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Fazer a banda passar

Em uma ensolarada manhã de 1996, Flávio Pimenta passeava com seus cães pelo Morumbi, bairro nobre da capital paulista que faz divisa com uma das maiores favelas da cidade, a Paraisópolis. Estava pensativo. Acabara de receber um convite para ir morar nos Estados Unidos, uma chance e tanto de aprimorar sua carreira de músico. Numa poça de esgoto, ele avistou uns meninos brincando. A visão lhe incomodou. Pensou na filha adolescente, que acabara de se mudar com a mãe, de quem Flávio estava recém-separado. Num impulso, se aproximou-se dos garotos e disse: “Sou baterista, estou montando uma banda, vocês querem tocar comigo?”. Sem nada melhor para fazer, três deles seguiram com Flávio ao estúdio que ele tinha em casa.
No dia seguinte, os três viraram cinco. Um mês depois, chegaram mais dez. “Quando desisti de ir para os Estados Unidos, ninguém entendeu nada. Minha filha falou: ‘Eu achei que teria um pai pop star e você vai virar o Betinho? (em referência ao falecido ativista social Herbert de Souza)’.” Flávio alugou o sobrado ao lado da sua casa e, em 1997, fundou a Associação Meninos do Morumbi. Hoje, a organização não governamental oferece aulas de música, dança, inglês e informática a 3 mil jovens. Formam uma grande banda, com a qual Flávio já se apresentou não só nos Estados Unidos, mas também na França, Inglaterra e Brasil afora. Na entrevista a seguir, ele conta como aquela manhã ensolarada transformou a sua vida e a de tantas crianças.
Vocês são uma escola de música?
Flávio – Não. Ensinamos música, temos parcerias que permitem a inclusão de cerca de 60 alunos bolsistas em conservatórios e grupos de dança, mas nosso objetivo é mais abrangente. Queremos ampliar o leque de escolhas dos jovens, compartilhar conhecimentos e valores, estimular o prazer em aprender, conviver, empreender e protagonizar. A grande preocupação é estimulá-los a entender a diferença entre o que faz bem e o que faz mal para si e para o outro.
E como vocês fazem isso?
Flávio – Permitindo aos meninos fazer parte de uma banda, com todas as diferenças, desavenças e aprendizados que esse convívio pode proporcionar. E os estimulando sempre a fazer benfeito. A ensaiar, suar a camisa e se esforçar para realizar os sonhos no dia a dia. Certa vez, estávamos já no ônibus saindo pra tocar em uma balada quando um menino que sempre faltava nos ensaios apareceu. Ele estava drogado, e a molecada veio pedir pra que eu não o deixasse ir, pois erraria tudo, comprometeria horas e mais horas de ensaio. Gritei ao motorista que, enquanto o garoto estivesse no ônibus, não era pra arrancar. Então o grupo inteiro se virou pro menino e disse pra ele descer logo do ônibus, porque estava atrapalhando. Ele saiu, sentou-se na calçada e começou a chorar. A partir daí, passou a frequentar as aulas. É o coletivo que abraça e que repele. E você só descobre quanto é forte e tudo o que tem quando compartilha.
Antes de tudo, vocês são uma banda...
Flávio – Isso mesmo. Aqui não sou o presidente, fundador nem maestro... Eu sou o “Fravão” – uma espécie de bandleader. A gente toca junto. Eu também sou um Menino do Morumbi. Mas demorou pra nos enxergarem assim. No início, quando a gente começou a tocar em eventos, as empresas nos chamavam pra fazer marketing de responsabilidade social... O mestre de cerimônias apresentava a gente assim: agora vocês vão ouvir música brasileira feita por jovens da favela, pobrezinhos, coitadinhos, que poderiam estar passando fome se não fosse esse projeto maravilhoso... Isso nos diminuía tanto! Comecei a convencer as empresas a não cair nesse discurso. Você pode dizer que é favelado, mas não diz que é coitadinho. Isso gera um estigma. Eu não parei minha vida pra ajudar coitadinhos. Eu peguei o meu projeto de vida, aquilo de que eu mais gosto de fazer, e abri pra todo mundo. E até hoje faço de tudo pra que a gente tenha sucesso e qualidade. Quero que a banda seja boa o suficiente pra ganhar mais prêmios, muito dinheiro e comprar todo o quarteirão.
Por falar nisso, de onde vêm os recursos que sustentam a banda?
Flávio – Dos cachês. Em 2008, fizemos 87 shows, especialmente em empresas. Nunca fizemos campanha de captação de recursos. Já passamos por muitas dificuldades, mas pedir dinheiro é triste. A gente prefere ficar duro por um tempo, esperar o próximo show, pedir empréstimo pro banco... Mas não passamos o pires. Teve um ano em que quase fechamos as portas. Mandei um e-mail pra 80 amigos ricos. Só um ajudou.
Você faz questão de que a banda tenha qualidade técnica para andar com as próprias pernas...
Flávio – Não gosto de incompetência, de gente que não busca, não vai à luta, não tem sonho. Acho que é por isso que a gente nunca teve o estigma assistencialista. Não é muito mais fácil tirar 2 reais do bolso e entregar a uma criança? Sim, claro, mas isso não é o que transforma. Você tem de pegar aquilo que mudou você pra transformar o outro. Se não for assim, é assistencialismo. Não acredito em projeto social que ensina de tudo, só dá repertório, e não mostra como batalhar no dia a dia, ter perseverança e brigar pelo sonho.
O verbo não é ajudar. Qual é, então?
Flávio – Compartilhar. O melhor de si. E provar que a cada dia é preciso ser melhor pra que aquilo que eu compartilho também seja. Eu era um músico meio frustrado, indo embora do Brasil, separado, filha ficando grande – “o que vou fazer da minha vida?”. Aí fui me redescobrindo. Só me sinto forte quando conquistamos algo no coletivo. Quando fazemos um show legal. Quando vejo o moleque alcançar outro patamar. Eu me sinto parte da vida deles. O que eu queria deu certo. É muito intenso. Isto aqui não é algo que arrumei pra fazer da minha vida. É a minha vida.

















































