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Eu, melhor

A vida tem mania de surpreender. De repente, aparece alguém que, com um gesto, abre nossos olhos. Ou um acidente no percurso, apontando para novas direções. Às vezes, é uma viagem ou um encontro programado que segue rumos inesperados e nos transforma. É a soma de eventos assim, belos e gratuitos, que nos faz melhores, mais fortes, mais maduros. Pode ser uma soneca no ônibus, um encontro com um desconhecido, um raio que clareia tudo ou a proximidade da morte. O que importa é olhar para essas experiências e reconhecer que elas nos ensinaram e, do seu jeito, nos fizeram mais felizes. Sem pedir nada em troca, são pequenas graças plantadas no cotidiano. Como se fossem sinais, apontando para lugares onde podemos ser mais leves e alegres. Então, quando olhamos para trás e enxergamos o caminho percorrido, só nos resta agradecer, do fundo do coração, à vida, que nos faz uma versão melhor de nós mesmos.
A caminho de minha escola, em Leme (SP), dormi no ônibus e acordei em outra cidade. Desesperada e sem dinheiro, só me restou chorar. Um estranho sentou-se ao meu lado e me perguntou o que eu tinha. Falei do engano e desabafei todos os meus problemas: com a família, namoro a distância, vestibular, escolhas... ele me ouviu, me deu 10 reais, seu telefone e um livro. Disse para seguir meus sonhos, que tudo ia ficar bem. E se foi. A partir daquele dia, fiquei mais calma e decidi: ia estudar artes. Aquele desvio de rota me fez acordar para tudo de bom da minha vida, e só tenho a agradecer por ter dormido demais.
Marina Florido, 19 anos, Belo Horizonte (MG)
Em janeiro do ano passado, eu estava em Machu Picchu, no Peru, quando as chuvas inundaram a linha ferroviária e derrubaram a única ponte que liga a cidade ao mundo. Eu e dois amigos ficamos isolados. No entanto, mesmo com a escassez de comida e energia, toda a cidade se mobilizou para nos ajudar. Pensava que, nas dificuldades, as pessoas se preocupariam apenas com a própria sobrevivência. Mas essa viagem me provou o contrário: os momentos difíceis são portas de entrada para unir pessoas, que, juntas, os enfrentam.
Marcelo Pellegrini Filho, 20 anos, São Paulo (SP)
Estudo medicina e, em setembro, fiz uma viagem para Fortaleza com o médico americano Patch Adams – conhecido por incluir a alegria em seus tratamentos. Com um grupo, colocávamos um nariz de palhaço e visitávamos hospitais, asilos e orfanatos. Nosso objetivo era só passar amor para as pessoas. Nessa viagem, aprendi que gestos simples mudam vidas quando são feitos com carinho. Agora, carrego comigo o nariz de palhaço e, além de remédios, receito também sorrisos.
Isabela Forni, 22 anos, São Paulo (SP)
Assim que recebeu diagnóstico de câncer, meu pai veio nos comunicar. Ele nos contou com muita serenidade e pediu que não ficássemos tristes, pois, caso não conseguisse a cura, aproveitaria a oportunidade para se tornar uma pessoa melhor. Ele buscou perdão e reconciliação com familiares e um dia, ao ouvir de alguém a expressão “doença maldita”, ele rebateu: “Para mim, ela é bendita”. Dois meses depois, ele faleceu. E não só se transformou em alguém melhor, como, com seu exemplo, nos fez pessoas melhores também.
Luciana Oliveira, 28 anos, Belo Horizonte (MG)
Quando descobri que tinha leucemia, em 2010, soube também que um transplante seria a única chance de continuar viva. Em um cruzamento de dados entre doadores e receptores, meu nome cruzou com o de um desconhecido. Somente essa pessoa poderia me salvar. Ao fazer a doação, ele ou ela passou a viver em mim, me faz vibrar com o crescimento do meu filho, estar com quem amo, trabalhar no que gosto, pular, dançar, rir e chorar. Esse alguém é por quem eu peço, como quem reza para si mesma, para ter uma vida abençoada.
Drica Moraes, 42 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Quando meu filho perdeu a audição, após uma meningite, aos 10 meses, senti como se o mundo me dissesse “não”. Só quando seus avanços começaram, minha tristeza diminuiu. Fiz fonoaudiologia para entender o assunto e fundei uma associação para usar o método Verbotonal, metodologia internacional de reabilitação. Há quinze anos, começamos a luta pela legenda na televisão, hoje obrigatória por lei. Agora, quando vejo meu filho feliz e realizado, percebo quanto foi importante sua integração na sociedade por meio da língua de sinais e dos avanços que conseguimos. A surdez se transformou em um interessante desafio na minha vida.
Helena Dale, 52 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Há dois anos, passei por um período difícil e fui para Salvador com um amiga. Não conhecia a Claudia, nossa anfitriã. Ao chegar, disse que não estava bem, e ela me cedeu sua cama. Passei dois dias deitada, e ela sempre ali, me confortando. Aos poucos, eu me reestabeleci. Ela não faz ideia de quanto seus gestos foram importantes. Nos tornamos grandes amigas e, hoje, agradeço por ter passado por aquela fase. Ela e as pessoas que conheci me tornaram alguém mais forte e bem resolvida.
