Droga Raia

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Texto: Nina Weingrill // Foto: Daniela Toviansky
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João mal passou de 1 metro, mas se acha gigante. Ele aporrinha a tia porque quer falar com o primo ainda não nascido pelo buraco do umbigo dela. Gruda na barriga grávida a boca babada de Danoninho: “Eu sei como você foi parar aí”, sussurra. Voa pelo jardim de nuvens verdes da casa com uma capa vermelha no pescoço. O céu é tudo pra ele, que achava que Deus estaria lá, até a primeira viagem de avião. Tirou os olhos da janelinha, virou para a mãe e disse: “Aqui não tem Deus, não”. Outro dia alguém comentou que tatuagem não se faz quando velho, então João avisou: da próxima vez, nasce tatuado. Se come bolo quente, grita depois de dor no útero (que não tem). De outra vez jogaram sua lancheira no lixo. Estava velha. Mas João pisou bem forte com o pé no chão e chorou. Não queria um Batman novo. Queria o herói descascado, com a pontinha descolando. Quer crescer logo, mas não cria juízo. “Sei lá quem é esse tal de Juízo?”, responde. João vê o mundo de outro jeito, que esquecemos conforme a idade passa. Conversar com crianças nos faz lembrar de que as coisas não precisam ser tão retas, tão previsíveis, tão... chatas. Para a lógica da infância, o mundo continua absurdo, possível e divertido como antes.

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