Droga Raia

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Há conversas que marcam a história. Que desvendam tudo. Que transformam espinhos em flores. Que mudam a vida. E sejam felizes, sejam tristes, nos ensinam que a única coisa mais difícil do que falar é ficar em silêncio
Texto: Ana Luísa Vieira e Roberta Faria, com reportagem de Flávio Carneiro, Jéssica Martineli e Juliana Dias // Fotos: Daniela Toviansky // Cenografia: Rafael Blas // Beleza: Élcio "Maizena" Aragão/Agência First // Produção de moda: Claudine Luz
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Um segredo guardado por anos. Uma declaração engasgada. Um pedido urgente. Uma notícia dura. Uma revelação repentina. Uma confissão necessária. Os maiores acontecimentos da vida pedem conversa. E ela nunca é fácil. O discurso que se ensaiou em diálogos imaginários vira branco. Ou o que se escuta pega tão de surpresa que mal se consegue reagir. Mas só assim – ouvindo, falando, respirando fundo para agarrar a coragem, chorando rios se isso for o jeito de dizer – é que se quebra o silêncio, o medo, o engano, a dúvida. Que se resolve o que estava enroscado. Que se alivia o que pesava demais. Que se começa um novo capítulo da história, mais feliz. Conversas sinceras têm o poder de mudar tudo. Talvez, justamente por isso, pareçam tão assustadoras às vezes. Melhor deixar quieto, então? Pois perguntamos a centenas de pessoas: qual a conversa mais importante que você já teve? E as respostas, que você lê a seguir, nos dizem que não há nada que não possa – e deva – ser dito agora.

 

 

Acordei em Berlim, na Alemanha, com uma tremenda dor de cabeça. Saí à procura de uma drogaria, mas ninguém na rua falava inglês – e eu tampouco entendia alemão. Apelei para a mímica: parava as pessoas e batia a cabeça nas mãos, fingia choro. A necessidade é língua universal: todos me compreenderam e apontaram o caminho. Quando cheguei à farmácia, mais gestos e caretas. A resposta, a boa e velha aspirina, não precisou de tradução.
Ivy Farias, 30 anos, Osasco (SP)

 

Estava em uma rua movimentada de São Paulo, quando notei um homem mal-encarado vindo na minha direção. Assim que se aproximou, estendi a mão, como se o conhecesse: “E aí, cara, tá perdido por aqui?”. Ele se assustou, mas puxei assunto. O rapaz contou que havia saído da prisão e precisava de dinheiro para visitar a família. Conversando, caminhamos uns 20 minutos. Perto do hotel em que eu estava hospedado, tirei a carteira e disse: “Esqueça o que passou. Sua vida começa agora. Te dou 50 reais para você ir visitar sua família”. Ele até viu que eu tinha mais dinheiro, mas não me ameaçou. Ao contrário. Com os olhos cheios de água, falou: “Posso te dar um abraço? Nunca ninguém conversou comigo assim. Esse papo ajudou a tirar ideias erradas da minha cabeça”. A lição foi grande para mim também.
Gustavo Acioli, 31 anos, Salvador (BA)

 

Passando em frente a uma casa, eu vi quatro cachorros muito machucados. Não consegui dormir, imaginando o que estava acontecendo. Tentei denunciar a situação à polícia, mas não deu certo. Cheguei a pensar que fosse algum maluco, ou que o dono havia abandonado a casa. Resolvi voltar lá e encontrei uma senhora no portão. Conversando, descobri que a mulher estava cuidando dos cachorros feridos. Se tivesse tocado a campainha antes, não haveria nenhum mal-entendido.
Mônica Duó, 25 anos, São Paulo (SP)

 

Era só pintar um gato de rua, um cachorro abandonado, um pintinho de brinde de festa junina, que a gente se encantava. O mais difícil eram as conversas com nossos pais sobre ficar com o bichinho. Haja negociação! “Prometo arrumar a cama, fazer todas as lições e levar ele para passear! Deixa, vai?!” Às vezes funcionava, mas quase sempre a gente era obrigado a engolir o “não” junto com o choro.
Bruno Bertoni, 18 anos, São J.  Rio Preto (SP)





