Droga Raia

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Fé na vida

Há uma força ilimitada sustentando a nossa existência. É ela que nos faz levantar da cama e lutar para concretizar tudo aquilo que planejamos. Muito se especula sobre sua origem, que por vezes parece mágica. A única resposta certeira é que ela vive dentro de nós
Texto: Dilson Branco e Nina Weingrill // Foto: Daniel Malva // Boneco: O Silva
Fé na vida
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Há dias em que o sol parece brilhar de uma maneira especial para a gente. Em 29 de agosto de 2004, pico do verão no hemisfério norte, os fortes raios matinais que invadiram a Vila Olímpica de Atenas, na Grécia, lembraram Vanderlei Cordeiro de Lima que era dia de fazer história. Mais uma vez, ele mentalizou a sequência de imagens que há anos se forçava a vislumbrar, que sempre soube que aconteceriam, e que estavam mais próximas do que nunca de se tornar realidade. A linha de chegada, os braços levantados, a medalha no peito. A concretização de um sonho que nenhum compatriota jamais havia atingido.

Enfim chega a hora. A elite do atletismo mundial aglomerada ante a linha de largada. As ruas da capital grega em festa, milhares de pessoas nas calçadas, outros milhões assistindo de suas casas ao redor do globo, aguardando a última e mais emblemática prova do mais importante evento esportivo do mundo. É dado o tiro. Vanderlei logo desponta na frente. O percurso está memorizado, ele segue instintivamente. A cana espetando os dedos, a reprovação da família ao decidir ser atleta, os dias que teve de passar com uma marmita de pão e leite, tudo fica para trás. Faltam apenas 6 dos 42 quilômetros, e a prova segue à perfeição.

Então o mundo desaba. Um homem invade a pista, agarra Vanderlei e o empurra contra o público. Ninguém entende o que está acontecendo. A TV mostra a fisionomia de horror do brasileiro. A respiração se descompassa, a concentração evapora, os músculos se enrijecem. O imenso absurdo da situação, o estresse físico e mental do obstáculo inimaginável são motivos mais que suficientes para interromper tudo, lamentar-se, render-se ao desejo do corpo de não mais levantar do chão.

Mas Vanderlei tinha certeza de que o final da história não seria assim. Ergueu-se e seguiu. O inacreditável incidente favoreceu a ultrapassagem de dois adversários. O esforço sobre-humano de Vanderlei lhe garantiu o terceiro lugar no pódio, braços levantados, medalha de bronze no peito, um estádio inteiro o aplaudindo de pé, o melhor resultado brasileiro em maratonas olímpicas da história e o reconhecimento mundial do seu exemplar espírito esportivo ao seguir adiante.

No momento em que forçou a musculatura paralisada e se levantou para conquistar seu objetivo, Vanderlei foi movido por um dos mais poderosos valores humanos. Pela força responsável pelos maiores feitos da civilização, sejam eles esportivos, científicos, artísticos, políticos, religiosos. Um impulso que nos testa o tempo todo, que nos faz continuar respirando, que nos impele a seguir nossa convicção mesmo quando tudo parece aconselhar o contrário. Um estímulo que transcende a razão, potencializa nossas capacidades e nos aproxima da plenitude. Vanderlei levantou porque acreditou.

Em si

Seja uma grande realização, seja um acontecimento rotineiro, todo o momento da vida de cada um de nós pode ser explicado pela fé. Não especificamente a fé religiosa, como a palavra pode sugerir, mas um sentimento de crença bem mais abrangente. “A fé é a própria energia vital”, afirma o estudioso Etienne Higuet, autor do livro Teologia e Modernidade. “É uma atitude que todos têm perante a vida e os outros. Precisamos confiar, por exemplo, no governo, no professor, nos companheiros de trabalho. É tão vital que aquele que não acredita se vê sem motivos para continuar a viver”, completa. É o tipo de sentimento que faz uma família mudar de cidade em busca de melhores condições para viver. Como fizeram os Cordeiro de Lima, em 1969, quando trocaram Cruzeiro do Oeste (PR) pela vizinha Tapira, em busca da casa própria.

