ainda pode ter relação com músculos tensionados. “As queixas de dor crônica são normalmente musculares, porque o tecido tende a se contrair para se manter aquecido”, explica João Amadera.
E, quando a temperatura chega próximo de zero grau, essa contração atinge os vasos sanguíneos. Isso faz com que chegue menos sangue (e oxigênio) aos pés, mãos, orelhas e nariz. Foi assim que o biólogo marinho Gustavo Fonseca levou ao limite os pés gelados e o nariz vermelho do inverno. Em uma viagem ao território ártico norueguês de Svalbard, ele quase perdeu os dedos das mãos de tanto frio. Acabou passando tempo demais trabalhando sem luvas e, de repente, percebeu que não conseguia mais mexer as mãos. Hoje, ele mora em São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, e descobriu que o sol pode fazer tanto estrago quanto o frio. “Uma queimadura solar causa mais dor que o desconforto que experimentei no gelo”, diz o biólogo.
Estou morrendo de calor
É esse sol de rachar que faz a estudante Priscila Martins, de 23 anos, ficar sonolenta e aérea. Ela mora em Londrina (PR), mas seu namorado vive em Benjamin Constant (AM), em plena selva amazônica. Toda vez que vai para lá, Priscila sofre. Já passou tardes inteiras em frente ao ventilador, esperando a pressão voltar ao normal. Ela briga constantemente com a moleza que o calor úmido lhe causa.
Ocorre que, se nas baixas temperaturas os vasos se contraem, com muitos graus Celsius eles se dilatam e a pressão despenca. Isso traz sensibilidade, mal-estar e torna até o raciocínio mais difícil. Alguns testes psicológicos feitos em pessoas de regiões como a cidade para onde Priscila vai provaram que esse tipo de clima aumenta a dificuldade de concentração. Com o desconforto do suor mais a umidade exterior, a sensação é de cansaço.
Além disso, quanto mais luz, menos as pessoas dormem. É que a produção de melatonina, um neuro-hormônio que regula o sono, está diretamente relacionada à luminosidade. A relação entre claro e escuro afeta nosso relógio biológico. E a melatonina, produzida em maior escala no escuro, é essencial para um sono saudável e sem distúrbios. “Estudos descrevem que, em locais com baixas temperaturas, há mais doenças relacionadas ao humor, como depressão,do que nos lugares mais iluminados”, diz Tânia Chaves, médica infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Mas é preciso lembrar que, no pacote da influência da temperatura, entra também a percepção pessoal e cultural. É por isso que, se em Santa Catarina as aulas são canceladas quando a temperatura chega perto de zero, na Alemanha isso ocorre com calor acima dos 27 graus. O corpo e o humor mudam com a temperatura, mas a intensidade depende de cada pessoa.
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