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Histórias de família

“Era uma vez uma mulher que morava numa casa de pedra, numa rua curva, onde havia uma placa dizendo: ‘Passadiço da Lajinha’. Na parte de baixo da construção, uma portinha levava ao criadouro de cabras. Ao longe, via-se a Serra da Estrela – de onde, à noite, o vento trazia o assustador uivar dos lobos.
Seu nome era Emília. Ela vivia em Forno de Algodres, uma cidadezinha lá do outro lado do oceano, em Portugal. Um dia, Emília resolveu cruzar a imensidão do mar. Foi sozinha, rumo ao desconhecido. Desembarcou no Brasil. O namorado veio depois. Casaram-se, viveram felizes. Quando completou 40 anos, ele morreu. Viúva, Emília criou os cinco rebentos. Um deles, um dia, teria uma linda filha. E essa menina é você”.
Quando era mais nova, a redatora Shirley Guimarães, hoje com 40 anos, adorava ouvir as várias histórias que seu pai lhe contava. Muitas eram inventadas. Uma, pelo menos, era verdadeira. E era essa, sobre sua avó Emília, a que mais encantava a menina.
Há sete anos, Shirley, que mora em Niterói (RJ), decidiu revirar as gavetas atrás de detalhes sobre essa epopeia. Buscava documentos que lhe permitissem obter a cidadania portuguesa e todo tipo de informação que saciasse a curiosidade por suas raízes. “Quanto mais eu descobria, mais queria saber. Certa vez, fiz uma promessa: um dia iria à cidade dos meus antepassados e levaria uma flor até uma igreja para homenagear minha querida avó Emília”, conta.
Nas férias do ano passado, Shirley cumpriu o juramento. Desembarcou em Lisboa, tomou um trem para Guarda, pegou uma carona com um dono de restaurante que se comoveu com sua busca e assim chegou a Forno de Algodres. No único estabelecimento comercial do povoado, um café, foi recebida com curiosidade por duas senhoras. Logo, elas estariam telefonando para todos os vizinhos, tentando descobrir alguma ligação com a família da brasileira. “Começaram a chegar vários velhinhos, com fotos de parentes que haviam emigrado. Todos queriam me adotar!”, diverte-se Shirley.

A casa da bisavó de Shirley Guimarães, em Portugal
Então, as senhoras se lembraram de que havia, em visita à cidade, um casal cujo sobrenome era o mesmo de Emília: Ferreirinha. Localizados, foram chamados ao café. “Contei a eles o nome dos meus avós e bisavós. Aí a mulher estendeu os braços e exclamou: ‘Você é minha parenta!’”, lembra Shirley. O marido da emocionada senhora era primo do pai da brasileira. “Fiquei tão surpresa que nem sei o que disse na hora”, conta.
Os recém-descobertos familiares almoçaram juntos e deram um passeio pela cidade. Aí, Shirley teve sua maior revelação. Numa curva entre a meia dúzia de ruelas do povoado, cerca de 200 metros após uma antiga placa em que se lia “Passadiço da Lajinha”, o casal lhe mostrou uma construção de pedra, com um criadouro de cabras na parte de baixo e uma bela vista para a Serra da Estrela. Era a casa de sua avó, tal e qual seu pai havia descrito. “Que emoção! Colhi flores no canteiro que ladeava o muro e levei à igrejinha de São Pelágio, padroeiro do local”, conta Shirley. “Foi muito simbólico, era como se eu estivesse resgatando um pedaço de mim.”
Unidos por uma foto
Curiosidade pela história dos antepassados é algo que todo mundo tem. Algumas pessoas, porém, se empenham mais nessa busca. Querem saber detalhes, reconstruir elos, entender como o destino costurou os casamentos, viagens, nascimentos e imprevistos que resultaram na sua chegada ao mundo. A procura nem sempre é fácil. Mas costuma compensar todo o esforço.
Assim como Shirley, a jornalista Amanda Kartanas, de 37 anos, de São Paulo, também passou bons momentos da infância imaginando o passado de sua família. Seu personagem preferido era o avô Ludovico, um imigrante lituano que morreu quando a mãe de Amanda tinha apenas 5 anos. As informações sobre ele eram pouquíssimas. O que havia de concreto eram uma única foto, em que aparecia com farda do exército, e algumas cartas no indecifrável idioma do Leste Europeu. Para Amanda e suas primas, era o suficiente para fantasiar um conto de fadas.
Na adolescência, Amanda decidiu ir atrás da verdade dessa história. “Eu me inscrevi naquelas redes de troca de cartas entre jovens do mundo. O país mais próximo da Lituânia que tinha pessoas querendo se corresponder era a Alemanha. Fiz amizade com uma menina de lá, a Melanie. Mas não consegui descobrir nada sobre o país do meu avô”, conta.
A chegada da internet deu novo fôlego à pesquisa. Mas sem muitos resultados. Amanda conseguiu localizar alguns Kartanas, mas, para seu azar, descobriu que o sobrenome é bastante comum na Lituânia, o que dificultaria identificar os parentes legítimos. “Falei com a embaixada, procurei a comunidade lituana em São Paulo, mas não adiantou nada. Aí desisti”, diz.
Anos depois, em 2004, veio o inesperado. A mãe de Amanda recebeu um telefonema de um homem procurando parentes de um tal Ludovico Kartanas, que havia deixado a Lituânia com destino ao Porto de Santos (SP) durante a Segunda Guerra Mundial. O senhor que fez a ligação era leitor do jornal da comunidade lituana em São Paulo. Nas páginas da publicação, ele observara um anúncio pedindo notícias sobre Ludovico. Mesmo sem ter nenhuma ligação com a história, decidiu procurar pelo sobrenome Kartanas na lista telefônica e ligou para o único número que havia encontrado.
Quem havia publicado o anúncio era um repórter do jornal, que tinha estado recentemente na Lituânia. Lá, ele conhecera uma senhora chamada Ona, que contou que havia mais de 50 anos procurava notícias sobre o irmão que deixara o país.