Foi no novo lar que Vanderlei passou a maior parte da infância. Na sala onde dormia com os seis irmãos mais velhos havia apenas um colchão, feito de palha de milho. No quintal, galinhas e alguns porcos. Em torno do terreno, fazendas e riachos que davam ao menino a ideia de infinito. Vanderlei corria por todo lado. Na 4ª série, na aula de educação física, descobriu que nem todo mundo era tão rápido nem tão resistente. O professor disse que ele tinha dom para o atletismo. Varderlei duvidou – fã de Zico, queria mesmo era ser jogador de futebol –, mas aceitou o tênis emprestado pelo diretor e começou a competir. Bastou a primeira medalha para ele próprio passar a acreditar na carreira, e em tudo o que ela poderia lhe proporcionar. Pela TV do bar da pequena cidade, Vanderlei via campeões desfilando seus troféus, batendo recordes, viajando o mundo – e ele viajava junto.

Mas a realidade chamava de volta. Na época da colheita, Vanderlei e os irmãos ajudavam os pais a cortar cana das 5 da manhã às 5 da tarde. Quando acabava o serviço, calçava os tênis e enfrentava os 15 quilômetros do campo até a casa correndo. Os irmãos, confortáveis no trator, faziam chacota da mania do caçula.

Todo mundo também achou estranho quando, aos 14 anos, Vanderlei decidiu ir mais longe: mudar-se para Maringá, para viver do esporte. Onde já se viu largar casa e família para investir nessa possibilidade remota? Mas Vanderlei foi. Penou e, enfim, conseguiu uma bolsa para treinar em São Paulo. Porém, isso estava longe de ser uma garantia de conforto. “Me pagavam 200 reais por mês. Tinha de economizar no passe de ônibus e também na marmita – uma caixinha de leite com pão que tinha de sustentar pelo dia inteiro”, conta.

Anos se passariam até Vanderlei conseguir um bom patrocínio e brilhar em competições internacionais, como a Olimpíada de Atenas, em 2004. Será que ele era bom mesmo? Será que tinha condições? Vanderlei sempre preferiu acreditar que sim. “A fé é um sentimento que nos ajuda a enfrentar nossas fragilidades e a suportar as dificuldades”, afirma Josias Pereira, professor de psicologia da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. “Projetamos numa força superior aquilo que precisamos resgatar dentro de nós. Essa força é regida pela confiança em algo que seja capaz de transformar nossa vida. Esse objeto pode ser Deus, ou pode ser você mesmo”, completa o professor.

No caso de Vanderlei, a força era fundamentada no seu talento e em sua determinação. Criado com a ideia de que o mundo tinha porteiras bem fechadas e poucas oportunidades, o paranaense surpreendeu por estar convicto na possibilidade de seus sonhos, mesmo quando ninguém mais acreditava. Hoje, aos 41 anos, ganhador de medalhas em vários torneios, provou para o mundo inteiro que sempre esteve certo.

Na prisão, Ronaldo aprendeu que a fé nasce do conflito
e cresce pela prática: a partir da confiança que dedicamos
aos outros e da crença que depositam em nós


No outro

Enquanto a carreira de Vanderlei decolava, a vida do niteroiense Ronaldo Monteiro perdia-se. Filho mais velho de uma família de classe média, ele era um aluno esforçado, inteligente, atendendo às expectativas da mãe, que tinha como principal prioridade a educação dos filhos. Cursou colégio técnico, iniciou duas faculdades. Mas um dia entrou no mundo dos jogos de azar e tornou-se compulsivo. Perdeu tudo o que tinha e mergulhou nas drogas. Para sustentar o novo vício, tornou-se criminoso. Em 1991, aos 32 anos, ele foi preso por extorsão e sequestro e considerado um dos maiores inimigos públicos do estado do Rio de Janeiro. Ao olhar para seu futuro, ele via um longo período de 14 anos encarcerado. E, depois, imaginava a triste realidade de ser um ex-presidiário, num país onde 60% das pessoas nessa condição acabam retornando à marginalidade. “Eu achava que não tinha mais jeito. Que meu caminho era sem volta. Que eu havia desperdiçado todas as chances que me foram oferecidas”, lembra.

