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Hora do recreio

9h59. No segundo andar de um prédio na rua Geraldo Flausino Gomes, em São Paulo, estão todos trabalhando. Dedos batem contra os teclados, impressoras arrastam seus cartuchos, a cafeteira ronca ao encher mais uma jarra, pessoas falam ao telefone. Como qualquer outro escritório no mundo, a agência de publicidade Full Jazz trabalha a pleno vapor. Mas, de repente, sons improváveis invadem o ambiente, e tudo para.
Uma gravação de aves cantando, folhas farfalhando ao vento e água de rio fluindo toma conta das salas. E-mails, telefonemas, reuniões, idas ao banheiro – toda atividade é interrompida. Ficam todos calados, imóveis. São 60 segundos de transe. E então tudo volta ao normal. Até que, uma hora depois, o ritual se repita.
Para quem vê pela primeira vez, pode parecer coisa de doido. Mas o objetivo é pra lá de racional: melhorar a produtividade da equipe. “A técnica aumenta a concentração e diminui a sonolência e a irritabilidade”, garante a responsável pela gestão de pessoas na empresa, Thereza Christina, de 45 anos. “Meu corpo se acostumou. Em casa, nos fins de semana, eu me pego fazendo as pausas a cada hora”, completa Thereza.
Se hoje em dia rituais como esse causam estranheza, há algumas décadas eram totalmente impensáveis. Foi apenas nos anos 1980 e 1990 que as empresas começaram a perceber a importância de oferecer momentos de espairecimento aos funcionários durante o expediente. A atividade que deu início à onda foi a ginástica laboral. Com o passar dos anos, as iniciativas se multiplicaram. Agora, alguns escritórios chegam a ter ares de salão de festas.
Salvo pelo pufe
Pebolim, baralho, minigolfe, videogame, pufes para relaxar. Tem tudo isso na Sambatech, empresa de tecnologia para a internet, de Belo Horizonte. Os funcionários podem ir para a salinha de diversão quando quiserem e ficar lá o tempo que acharem mais adequado. “Queremos que eles tenham prazer em trabalhar aqui, e que percebam que a produtividade não depende da burocracia”, afirma o presidente, Gustavo Caetano, de 28 anos.
Quando surge uma folguinha entre as tarefas do dia, os empregados da Sambatech não hesitam em aproveitar as mordomias que a empresa oferece. O analista de inteligência de mercado André Azevedo, de 21 anos, por exemplo, costuma jogar umas partidas de videogame no horário do almoço. Mas ele conta que, nos momentos de maior pressão, a salinha também faz toda a diferença. “Certa vez, eu precisava fechar a apresentação de uma pesquisa até o fim do dia. Já estávamos nas últimas horas antes do fim do prazo, sob pressão”, lembra. O que ele fez? Levou o trabalho para fazer nos pufes. “O ambiente deixa a gente mais relaxado e nos ajuda a pensar”, diz.
Pelada institucional
Além de desanuviarem a mente e melhorarem a produtividade, as atividades relaxantes entre colegas de trabalho podem aumentar a integração da equipe. Ainda mais quando a iniciativa parte dos próprios funcionários. Foi assim na Sodexo, empresa do setor de benefícios trabalhistas, em São Paulo.
Há quase dez anos, um grupo de empregados decidiu se reunir toda semana para jogar futebol após o expediente, numa quadra próxima ao trabalho. Ao perceber que cerca de 30 pessoas já estavam envolvidas na brincadeira, a empresa decidiu apoiar, bancando o aluguel da quadra e o material esportivo. Hoje, o time reúne desde a base até o topo do organograma e representa a empresa em campeonatos beneficentes. “Já jogamos até no Maracanã”, fala o gerente financeiro Lauro do Nascimento, de 39 anos. “No dia a dia, a gente acaba não tendo muito tempo de se relacionar com os companheiros. No futebol, você vai descobrindo quem é quem nas outras áreas da empresa e, quando precisa, durante o trabalho, já sabe quem acionar”, diz.
Retiro espiritual
A inserção de momentos de lazer na rotina profissional tenta interromper o exaustivo ciclo que o mercado de trabalho muitas vezes impõe, principalmente nas grandes cidades. É preciso trabalhar o máximo possível, para dar conta do alto custo de vida, e atualizar-se constantemente, a fim de não ser substituído por alguém mais capacitado. “Temos a sensação de que, se tivermos momentos de ócio, estaremos perdendo tempo. Isso é uma grande fonte de estresse”, analisa a psicóloga Ana Cristina Berti, do Centro Psicológico de Controle do Estresse.
Cansado dessa roda-viva, o jornalista Eduardo Fernandes, de 35 anos, tomou uma atitude definitiva: há dois anos, ele trocou São Paulo pela calmaria de uma montanha na cidade de Três Coroas (RS), onde vive com cerca de 50 pessoas no centro budista de Khadro Ling. De lá, continua trabalhando, de forma autônoma, por meio da internet. “Tenho menos dinheiro e mais liberdade”, resume.
O exemplo de Eduardo pode parecer radical demais. Irrealizável para muita gente. Mas, se a história dele não inspira viradas tão transformadoras, pelo menos nos estimula a pensar: será mesmo que vale a pena trabalhar sem parar? Certamente é uma questão sobre a qual refletir. Nem que seja por um minuto, como faz a turma da Full Jazz.


















