A conversa mais difícil da vida de André foi também a melhor:
pedir Jéssica, hoje sua mulher, em casamento durante as férias

 


Tomei a decisão semanas antes das nossas férias em Buenos Aires. Preparei tudo: uma caixa, o anel, flores. Parti nervoso, pensando em como fazer, quais as palavras certas, tentando superar o medo de um “não”. Durante um jantar, tomei coragem. Bebi uma taça de vinho e fui até o banheiro montar a caixinha. Voltei à mesa suando frio. Rapidamente me sentei, olhei bem nos olhos dela e coloquei o pedido em sua mão, com uma carta que expressava melhor o que eu queria dizer. As lágrimas, o sorriso e o “sim” selaram o pacto pelo qual passaríamos o resto da nossa vida dividindo as conversas mais difíceis – e também as mais doces.
André Rodrigues, 27 anos, São Paulo

 

Lua de mel planejada, amigos e familiares na maior expectativa: estava tudo pronto para o casamento dali a um mês. Faltavam só os papéis da união civil, que ele não entregou. Graças à burocracia, descobri: ele não queria mais nada. Lembro-me de cada detalhe da conversa, da dor que senti ao ouvir que ele não me faria feliz. Nove anos depois, agradeço todos os dias pela sinceridade. Encontrei o amor da minha vida e entendo como aquele diálogo deve ter sido difícil para o meu ex-namorado. Nem sempre a honestidade é compreendida ou faz bem para quem a recebe. Mas, com o tempo, a gente vê a razão.
Ana Paula Sanches, 36 anos, Ubatuba (SP)

 

Devia ter uns 7 anos quando uma colega revelou que Papai Noel não existia. Discordei, mas fiquei incomodada. Fui perguntar: “Mãe, é verdade?”. Tranquila, ela respondeu: “É, ele não existe. Mas é legal acreditar, não é?”. Fiquei furiosa! Escrevi uma carta dizendo que não confiaria mais na minha mãe. Mas, numa conversa, ela me explicou que o legal era a magia, que fazia parte da infância. Me convenci. A partir daquele dia, quando alguém dizia que Papai Noel não existe, eu respondia: “Existe, sim. Para quem acredita”.
Liliana Francischini, 29 anos, São Paulo (SP)

 

No ano passado, minha filha, que hoje tem 25 anos, ganhou uma cachorra poodle, branca e sapeca. Só que ela não tinha tempo de limpar o xixi nem de ensinar o bichinho a se comportar. Estressado, não pensei duas vezes: disse à minha filha que a cadela havia fugido, e doei-a a uma família vizinha. Mas esconder a mentira foi doloroso. Acabei chamando minha filha para conversar. Pedi perdão por não ter sido paciente. Ela compreendeu. E aprendi que falar a verdade é sempre melhor.
Rodes Andrade, 47 anos, Nova Iguaçu (RJ)

 

Há quatro anos,  eu estava cheia de dívidas. A compulsão por compras me absorvia, e, sem contar a ninguém, ia me enrolando cada vez mais. Até minha casa já havia virado garantia de um empréstimo, quando comecei a ter insônia, pressão alta, arritmia. Todos percebiam que eu estava estranha. Só quando confessei a meu marido e a minha família foi que me libertei. Com  a ajuda de todos, consegui pagar o que devia e voltar a andar com a cabeça erguida.
Adriana Jesuíno, 40 anos, Praia Grande (SP)

 

Eu sempre me senti diferente. Minha mãe cobrava: “E aí, filhão, quando vai trazer uma namorada para o almoço?”. Eu apenas sorria, dizendo que era muito paquerador e não queria namorar – quando, na verdade, o que eu não gostava mesmo era de me relacionar com meninas. Convivi com esse fardo por anos, escondendo meus relacionamentos, sem ter o ombro da minha melhor amiga para desabafar. Quando comecei a faculdade, ironicamente, um dos trabalhos era sobre homossexualidade. Ela veio falar comigo e, enfim, contei. Caímos no choro. E, entre lágrimas e abraços, ela disse que nada mudaria entre nós.
Marcus Vinícius Fróes, 21 anos, São Bernardo do Campo (SP)