Mas, na prisão, Ronaldo aprendeu duas lições sobre a fé. A primeira: “Apesar de ter como produto final a paz e a harmonia, a fé nasce do conflito”, como explica o professor Josias. Foi no desespero do fundo do poço que Ronaldo deu o primeiro passo para sua recuperação. Ao ver o tédio e o tempo perdido pelos filhos dos presidiários nos dias de visita, quando ficavam horas no pátio, sem fazer nada, ele pensou em propor atividades educativas. Para pôr isso em prática, precisava que o diretor do presídio acreditasse na sua iniciativa. E o respaldo veio. Com o estímulo da direção, Ronaldo teve a chance de novamente fazer algo produtivo em sua vida, sentir-se útil, acreditar em si mesmo. “Só tive fé quando alguém demonstrou que confiava no que eu estava fazendo. Fui tratado, pela primeira vez em muito tempo, com carinho e decência”, conta. Aí ele aprendeu a segunda lição: “A fé cresce pela prática, pelo exercício, em duas direções opostas e complementares – a partir da confiança que depositamos nos outros e a partir da fé que os outros depositam em nós”, pontua Etienne Higuet.

O Projeto Criança, como foi chamado, incentivou a visita dos filhos aos presidiários, resultando inclusive em menor violência na prisão. O sucesso levou Ronaldo a bolar novas ideias. Ele ficava pensando em maneiras de garantir para si e para os companheiros de prisão um futuro digno após a liberdade. Como vencer o preconceito contra os ex-detentos e conseguir um emprego? Ora, se isso é impossível, então a saída é se tornar um empreendedor. Mas como dar essa guinada? Para responder a essa pergunta, em 2007, três anos após sua libertação, Ronaldo fundou a Incubadora de Empreendimentos para Egressos (IEE).

A organização incentiva os presidiários a planejar seu futuro ainda dentro das celas. Ajuda a determinar com qual atividade a pessoa tem afinidade, auxilia a enxergar oportunidades no bairro onde voltará a viver, estimula a guardar dinheiro ainda na prisão para poder investir no empreendimento assim que a liberdade vier. Também presta auxílio psicológico e dá cursos de capacitação e apoio financeiro. Com a ajuda de grandes empresas e do governo, o projeto deslanchou, e mais de 100 ex-detentos já foram beneficiados. Entre os empreendimentos mais bem-sucedidos há um serviço de produção e distribuição de marmitas e uma pequena fábrica de roupas íntimas.

Salvar a natureza, atingir a igualdade social, proteger a diversidade
cultural. Quanta fé será necessária para essa missão?
Roberto pode não saber a resposta – mas não
deixa de enfrentar diariamente o desafio


Quando Ronaldo pensa nesses resultados, lembra-se do dia em que o diretor da prisão lhe estendeu a mão, dando oportunidade para que ele reerguesse sua autoestima. Vê quanto ele próprio mudou, tendo saído de uma situação de total agonia e ausência de horizonte. E percebe como a fé se multiplica, ao observar a onda de transformação que ele foi capaz de gerar: “Temos vários Ronaldos, que acreditam que são capazes e que, pela fé, conseguem mobilizar seus familiares a acreditar neles também”.

No mundo

O círculo positivo que Ronaldo criou mostra que a confiança fermenta na troca – e que acreditamos mais em nós (e nos outros) se recebemos apoio. Então, como alimentar a fé quando o sonho não tem eco? Quando ele parece impossível? Uma meta como, por exemplo, proteger o planeta da degradação ambiental. Ou lutar pela justiça social, econômica e política, protegendo a diversidade cultural e natural da Terra. Transformar o modo como vivemos e promover o desenvolvimento sustentável. Basicamente, mudar o mundo. Quanta fé será necessária para essa missão? Roberto Smeraldi, de 49 anos, pode não saber a resposta – mas enfrenta o desafio.

