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Gol é gol de qualquer jeito

Existe um negócio milionário que põe jogadores famosos em anúncios de barbeador na TV. Também tem as notícias de contusões, forjadas em excesso de treino, nos jornais. E aquele fervor em doses homeopáticas, guardado para as Copas do Mundo, de quatro em quatro anos. Superatletas, supercachês. Isso é futebol?
Carlinhos achava que não. Na década de 80, em Maringá, no interior do Paraná, Carlos Azevedo era o último menino escolhido para o time que enfrentaria os marmanjos do quarteirão de cima. A rejeição calçava seus pés com concreto: ele nunca marcava gol nem dava passe venerável. O clássico perna-de-pau. E daí? Carlinhos sempre jogou futebol.
Quando adulto, provavelmente continuaria driblando nos torneios de várzea. Manejando os jogadores de botão no boteco. Suando na arquibancada do estádio. Faria gol no futebol de todos, dos que não se chamam Kaká nem Beckham. Mas não. Carlinhos hoje tem fama e salário de craque na seleção do Qatar, o minúsculo e milionário país do Oriente Médio.
Começou no futebol profissional na liga jovem do Atlético Maringaense, pulou para o banco de reservas do Coritiba, e daí despertou o interesse dos árabes. Ao telefone, numa conversa no intervalo do treino, ele achou graça da pecha de perdedor guardada na lembrança de seus conhecidos de infância. E, com a lucidez de quem sempre soube que a paixão nacional só pode ser paixão se estiver em todo lugar, respondeu: “É assim mesmo. Futebol sem surpresa é impedimento”.
Tire a prova a seguir, nas histórias de Lelo, Luiz, Márcia e Conrado – e no futebol, que cada um joga a sua maneira.

Tremenda várzea
Era uma manhã calorenta de junho em São Paulo. Onze jogadores se aqueciam antes do mais importante jogo da história do Tremendão. O time tinha sido fundado havia uma semana. A equipe ainda não tinha mascote (hesitantes entre a inquietação do canguru e a extravagância do pavão) nem uniforme (a regra era ficar sem camisa, mas Henrique, de 96 quilos, reclamou e virou exceção). Tampouco havia hino. “Quem sabe, um dia, chamaremos o cantor Daniel para nos ajudar”, explica Luiz Seganfredo, 41 anos, atacante, treinador, fundador e proprietário do time.
O Tremendão nasceu de uma rixa entre 11 times paulistanos de várzea da Zona Oeste. Seganfredo suspeitou que o juiz recebia tostões para ajudar os graúdos. Discursou para uma multidão sua revolta. Três dias depois, o Tremendão estava formado. É verdade que não há Garrinchas por ali. “Mas somos honestos”, diz, ao justificar o gol contra marcado por um dos seus. Placar em vantagem para o Castelo Branco da Zona Oeste: 4x0. Derrota justíssima.
Gol invisível
Mizael Conrado, 30 anos, nasceu cego. Quatro cirurgias depois, voltou a enxergar. Aos 9 anos, um descolamento de retina o devolveu ao breu. A sorte: enquanto pirralho com visão, jogou muito futebol e memorizou a bola, ora furiosa, ora calma. E foi a lembrança e o ranger da redonda nos torneios especiais que o guiaram para ser hoje um dos melhores jogadores do mundo.
Nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, Conrado estará no time brasileiro desse futebol de cinco (cada time tem quatro jogadores cegos, e os goleiros são os únicos da quadra que enxergam). A seleção canarinho promete: já levou ouro em Atenas. A trajetória do nosso Zico de olhos vendados começou no Instituto Padre Chico, em São Paulo, onde se matriculou para aprender a escrita braile. Lá ouviu um barulho abafado conhecido: a bola batendo com força na parede. “Achei que aqui só havia cegos...”, comentou para a diretora.Ela contou que cegos também jogavam bola. A descoberta foi seu gol mais bonito.

Gol de caneta
Aurélio Coelho de Souza, o Lelo, de 66 anos, é hoje o homem da papelada do Juventus Futebol Clube, tradicional time paulistano. Entre 1963 e 1967, foi meia-atacante do clube. Quando conta da orgulhosa derrota de 2 a 1 que sofreu do Santos, Pelé em campo, decreta em tom nostálgico: “Meus dribles ficaram no passado”. Blefe. Lelo continua a dar passes — na administração.
Torcedores e jogadores reconhecem que Lelo, quando voltou ao clube, em 2004, botou ordem na bagunça. O time, antes mequetrefe, hoje é respeitado na série A2 do Campeonato Paulista. Pela manhã, os problemas invadem sua sala: os alto-falantes pifaram, o jardineiro quer adubo, pilhas de papéis aguardam visto. Com transparência rara, Lelo assina os documentos e os mostra para quem quiser ver.
Mas o homem teima em sentir saudade da bola rolando. De origem portuguesa, não esquece um jogo contra a Lusa: o gol de vitória foi dele, para a fúria da família. Desde o ano passado, não joga nem de brincadeira. “Se me machucar, me recupero só aos 70 anos.” Mas, por mais que não balance a rede, o Juventus inteiro o acha um artilheiro.

Tremei, marmanjos
Quando Márcia Börner, 34 anos, fala do prazer de jogar pebolim, usa o discurso dos marmanjos do campo, aquele afeito a comparações à la caixinha de surpresa. “É preciso agilidade e trabalho em equipe. O objetivo final é sempre o gol”, diz. Por detrás da fala-padrão, está uma guerra dos sexos. Márcia sempre entra em “campo” sob comentários de que a partida será fácil. E goleia com a fineza de uma dama que não grita nem solta impropérios.
As partidas começaram na faculdade, onde reinava a mesa de pebolim cercada de homens. Márcia logo quis desafiar os cuecas. Perdeu feio e teve de passar por baixo da mesa. Brava, treinou com os próprios erros e, em menos de um ano, assustava os marmanjos. Todo ano, algum calouro jurava que a humilharia — e mais ponto para as mulheres. A bolinha de Márcia quica tão loucamente quanto aqueles homens que pensam mandar no mundo.


















