 

Só depois de adulta eu tive coragem de revelar os abusos sexuais que sofri durante a infância. O abusador era irmão do meu avô, e minha família nunca soube por que, quando cresci, tornei-me tão hostil com aquele homem. Quando ele apareceu no velório do meu avô, fiquei furiosa, e parti para cima dele. Ninguém entendeu nada. Na missa de sétimo dia, com a família reunida, minha mãe me chamou em um canto e perguntou o que havia acontecido. Apesar da vergonha, resolvi contar tudo. Choramos muito. Juntas, escolhemos superar a culpa e o ódio – e superamos.
C. S., 37 anos, Rio de Janeiro (RJ)

 

Minha sobrinha foi adotada ainda bebê. Pouco depois, minha irmã ficou viúva e decidiu não contar sobre a adoção. A menina linda cresceu, casou-se, teve uma filha e se separou. Nesse meio tempo, minha irmã descobriu um câncer já tardio. E nos pediu que, quando morresse, não deixássemos sua filha ter acesso aos documentos da adoção. Por ironia, dias após a morte de minha irmã, minha sobrinha encontrou a papelada. E aí entra a conversa mais difícil que já tive. Eu e minhas irmãs, por meio de gestos – minha sobrinha é deficiente auditiva –, tivemos de explicar a história. E deixar claro que sempre a amamos.
Márcia Machado, 45 anos, Mogi Guaçu (SP)





A conversa inesquecível de Luciana foi a que não aconteceu. Mas o que ela tinha a dizer a seu padrinho
expressou de outro jeito

 

 

A conversa mais difícil da minha vida foi justamente a que não aconteceu. Quando pequena, era muito apegada à minha madrinha, mas morria de vergonha do meu padrinho. Eu era certinha e quieta, enquanto ele era brincalhão e boca suja. Sofríamos os dois com a distância. Quando minha mãe deixou escapar que ele pensava que eu não gostava dele, meu mundo caiu. Fiz um plano para falar o que sentia: na minha festa de 11 anos, dei a ele e à minha madrinha cartões iguais escrito “Eu te amo”. Mas a declaração que eu faria não saiu: travei. Oito meses depois, ele sofreu uma parada cardíaca e entrou em coma. Tinha ouvido dizer que pessoas em coma escutam o que era dito a elas. E eu precisava dizer que o amava. Liguei para o hospital tantas vezes que convenci a coordenadora da UTI a me deixar vê-lo. Estava marcado para 1º de junho de 1992, ao meio-dia. Não deu tempo: ele morreu na madrugada do dia marcado. Jamais escutaria da minha boca quanto era importante na minha vida. No velório, minha madrinha mostrou o cartãozinho em que eu dizia que o amava: ele nunca o tirou da carteira.
Luciana Fuoco, 30 anos, São Paulo

 

Em 2008, descobrimos que minha mãe estava com câncer. Embora ela acreditasse piamente na recuperação, eu sabia da gravidade do quadro. Todos os dias, chorava debaixo do chuveiro, imaginando como seria a vida sem minha mãe por perto. Uma noite, não aguentei e fui ter com ela a conversa mais difícil da minha vida. Com muita tranquilidade, minha mãe disse que eu não ficaria sozinha: tinha minha família, meu namorado. E que deveria ficar em paz, porque assim é a vida. Quando ela morreu, lembrar esse diálogo me ajudou a aceitar melhor a situação, sem revolta nem arrependimento por não ter dito a ela o que eu gostaria.
Juliana Macedo, 35 anos, Curitiba (PR)



VEJA MAIS:

Clique aqui e confira o Making of das fotos para o Amar da Sorria 20.

• Confira mais uma seleção de conversas difíceis que nossos leitores tiveram, clicando aqui.

• Veja aqui o nosso especial para a seção Amar.

 

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