Italiano, desde cedo percebeu que era um cidadão do mundo. Como jornalista de guerra, no decorrer dos anos 1980, cobriu conflitos em quase todo canto: da América Central à África, das Filipinas ao Afeganistão. Ao testemunhar os sangrentos confrontos em meio a regiões de abundantes recursos naturais, teve a sacada: se a humanidade seguir explorando o planeta de forma irracional, não haverá futuro. Isso numa época em que a palavra sustentabilidade ainda estava longe de entrar na moda. “Era um setor sem oferta de trabalho. Os defensores do meio ambiente estavam iniciando debates. Achei que esse seria o caminho que eu deveria trilhar: o de abrir uma frente importante”, conta. Atraído pela maior floresta tropical do mundo, veio parar no Brasil. “A Amazônia, por sua grandeza e dimensão, tornou-se para mim prioritária. Com os seringueiros, ribeirinhos, indígenas e castanheiros, pude enxergar de perto a relação entre homem e floresta”, afirma.

Mas Roberto não veio só observar. Em 1988, ele e outros ambientalistas fizeram uma campanha contra a instalação de cinco barragens na região do rio Xingu, que deixariam comunidades indígenas sem acesso à água e inundariam uma imensa área de floresta. Deu certo: pela primeira vez na história, um grupo defensor das causas verdes conseguiu reverter uma decisão do conselho dos diretores do Banco Mundial. E era só o começo. Um ano depois, Roberto fundou a entidade Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, que luta amplamente pelo desenvolvimento sustentável.

Uma das mais importantes vitórias da organização foi convencer alguns dos maiores bancos brasileiros a aderir ao Princípio do Equador, um protocolo internacional que responsabiliza as instituições financeiras por eventuais acidentes ambientais causados por suas empresas parceiras. Em outras palavras, Roberto conscientizou os banqueiros a não mais emprestar dinheiro para companhias ambientalmente irresponsáveis. Com isso, interrompeu um fluxo de bilhões de reais. Peitou interesses de diversos setores. Mudou um paradigma tão antigo quanto o capitalismo, fazendo com que alguns dos maiores agentes financeiros do país revissem seus princípios. Mostrou aos investidores que vale a pena abrir mão de imensos lucros a curto prazo, em troca de benefícios futuros seguramente mais importantes.

Essa conquista, apesar de muito significativa, é apenas um pequeno passo rumo ao imenso objetivo que Roberto persegue: a criação de um mundo sustentável. A batalha é tão extensa que não é capaz de ser ganha no tempo de uma vida. Então de onde vem a força para acreditar que vale a pena?

Um estudo conduzido pela Universidade de Montreal, no Canadá, ajuda a explicar. Ao analisarem o funcionamento do cérebro de religiosos budistas, os cientistas verificaram que, enquanto eles meditam, a parte do órgão responsável pelas noções de espaço e limites tem sua atividade significativamente diminuída. Ou seja, a pesquisa mostrou que as pessoas que acreditam em algo têm mais facilidade para se enxergar como parte de um todo contínuo. É o caso de Roberto. Ele sabe que, ao lutar pelo mundo, está beneficiando a si mesmo e a toda humanidade. “Só faço o que faço porque acredito nos resultados das minhas ações. Preciso ter fé”, afirma. Por isso vale a pena, mesmo que ele, ao fim da vida, veja que o mundo ainda não está exatamente do jeito que sonhou. “A fé não espera recompensa, ela espera uma vida com sentido e com amor. Podemos receber um pouco disso todo dia. O que alimenta a fé é a própria força da vida, mesmo numa existência frágil e sempre ameaçada pelo fracasso, pela doença e pela morte, da qual ninguém escapa”, afirma Etienne Higuet.

Atingir um improvável objetivo pessoal, como o atleta Vanderlei. Resgatar a própria dignidade e garantir o mesmo a quem está ao alcance, como o empreendedor social Ronaldo. Construir um planeta melhor, em que a vida humana continue por muitos milênios, como Roberto. Para feitos dessa magnitude – e também para outros bem mais comuns, como construir uma família, viajar sozinho, dizer sim a uma paixão, torcer por um time – é preciso ter fé. Em si, no outro, no mundo. Como ensinam essas histórias, tudo de que precisamos para agir é uma força que já existe dentro de nós. Basta acreditar.

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Comentários:
a fé não pode falhar!!!!!!
walter ambrósio
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