Droga Raia

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Essa queda eu caio

Texto: Roberta Faria // Foto: Christian Cravo
Essa queda eu caio
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Costuma ser um segredo, desses que os iniciados passam adiante cheios de mistério. “Conheço um lugar...”, começam. E chegar lá envolve pegar uma estrada de chão batido, parar no meio do nada, seguir por uma picada lamacenta pelo mato (quase sempre, uma subida), passar por pedras escorregadias, talvez até se esgueirar por entre o arame farpado de uma cerca, cuja placa avisa: “Propriedade Particular, Entrada Proibida”. E então a gente escuta, e sabe que chegou. O som é de tempestade, mesmo em dia aberto. O cheiro no ar muda: não tem nome pra ele, mas parece uma mistura de folhas, frio, terra molhada, pedras no sol. Uma clareira se descortina, e lá está ela. A cachoeira vem descendo furiosa, toda aquela água calminha do rio acima espantada com a queda súbita, fazendo espuma quando encontra o lago. A poeira molhada pinta um arco-íris particular, que enlaça a cascata e anuncia: este é um lugar especial. Cachoeiras têm um quê de mágica mesmo. Enquanto tantas paisagens mudam, elas parecem perdidas no tempo. Não convidam:  escondem-se. E banhar-se é uma aventura maior do que chegar: cachoeiras exigem respeito, com buracos escondidos e pedras afiadas. E são tão frias... Vai o dedão do pé primeiro. Depois, coragem, que é pra isso que viemos. Entra-se com cuidado pelos cantos, exploram-se as profundidades e bordas. Mapeamento feito, sempre haverá um corajoso pra dizer: “Então eu vou pular!”. E começa a melhor parte. Esculpida pela natureza, é toda nossa essa piscina selvagem, com trampolins e escorregas só esperando serem descobertos. A água que quebra nos ombros faz uma massagem que desfaz qualquer tensão da vida. O barulho, quem diria, aqui é paz: tão alto que tem hora que a gente só escuta a própria respiração. Se houver uma caverna atrás da cascata, então, é a glória. Do outro lado do véu de água, o mundo desaparece. Acho que essa é a melhor coisa que um banho de cachoeira faz pela gente: lembrar a beleza que existe nas maiores quedas. 

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