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Guerrilhas da paz

O inglês Richard Reynolds cresceu ajudando sua mãe a cultivar um belo jardim em casa. Com 20 e poucos anos, mudou-se para um apartamento em Londres, de cuja janela não se enxergava nem uma florzinha. Na vizinhança, apenas um canteiro cheio de ervas daninhas. Richard resolveu limpar aquela terra para ganhar uma nesga de paisagem. Trouxe mudas do quintal da mãe e as plantou. Satisfeito com o resultado, percebeu que podia repetir a experiência em outros canteiros públicos abandonados cidade afora. Desde 2004, já embelezou – e mantém conservados – quase 30 desses por sua conta. Usando seu tempo e dinheiro, sem pedir licença a ninguém nem autorização à prefeitura, Richard transformou pequenos pedaços da paisagem árida em jardins para todos contemplar.
O exemplo anárquico do inglês tem inspirado muita gente ao redor do mundo a fazer o mesmo. Richard é o principal expoente do movimento Guerrilla Gardening (na tradução, guerrilha da jardinagem), criado por um grupo de estudantes e artistas nova-iorquinos nos anos 1970 e retomado agora graças à sua iniciativa. Armados de ancinhos, pás, mudas e até “bombas” – sementes envoltas em barro arremessadas em terrenos baldios para germinar –, ele e os mais de 4 mil voluntários de diversos países cadastrados em seu blog (www.guerrillagardening.org) agem com o simples objetivo de, como Richard resume, “deixar a vizinhança mais agradável”.
Com a mesma motivação, mas diferentes abordagens, outros movimentos fervilham pelo mundo. São como exércitos desarmados: pessoas comuns que resolveram melhorar o espaço urbano por conta própria, usando-o como ferramenta para tornar a sociedade mais consciente e feliz. Seja plantar girassóis, seja vestir um poste com tricô, boa parte dessas ações acontece em madrugadas, como operações secretas. Não é para menos: muitas delas são, de fato, ilegais (veja o boxe na página 23). Mas para esses guerrilheiros da paz, a questão é outra: se a rua é de todos, por que não podemos todos cuidar dela? E, para eles, os resultados valem o risco de quebrar as regras.
Publicidade do bem
Você está voltando para casa, depois de um dia daqueles em que tudo deu errado, exausto, frustrado e preocupado – como acontece com todo mundo de vez em quando. Na esquina, depara com um outdoor de uma modelo glamourosa de corpo perfeito, agarrada a um ator sorridente com barriga de tanquinho, em um carro que seu salário de dez anos de trabalho não compraria. Em seguida, você enxerga seu reflexo em uma vitrine. Como se sente?
Um dos exemplos mais singelos da guerrilha da paz é o You Are Beautiful – na tradução, “você é bonito”. O movimento, criado por um grupo de artistas anônimos de Chicago, nos Estados Unidos, espalha essa mensagem por meio de adesivos, cartazes, grafites e outras técnicas em muros, sobre outdoors, em postes, atrás de bancos de ônibus e onde mais o guerrilheiro puder estampar. A idéia é capturar as pessoas no meio de sua vida cotidiana e lhes proporcionar um momento de auto-realização. Com um simples elogio, combatem a ética publicitária de que tudo, incluindo a beleza, a juventude e o sucesso, pode ser transformado em mercadoria. “Queremos tornar o mundo um pouco melhor”, diz o grupo. Mais de 40 países, nos cinco continentes – incluindo o Brasil –, já têm o “Você É Bonito” espalhado por suas cidades. O adesivo-padrão está disponível para download no site www.you-are-beautiful.com, mas o movimento estimula as pessoas a criar as próprias maneiras de expor a mensagem.
Também contra os efeitos negativos da publicidade atua a norte-americana Anti-Advertising Agency, a AAA (na tradução, agência antipropaganda), criada em São Francisco, nos EUA. O movimento surgiu quando o artista Steve Lambert, irritado com a onipresença dos outdoors na cidade, distribuiu cartazes a centenas de pessoas e pediu que elas escrevessem e desenhassem a mensagem que gostariam de ver divulgada nos grandes painéis. Em vez de anúncios de produtos com falsas promessas, surgiram frases como “Apenas seja feliz”, “Coma mais feijão”, “Pense por si mesmo” e “Caro consumidor, eu não posso fazê-lo feliz. Com amor, seu anúncio”. “Queremos discutir os efeitos da publicidade no espaço público e aumentar nas pessoas a consciência do poder que elas têm de contribuir para a democratização do ambiente ao ar livre”, diz a agência em seu manifesto.
