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Ginástica de cérebro

Exercitar os neurônios pode ser um bom modo de solucionar problemas de memória ou dificuldades para aprender. E existe até academia para isso
Texto: Rachel Tôrres // Ilustrações: Pedro Hamdam
Ginástica de cérebro
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A aula está chata? O dentista atrasou a consulta? Sem problemas. A estudante de engenharia Marcela Rubim, 19 anos, tem sempre à mão um recurso para as horas vazias. Desde a infância, a mineira é viciada em jogos de raciocínio: coleciona quebra-cabeças e não abre mão do tabuleiro de campo minado. Só sai de casa acompanhada por um jogo de cálculo sudoku, o cubo mágico ou uma palavra cruzada. Quem a vê com essas companhias, porém, nem sempre entende. “O sudoku, então, é o mais rejeitado!”, brinca. É aí que, armada de paciência professoral, ela se oferece para explicar como pode ser interessante preencher os quadradinhos com números.

Para Marcela, os exercícios de lógica são pura diversão. E há quem leve ainda mais a sério que ela a “malhação” de neurônios oferecida por essas atividades. É o caso do advogado paulistano Marcelo Faria, de 48 anos, que até frequenta uma academia para exercitar as ideias – a Supera, uma rede de escolas de ginástica cerebral criada por um engenheiro do ITA (o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, referência no país em ciências exatas). Para aperfeiçoar a concentração e o raciocínio, o método usa alguns jogos da bolsa de Marcela, como o sudoku e as cruzadas, e opções clássicas como o ábaco, a primeira calculadora criada pelo homem.

A escola, que existe em 13 estados, atrai profissionais de todas as áreas – como Marcelo, que se interessou pela promessa de melhorar a criatividade, a disciplina e a coordenação motora com os cálculos e jogos. “Nas aulas, trabalhamos muito com contas matemáticas, algo que não faço no dia a dia”, conta. A filosofia do curso é que não estimulamos todo o cérebro quando focamos só em nossa atividade profissional. Os cálculos, por sua vez, exigem outras áreas da mente e exercitam a atenção e trabalham habilidades que podem ser aplicadas a diferentes espaços da vida. Com duas horas de “ginástica” por semana, Marcelo completou o curso na metade dos 18 meses previstos e reduziu no trabalho o tempo para redigir um processo. “Passei a me concentrar mais e melhorei minha memorização”, comemora.

De ponta-cabeça

Durante as aulas, Marcelo teve contato também com outro tipo de atividade, a neuróbica. O conceito é recente e foi desenvolvido pelo neurocientista americano Lawrence Katz. A base da proposta, publicada no livro Mantenha Seu Cérebro Vivo (Editora Sextante), é que os neurônios, como os músculos, precisam ser usados para que suas conexões fiquem mais fortes e saudáveis – e exercícios ajudam. Com essa teoria, Katz arrumou seguidores em todo o mundo, como a dona de casa Regina Morais, de 81 anos. “Eu estava sentindo a memória fraca”, diz a moradora de Porto Alegre, que pratica neuróbica desde 2009.

Para começar, ela, que é destra, passou a comer e a escrever com a mão esquerda. Também aprendeu a andar de costas e a deixar as fotos de seus porta-retratos de cabeça para baixo. Algumas tarefas, ela faz em casa, outras, no consultório de sua terapeuta ocupacional, que determina os exercícios e monitora os resultados. As técnicas obrigam a mente a fazer conexões que não realiza usualmente, o que acaba por melhorar o desempenho do cérebro em geral. “Estou me comunicando melhor”, conta Regina. “Antes não falava muito. Agora, eu me sinto mais à vontade para conversar com outras pessoas”. A maior interação ajuda a autoestima, que, num ciclo benéfico, também estimula a memória.

É que nossa memória funciona como uma teia, formada por um emaranhado de lembranças. O segredo dos jogos de raciocínio e das tarefas feitas de um jeito diferente é que eles estimulam a atenção e o aprendizado integral. “O corpo todo aprende”, diz Vera Tordino Brandão, pesquisadora do Núcleo de Estudos do Envelhecimento da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Não existe aprendizagem que não passe pelos cinco sentidos”, diz. Quanto mais ligações forem construídas no momento do registro, mais sólida será a memória. Se, ao contrário, a atenção fica fora de foco, as memórias também se tornam superficiais e acabamos esquecendo-as.

“É como se o teclado de seu computador estivesse em sânscrito. Por mais que a máquina esteja boa, você não consegue decodificar o que vê e, por isso, não armazena nada”, explica Ivan Okamoto, coordenador de neurologia do Instituto da Memória da Universidade Federal de São Paulo. A solução para fazer as teclas voltar ao português é encontrar o equilíbrio entre trabalho e lazer, prestar mais atenção à alimentação, dormir melhor e controlar o estresse. Exercícios – aqueles para o corpo – também ajudam, pois aumentam a circulação sanguínea, dando mais oxigênio às células, inclusive às cerebrais.

E, por fim, nada de sobrecarregar o sistema. Como os músculos, o cérebro também está sujeito a “contusões” pelo cansaço. Levar uma vida saudável e enveredar pelo caminho dos jogos criativos na medida certa é um sopro inovador não só para a memória, mas também para a rotina. Quer ver só? Experimente tentar encontrar na ilustração desta página:

• 30 objetos que começam com a letra "P",
• 6 bons cubos mágicos,
• 5 cérebros bacanas e
• 12 instrumentos musicais.

Achou?  

 

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