Ana Mainá, 28 anos, Santo André (SP)
Sempre dizia que não namoraria alguém com filhos. Mas, há um ano, estou apaixonada por um homem que tem duas meninas maravilhosas. Elas me ensinam muito, e toda vez que ficamos juntas é mágico! Essa convivência tem me tornado uma pessoa menos egoísta. Quero ser mãe, e elas (sem perceber, porque são pequenas ainda) vão me ajudar a ser uma mãe melhor no futuro.
Lilian Amadio, 32 anos, São Paulo (SP)
Eu namorava havia quatro anos e meio quando descobri que estava sendo traída. Terminei na hora e percebi que tinha vivido uma vida que não queria: deixei amizades de lado, não descobri lugares novos nem pessoas. Um mês depois do término, conheci o Ricardo. Há oito meses, vivemos um relacionamento muito livre, feliz e diferente de tudo que eu imaginava. Algum tempo atrás, até mandei uma mensagem a meu ex agradecendo pelo que a nossa separação havia me proporcionado.
Ana Madeira, 20 anos, São Paulo (SP)
Estava tudo certo para minha viagem à França, em 2009. O voo era às 19h. Às 16h, olhei meu passaporte e descobri que estava vencido. Sempre fui muito organizado e não entendia como não tinha visto isso. Cancelei a passagem. No dia seguinte, descobri que o voo 447 da Air France, em que eu deveria estar, tinha sumido no Atlântico. Depois do choque, fiquei grato à minha falta de atenção. Foi como se eu ganhasse uma segunda chance de viver.
João Calaça, 39 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Fazia um lindo céu azul e eu estava no alto de uma jabuticabeira colhendo frutas. De repente, armou-se um temporal e só me lembro do barulho de explosão e de um clarão incrível. Pensei que havia chegado minha hora. Despenquei lá do alto e, quando acordei, em vez da árvore tinha um buraco no chão, saindo fumaça. Os pelos dos meus braços ficaram torrados, e eu cheirava à galinha sapecada no fogão à lenha. O médico me disse que foi um milagre sobreviver ao raio: a jabuticabeira pegou fogo e morreu. Depois disso, despertei e vi a vida de uma nova forma, como se eu tivesse ganhado a oportunidade de fazer de novo. Talvez só eu perceba, mas me transformei em uma pessoa melhor.
Maria Halfeld, 46 anos, São Roque de Minas (MG)

Depois de sofrer um acidente, Fernando Fernandes perdeu o movimento das pernas e ganhou uma nova vida: tornou-se atleta e campeão de paracanoagem // Foto: Guilherme Gomes/Assistente de Fotografia: Lucas Albin/Fotodesign: Felipe Gressler
Eu tinha 15 anos e havia acabado um curso que encaminhava jovens para o mercado de trabalho. Via todos os meu colegas trabalhando, menos eu. Soube que o motivo podia ser porque estudava de manhã e mudei para a noite. Mas, aí, um dia antes do início das aulas, não me oferecem um trabalho que exigia tardes e noites livres? Disse não. Até hoje agradeço essa demora. Foi no noturno que conheci o Leandro Henrique, que, hoje, é meu marido.
Thaize Henrique, 22 anos, Volta Redonda (RJ)
Há dois anos sofri um acidente de carro, lesionei minha medula e perdi o movimento das pernas. Tive medo e não imaginava como eu, que dependia da forma física, viveria com metade do corpo paralisada. Em um centro de habilitação, conheci meu “novo” corpo e tive contato com os esportes adaptados, como a canoagem. E foi remando que senti algo muito forte e decidi que a canoagem seria a minha vida. Em um ano e meio, conquistei dois títulos mundiais. Hoje, procuro passar o que vivi para outras pessoas, mostrando que é possível reconquistar a independência e liberdade por meio do esporte.
Fernando Fernandes, 30 anos, São Paulo (SP)
Sempre quis ser artista. Era o início da TV no Brasil, e ganhei o papel do Vigilante Rodoviário, no que seria a primeira série brasileira. Mas, para começar a atuar, precisei fazer o curso de policial. Acabei gostando tanto da carreira e do convívio com a polícia que, quando a série terminou, no fim dos anos 1960, prestei o concurso e me tornei um policial rodoviário federal. Hoje, sou o símbolo da Polícia Rodoviária do país e, de acordo com o Guinness Book, o único ator a virar o personagem na vida real.
Carlos Miranda, 78 anos, Águas da Prata (SP)
Em janeiro de 2009, eu e meu irmão fomos navegar no rio São Francisco. Ao chegar ao local do encontro do rio com o mar, decidimos mergulhar. Mas só quando entramos na água vimos quão forte eram as águas. Se não fosse um barqueiro ter se aproximado, teríamos morrido. Não me lembro das feições do homem que me salvou nem sei seu nome. Mas, desde aquele dia, enxergo a vida de outra forma. Aprendi que temos pouco tempo e não sabemos quando ele pode acabar. O melhor a fazer é não deixar coisas por dizer. E agradecer por termos um ontem, um hoje e um amanhã.
Caio Paganotti, 25 anos, São Paulo (SP)

















