Atualmente, a AAA desenvolve vários outros projetos. Um dos mais populares é baseado num adesivo com a mensagem “you don’t need it” (na tradução, “você não precisa disso”), distribuído para ser colado sobre anúncios e etiquetas de preços, combatendo o consumismo desenfreado. Outra idéia consiste na colocação de rótulos “piratas” em produtos nos supermercados. Quem olha rapidamente pode nem perceber, mas eles possuem uma grande diferença em relação às embalagens originais: em vez de slogans, têm impressas informações sobre trabalhadores envolvidos na produção das mercadorias. Um deles, de refrigerante, conta a história de Yaneth Martinez, uma salvadorenha de 21 anos que abandonou a escola para cultivar a cana-de-açúcar usada na fabricação da bebida. A idéia é “reconectar o produto ao trabalho”, ampliando a consciência dos consumidores. Os rótulos podem ser baixados em peopleproducts123.com.
Espaço para todos
Há boas idéias em toda parte. O artista inglês Mark Folds conserta bancos de praça quebrados em seu bairro, em Londres, deixando neles mensagens bem-humoradas contra o vandalismo (www.ilovepeckham.com). Um grupo de amigas do Texas, nos EUA, depois de uma tarde conversando sobre a frustração de ter tantos suéteres inacabados no armário, decidiu dar destino aos novelos perdidos. Passaram a encapar tudo o que fosse possível – corrimões, placas, antenas, lixeiras e muito mais – com tricôs coloridos. Com uma ação subversiva e improvável (quem espera ver velhinhas “depredando” um poste com lã cor-de-rosa no meio da madrugada?), a moda pegou mundo afora, gerando imagens engraçadíssimas de ruas bem agasalhadas por tricoteiras de todas as idades e gêneros (www.knittaplease.com). Já o artista plástico inglês Ben Wilson foi interpelado pela polícia por pintar... chicletes grudados na calçada, que ele transforma em mini-obras de arte (www.flickr.com/groups/439762@N23/pool).
No Brasil, as ações começam a pipocar. Por aqui, a guerrilha verde de Richard Reynolds foi batizada de Jardinagem Libertária (www.jardinagemlibertaria.wordpress.com). Há grupos em Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo que vêm adotando canteiros e praças abandonados. Um dos mais ativos é o coletivo de artistas plásticos Interlux Arte Livre, de Curitiba. O grupo já perdeu a conta das mudas que plantou pela cidade. E foi além: em um terreno baldio (e sem nenhuma autorização ou posse formal), instituiu a Praça Pirata, um jardim aberto a todos, onde promovem oficinas livres de arte. No ano passado, “declararam” uma ciclovia na quadra. Reuniram bicicleteiros, levaram tinta para pintar a faixa no asfalto, enfrentaram a polícia e fizeram tanto barulho que a prefeitura acabou acatando a reivindicação – e agora estuda ampliar a ciclovia para outros pontos de Curitiba.
“Queremos restaurar a vitalidade das nossas ruas e do espírito de comunidade”, conta Claudio Celestino, um dos jardineiros da turma. “Com arte e jardinagem, aproveitamos melhor o espaço, criamos novas raízes e podemos expandir o potencial lúdico e criativo dos bairros para tornar as pessoas mais sensíveis ao seu entorno.” Cada qual a sua maneira, os guerrilheiros comungam de uma mesma visão de mundo, bem descrita por Richard Reynolds numa recente entrevista ao jornal The New York Times. “Nosso respeito ao espaço público se resume a não destruí-lo. Mas raramente consideramos que podemos melhorá-lo. Assim, as áreas comuns das cidades acabam pertencendo a nenhum de nós, em vez de a todos nós. Há aspectos negligenciados na sociedade, e eu acredito que nossa guerrilha pode ser a solução. As coisas poderiam ser muito melhores com um pouco mais de imaginação”.
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É legal. Mas é ilegal? A intervenção no espaço público pode acabar esbarrando na lei. Veja o que é permitido e o que é proibido antes de abraçar uma causa. |
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Cultivar canteiros públicos |
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