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Iguais e diferentes

Temos algo em comum com cada pessoa do mundo. E alguma característica que ninguém mais possui. Confira uma série de relatos que mostram como as semelhanças nos aproximam – e como as distinções não precisam nos afastar
Texto: Chico Spagnolo e Dilson Branco // Fotos: Rodrigo Braga
Iguais e diferentes
O inimitável: Roberto Boni é fã do Rei, gosta de passear no horto e nunca roubou um beijo de um broto
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Pode ser uma preferência incomum, como considerar a melhor banda do mundo um grupo de polca-rock de quem ninguém mais ouviu falar. Ou uma mania estranha, como colecionar selos comemorativos de países da Melanésia. Quem sabe uma habilidade impressionante, como conseguir beliscar o lóbulo da orelha passando o braço por trás das costas. Provavelmente há alguma característica sua que você considera uma exclusividade. Até que um dia é apresentado a um amigo de um amigo que – incrível! – faz exatamente a mesma coisa. Ou, numa busca na internet, descobre a Associação de Fãs de Polca-rock Que Colecionam Selos da Melanésia...

Da mesma forma, pessoas de nacionalidade, religião, cor de pele, opiniões e hábitos completamente distintos dos seus certamente têm algo em comum com você. Nem que seja o fato de respirar a mesma atmosfera.

O que nos difere? O que nos une? Foi pensando nisso que bolamos uma brincadeira para esta seção. Perguntamos a dezenas de pessoas sobre características diversas a seu respeito. Aí conectamos os relatos por suas coincidências – mas sem deixar de ressaltar as distinções. O resultado é uma curiosa sequência, que nos faz pensar onde nos encaixaríamos. E ajuda a refletir: por mais diferentes que duas pessoas sejam, sempre haverá pelo menos uma característica que as colocará em união.

 

É uma paixão de infância. Quando Roberto Boni era pequeno, seu programa de TV favorito era a Jovem Guarda. Na vitrola de casa, só tocava o Rei. Ao cantar junto, ele percebeu que os timbres eram parecidos. Imitar os trejeitos também era a maior diversão. Não deu outra: virou cover de Roberto Carlos. Quando não está encarnando o ídolo, o que Boni mais gosta de fazer é passear com a família no horto, em Santos (SP), onde mora. E, aos 53 anos, comportado, ele confessa: jamais roubou um beijo de uma fã.

“Roubar um beijo.” Essa é a resposta da psicóloga Fabiana Quinino, de 29 anos, de Belo Horizonte, quando se questiona o que ela nunca fez na vida. Pergunte quanto ela calça e a resposta também será curiosa: 36 no pé esquerdo e 35 no direito, desde que quebrou  a planta desse último. E tem mais: se ela fosse imperatriz do mundo, sua primeira medida seria pôr fim ao dinheiro, implantando um sistema de trocas baseado nos dons e nas habilidades de cada um.

“Quer acabar com a corrupção? Acabe com o dinheiro”, sugere o produtor de conteúdo de internet Sávio Ladeira, de 28 anos, em seu blog. Se a única opção de pagamento fosse cartão de crédito ou débito, toda propina seria registrada, ele argumenta. A ideia surgiu durante um jantar entre amigos, em São Paulo. Certamente, no prato de Sávio havia seu ingrediente favorito: batata. Frito, assado ou cozido, ele devora o tubérculo do jeito que for. Outra paixão – essa, ele confessa, anda meio esquecida – são suas coleções de moedas e pedras.

A gráfica Monique Carvalho, de 26 anos, não pode ver uma pedra bonita no chão que já a leva para casa. Mas sua coleção fica a centenas de quilômetros da de Sávio, em Itabuna (BA). O prato preferido da baiana é abará. A receita é a mesma do acarajé, ela ensina, só que, em vez de frito, o bolinho é cozido. E, quando está sem fazer nada, ela tem uma mania pra lá de estranha: contar as letras das palavras em que pensa. “Mas só até chegar no número 20. Depois fica muito complicado”, explica.

Alguém mais faz isso no mundo? Sim: o programador de computadores Daniel Corrêa, de 34 anos. Pelo menos quando era pequeno. Naquela época, outra piração era inventar receitas. Cozinhar acarajé ele nunca tentou. Mas certa vez teve uma grande ideia: “Pegue um copo grande, encha de sucrilhos até a metade, cubra com leite frio e complete com leite condensado. É o Daniel’s Psychodelic Breakfast!”, ensina. Desde 2008, Daniel mora em Milão, na Itália. Foi conhecer as origens da família de sua mãe e nunca mais voltou.

