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Feito a muitas mãos

Partilhar experiências, idéias e gostos. É assim que vamos trabalhar daqui pra frente
Texto: Nina Weingrill, com reportagem de Gustavo Pereira // Ilustração: Thiago Almeida
Feito a muitas mãos
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Quando duas ou mais pessoas trabalham juntas para alcançar um mesmo objetivo, o resultado quase sempre surpreende. O fato é que duas cabeças pensam melhor que uma. Essa idéia, aparentemente simples, sustenta o mundo. De cooperativas de reciclagem a enciclopédias na internet, colaborar é tarefa essencial no nosso dia-a-dia. Se você ainda não faz, vai precisar aprender. Por quê? Segundo James Surowiecki, autor do livro A Sabedoria das Multidões, as empresas começaram a perceber que os resultados melhoram quando todos têm o mesmo objetivo. Para ele, grupos com pessoas diversificadas solucionam problemas com mais eficiência. E o melhor: todos levam o crédito.

A troca vale mais

Em um mundo competitivo como o nosso, uma situação em que todos saem ganhando parece rara. Mas existe. Sérgio Longo, de 41 anos, descobriu que trocar experiências, erros e acertos pode mudar uma vida. Em 2003, Longo, que foi morador de rua, entrou por engano em uma fila da Coopere – uma cooperativa especializada em reciclagem. Cinco anos se passaram e Sérgio, hoje tesoureiro da Coopere, viu sua vida tomar outro rumo. “Virei gente”, diz. “Achava que estava fora do mundo, que não pertencia a lugar nenhum, e agora aqui estou. Eu precisava fazer parte de um grupo.”

Na Coopere, as pessoas se unem para trabalhar pelo sucesso do empreendimento. E, claro, ganham dinheiro por seu esfor-ço.  “Para receber a recompensa, no entanto, é preciso escutar os outros. E aí você passa a trocar experiências, a ampliar seu conhecimento e a desenvolver novas habilidades. Sua atitude muda e a auto-estima cresce”, afirma Mariza Camalionpe, psicóloga especialista em recursos humanos..

A colaboração permite a todos – dentro de uma companhia, empresa ou de um mesmo grupo – ter um nível semelhante de conhecimento. E isso democratiza a sociedade, fazendo com que as pessoas trabalhem para um bem maior.  “O trabalho cooperativo é como um time de futebol. Se o volante é driblado, o zagueiro precisa ir atrás e fazer a cobertura. No final, todos ganham ou perdem juntos”, diz Mariza.

O trabalho colaborativo exige que se escute o outro. A troca de experiências
leva ao desenvolvimento de novas habilidades e a uma mudança de atitude,
em que cada um faz a sua parte e todos têm o mesmo objetivo


A internet mudou tudo

Revoluções na tecnologia, na economia global e na sociedade são as maiores responsáveis pela criação desses novos modelos de relacionamento, todos ancorados na comunidade e na auto-organização. E isso não é sinônimo de anarquia. Como no esporte, em que o capitão representa os outros jogadores, a colaboração também pede hierarquia. “Mas ela é reconhecida pelos trabalhadores, que vêem em alguém a capacidade de fazer o negócio funcionar”, avalia a psicóloga.

De acordo com uma pesquisa feita pela especialista em colaboração virtual Jaclyn Kostner, a cultura da cooperação ultrapassa até as diferenças regionais. É só encontrar quem tenha interesses parecidos com os seus que você pode bolar, trabalhando junto a distância, um roteiro para a TV,  seqüenciar o genoma humano, remixar uma música, encontrar a cura de uma doença ou aperfeiçoar um novo software.

Matheus Rossi e Milan Repovž são prova disso. Separados por 9,3 mil km, o bancário mineiro e o estudante de engenharia de Liubliana, na Eslovênia, utilizam o Linux – um tipo de Windows, só que gratuito – para trocar informações e aprimorar o programa. Os dois criam ferramentas para o software e redistribuem suas mudanças pela internet, deixando o Linux cada vez melhor. “Eu não conseguia fazer o processador entender o que futebol significava”, lembra Matheus.  Milan o ajudou. Agora trocam até cartões de Natal: o trabalho colaborativo também ajuda a fazer amigos.

Flickr, Second Life, YouTube e outras comunidades on-line sobrevivem dessa maneira. O filósofo francês Pierry Lévy classifica esse fenômeno como “inteligência coletiva”, muito bem exemplificado pela Wikipédia, uma enciclopédia on-line em que os usuários acrescentam e editam os verbetes sentados em casa e sem ganhar nada por isso. A versão em português do site já tem mais de 371 mil artigos e sua margem de erro é menor do que a da conceituada Enciclopédia Britânica.

Agora, nada disso acontece sem envolvimento. Para Henry Jenkins, do Instituto Tecnológico de Massachusetts, o trabalho colaborativo, em qualquer âmbito, forma-se ao redor de interesses comuns. “O conhecimento construído por essas pessoas é tão sério e comprometido que pode ser maior do que a experiência de qualquer especialista”, diz Henry. É só começar.
 

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