Droga Raia

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Guiados pelo ritmo

A regra que valia para as brincadeiras da infância também se aplica às atividades físicas da vida adulta: todo movimento é mais divertido se embalado por uma boa música
Texto: Érica Georgino // Fotos: Renato Pizzutto, Leo Caldas, Renata Chede
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Antes mesmo de nascermos, a música já faz parte da nossa vida. Retumba dentro da barriga da mãe, dando uma ideia de como o universo aqui fora deve ser divertido. Aí chegamos ao mundo, sentimos fome, sono, cólica, e é ela que nos nina, no embalo de um colo gostoso. Cantando, também, nossos pais estimulam nossa coordenação motora. Nos premiam com largos sorrisos quando batemos palmas, divertem-se ao ver nossas primeiras tentativas de mexer o corpo no ritmo de uma canção. Aí descobrimos que todo movimento pode ficar mais divertido se houver uma música para o embalar. Como brincar de ciranda, pular corda, imitar uma coreografia que vemos na TV. Algumas pessoas se esquecem desse prazer durante a vida. Outras o levam a sério, transformando-o em profissão. Como Paulo Rodrigues, primeiro-bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 52 anos. “Música é tudo. Sem ela não há o movimento. A música guia o ataque corporal, a velocidade da dança. Dá o ritmo e orienta os sentimentos”, diz. Mas nem só quem se torna profissional no assunto segue aproveitando a satisfação de orientar os músculos pelos acordes. Muita gente faz da música o som que guia seus mais divertidos hobbies, mantendo o corpo saudável e em sincronia com seus ritmos preferidos. Nem a idade, nem a distância, nem a inibição de se expor em público são obstáculos para essa determinação, como mostram as histórias a seguir.

 

Pra brasileiro ver

Há cerca de 15 anos, a holandesa Marjolein Kassenaar estava em casa, na cidade de Markelo, passando de um a um os canais da TV, quando uma cena lhe chamou a atenção: uma mistura de dança com arte marcial, embalada por um som diferente de tudo o que ela já tinha ouvido. Com os olhos grudados na tela, assistiu ao documentário até o fim, tentando se certificar do nome da modalidade. Puxou o papel e o lápis mais próximos e anotou: “ca-po-ei-ra”. “Sempre me interessei por danças tradicionais de vários países. Mas até então não conhecia nada que tivesse movimentos e ritmos como aqueles”, diz Marjolein. Ainda na Holanda, ela começou a fazer aulas para aprender o esporte que tanto a encantou. A inglesa Chloe Dichmont, de 19 anos, tem uma história parecida. Há oito anos, viu uma demonstração na rua, na cidade de Nottingham, e decidiu começar a praticar. Devido à paixão em comum, as duas vieram parar no país onde a capoeira nasceu. Conheceram-se no tradicional grupo Cordão de Ouro, de São Paulo. Chloe, que nas rodas é chamada de Cacau, veio passar um período de quatro meses. Marjolein, codinome Estrela, chegou aqui em novembro do ano passado, e não tem planos de ir embora. Quer se instalar em São Paulo, dar prosseguimento à sua carreira na área de arquitetura da informação – “E continuar curtindo e aprendendo capoeira!”, claro.

 

No ritmo do biquíni de bolinha amarelinha

Cordelita Monteiro Nunes viveu 70 anos só sabendo nadar no estilo “cachorrinho”. Quando decidiu aprender de verdade, dedicou-se tanto que passou a competir. Hoje, aos 80 anos, acumula 402 medalhas. Não bastasse ter-se descoberto atleta, ela percebeu que poderia ser uma artista dentro da água. “Um dia, estava plantando bananeira na aula de natação e a professora me convidou para entrar na turma do nado sincronizado”, lembra. Cordelita topou. O Centro Esportivo Santos Dumont, no Recife, é um dos poucos lugares do país que oferecem aulas desse esporte à terceira idade. A história começou por volta de 2004, quando algumas senhoras que frequentavam o clube assistiram ao treino de um grupo de meninas na faixa dos 10 anos. Acharam tão bonitos aqueles movimentos embalados pela música que decidiram aprender. A professora Rosangela Lindoso, de 50 anos, comprometeu-se a ajudar. Após algumas pesquisas, ela encontrou um vídeo que mostrava idosos do Canadá praticando a modalidade. A partir daí, começou a adaptar os movimentos e formou a primeira turma. Todas as segundas e quartas, às 8 horas, Cordelita e suas seis colegas, todas com mais de 65 anos, encontram-se no clube para treinar. “Um dos movimentos de que mais gosto é a formação da estrela, ao som de Biquíni de Bolinha Amarelinha”, diz. “As meninas sugerem músicas e querem copiar as coreografias da televisão. Elas são vaidosas e buscam o perfeccionismo”, conta, orgulhosa, a professora.

 

Da internet para as ruas

A banda norte-americana Black Eyed Peas sobe ao palco montado na rua, em Chicago. O público está imóvel. De repente, uma menina na primeira fila inicia uma animada coreografia. Segundos depois, cerca de dez pessoas ao seu redor passam a acompanhá-la. A onda se espalha, e os 20 mil espectadores presentes entram na mesma dança. Mais de 3 milhões de pessoas já assistiram a esse vídeo pela internet. Uma delas foi o engenheiro ambiental William Furukawa, de 24 anos, de Curitiba. Ele achou tão bacana que decidiu fazer algo parecido. Para isso, contou com a ajuda dos seus colegas do grupo de dança Wakaba. Eles criaram uma coreografia com os movimentos básicos da modalidade em que são especializados, o Yosakoi Soran, surgido nos anos 1990, no Japão, e publicaram uma vídeo-aula no YouTube. A ideia era reunir numa mesma apresentação todos os participantes de um festival que ocorreria na cidade em abril deste ano. Na data marcada, uniram-se ao Wakaba, em pleno centro de Curitiba, os grupos de Yosakoi Soran de Londrina, Paranavaí, Campo Grande e São Paulo – cerca de 80 pessoas. “Não foi difícil me misturar e acompanhar o movimento. Foi superempolgante!”, diz Roberto Yutaka, de Paranavaí. Além de dançar, cada participante contribuiu com 1 quilo de alimento, doado a famílias carentes – mais uma prova de como a sincronia entre diferentes pessoas pode criar admiráveis resultados coletivos.
 

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