Ludovico Kartanas, o bisavô de Amanda, aos 18 anos
O repórter colocou Amanda e Ona em contato por e-mail. Aí veio o momento mais comovente: para ter certeza de que falavam do mesmo Ludovico Kartanas, Ona enviou para Amanda a foto de seu irmão. “Quando abri o e-mail, vi que era exatamente a mesma fotografia que tínhamos, em que ele aparecia com o uniforme do exército”, conta a brasileira. Era também a única imagem que havia restado de Ludovico na parte europeia da família.
“Foi uma empolgação enorme. Minha mãe, minha tia, meus primos e meus irmãos nos reuníamos para responder aos e-mails. Descobrimos uma família maravilhosa do outro lado do mundo.” Ona mora na capital da Lituânia, Vilnius. Tem 82 anos e três filhos, com os quais Amanda mantém contato desde então.
“Muito da história de meu avô se perdeu. Mas hoje sei detalhes de sua infância, seus gostos, seus medos, a árvore que plantou no quintal que não resistiu à Segunda Guerra...”, conta a jornalista. “A gente sempre quer ter laços, encontrar alguém que viva a mesma história que você. Eu me senti aconchegada. Descobri gente distante que, tendo o mesmo sangue, gosta de mim também. Isso me faz feliz.”
Séculos de história
Mais de 100 anos antes de Cristo, migrou da atual Dinamarca para a península itálica o povo Cimbro. Dele fazia parte a família Leder – possíveis especialistas no trato com a pele de animais, já que a palavra, em alemão, significa couro. Em 1674, na cidade de Pôsina, na região do Vêneto, no norte da Itália, nasceu Giovanni Leder. Em 19 de maio de 1882, um bisneto de um dos bisnetos de Giovanni, Aurélio, desembarcou no Brasil. No novo país, seu sobrenome passaria a ser grafado Ledra. Um século depois, toda essa história seria desvendada por seu bisneto, o advogado Victório Ledra, de 76 anos, de Florianópolis.
“Eu sempre quis saber a origem da minha família. Os amores, desamores, tradições. Conforme os parentes mais velhos iam morrendo, eu via esse patrimônio se perder. E parecia que um pedaço da minha história sumia também”, diz Victório. Até 1976, tudo o que se sabia sobre os antigos Ledra era que haviam emigrado da Itália. “Uns diziam que vieram do Tirol; outros, do Trieste, do Trento ou de Vicenza”, lembra.
Naquele ano, Victório encontrou uma caderneta de seu avô, Luís, filho de Aurélio. Numa das páginas, lia-se: “Luís Ledra, nascido em 1877, Itália, Vicenza, posena”. Essa última palavra, escrita assim, com inicial minúscula, chamou a atenção de Victório. Seria uma cidade? Um de seus amigos descendentes de italianos esclareceu: só podia ser Pôsina, cidade da província de Vicenza. “Estava redescoberta a terra de origem e aberta a busca da identidade italiana da família Ledra no Brasil”, conta Victório.

Foto do livro A Família Ledra no Brasil mostra a casa onde nasceu Aurélio Ledra, na cidade de Pôsina
A partir daí, foram mais de 20 anos de pesquisa. Victório visitou todos os parentes de que conseguia lembrar-se, obteve contato com alguns Leder que ainda viviam na Itália, consultou cartórios e arquivos históricos do Brasil e da terra de origem da família. Juntou informações suficientes para escrever três livros.
O primeiro, O Cancioneiro do Imigrante Italiano, reúne 300 canções folclóricas que ele acabou conhecendo durante a pesquisa. “Sempre que alguns descendentes se reuniam para beber um pouco de vinho, acabavam cantando. Eu achava muito bonito, então registrei”, explica. Perfil de um Pioneiro conta a história de seu avô, Luís Ledra. Mas a obra mais completa é A Família Ledra no Brasil. Em quase 500 páginas, o livro traz a íntegra da história do clã, com biografias dos antepassados, lista completa e breves perfis dos 1792 descendentes de Aurélio, estatísticas, muitas fotos e até a letra e a partitura do Hino do Centenário da Imigração da Família Ledra, composto por Victório.
Algumas imagens retratam os grandes encontros de família realizados desde 1983, quando foi lançado Perfil de um Pioneiro. Dessa primeira reunião, em Rio do Sul (SC) – reduto de boa parte dos Ledra –, participaram cerca de 700 pessoas. Em 1993, 1996 e 1999, os encontros aconteceram na Itália. “Foram as maiores reuniões de família jamais realizadas em Pôsina”, gaba-se Victório.
Quando começou sua pesquisa, tudo o que Victório queria era matar uma curiosidade. Acabou não só resgatando e perpetuando séculos de história, como também reforçando laços de sangue: “Algumas pessoas moravam perto e não se conheciam. Hoje em dia, devido aos grandes encontros que realizamos, todo mundo se considera primo, mesmo que o parentesco seja distante”. Em um de seus livros, ele assim justifica o esforço que empenhou na longa pesquisa: “É injusto que as gerações que se sucedem esqueçam as que as precederam e que tanto lutaram e sofreram a fim de tornar factíveis as melhores condições de vida de que elas hoje podem usufruir. Oxalá a história, a lembrança e os bons exemplos dos antepassados possam iluminar os caminhos das novas gerações, na busca da realização pessoal, da solidariedade e do progresso”.
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