Luiz Eduardo Giaconi, de 23 anos, de São Paulo, também é descendente de italianos e se interessa por receitas. Mas leva o assunto um pouco mais a sério do que Daniel: acabou de aprontar o trabalho final na graduação de gastronomia (sobre a culinária de seus antepassados europeus). Seus filmes favoritos são os de terror. “Deve ser porque minha mãe passou os nove meses da minha gestação vendo filmes desse tipo”, explica. Seu predileto é Halloween. Neste ano, no mês das bruxas, Luiz e todos os brasileiros entre 18 e 70 anos terão de votar. Ele preferiria que não fosse uma obrigação: “Se o voto fosse facultativo, a qualidade do processo democrático tenderia a melhorar”.

Aos 71 anos, o aposentado Zezito da Silva já não é mais obrigado a bater cartão nas urnas. E nisso ele concorda com Luiz Eduardo: todo mundo deveria poder escolher se quer ou não votar. Zezito já viajou para quase todos os países da América Latina. Mas quer saber? Não gostou tanto assim. Achou todos muito parecidos entre si! Diversão mesmo, para ele, é ouvir uma boa música sertaneja em sua casa, em Feira de Santana, na Bahia.

 


Marilda já foi até para Honolulu, mas queria mesmo
era passear no calhambeque da Jovem Guarda
  

 

Trabalhar numa fazenda como aquela que costumava visitar quando criança, em Potiraguá, na Bahia, era o sonho de Danilo Silva. O destino acabou substituindo o clima bucólico pelo praieiro. Hoje, aos 27 anos, o webdesigner mora em São Paulo, mas trabalha a cerca de 200 quilômetros da sua casa, na cidade litorânea de Ilhabela (SP). Além da brisa marítima, o que o faz ficar mais calmo são as aulas de jiu-jítsu, esporte que tem praticado desde o ano passado. Por influência do filho de sua ex-namorada, Victor, começou uma coleção de carrinhos. Hoje, tem mais de 600.

Renata D’Elia era a única menina da família, e seus primos não queriam brincar de boneca. Então, toda vez que ela passava em frente à banca de rua que vendia carrinhos movidos a fricção perto da sua casa, em São Paulo, pedia um para seus avós. Acabou montando uma coleção. Hoje, aos 26 anos, é jornalista. Quando pequena, quis ser cientista – para voar num foguete até outros sistemas solares –, jogadora de vôlei – para ganhar as Olimpíadas – e atriz – para receber o Oscar: “Por muito tempo ensaiei meus discursos de agradecimento segurando tubos de xampu para uma plateia de azulejos”, confessa. Também quis se casar com o Michael Jackson. “Mas fiquei duramente decepcionada com aquele maiô dourado que ele usava em 1993.”

Michael Jackson é uma das imitações que o artista de rua Bob Lester, de 97 anos – figura folclórica do Rio de Janeiro –, costuma fazer em suas apresentações. Cantor e sapateador, ele já se apresentou em vários lugares do Brasil – como o mítico Cassino da Urca –  e do mundo. Garante que já apertou a mão de Fidel Castro, ao fazer um show em Cuba, e que foi dançarino em apresentações de Frank Sinatra. Em 2006, quando os Rolling Stones tocaram para mais de 1 milhão de pessoas em Copacabana, ele foi um dos primeiros a chegar. Colocou uma cadeira em frente ao palco, para ver de perto. Ao fim do show, teria sido apresentado a Mick Jagger, que lhe deu seu relógio de presente. “Todo mundo no Rio já ouviu falar dessa história!”

Suellen Barbosa, de 22 anos, também estava no show dos Rolling Stones em Copacabana. Foi a primeira viagem que ela fez sozinha, sem o consentimento dos pais. Ao voltar para casa, em Limeira (SP), achou que levaria uma bronca. Que nada: os pais estavam até orgulhosos da sua ousadia. Quando criança, Suellen queria ser musicista, mas nunca teve ritmo. Destreza no pulso, porém, sempre exibiu de sobra. Aos 3 anos, desenhou um palhaço na parede de casa. Ficou tão benfeito que a mãe culpou a filha mais velha. Era a primeira de muitas obras da atual artista plástica.

A maestrina Muriel Waldman, de 64 anos, de São Paulo, também descobriu sua vocação muito cedo. Quando criança, sua mãe a matriculou no balé. Mas o que mais impressionava a menina nas aulas não era a dança, e sim o som que vinha do piano. Antes de poder se dedicar à música, porém, por orientação da família – numa época em que era raríssimo ver mulheres atuar como regentes –, formou-se em física. Muriel nasceu no Egito. Mudou-se para o Brasil aos 5 anos, fugindo do conturbado momento político pelo qual o país passava. Nunca mais voltou.

A viagem mais legal que Marcela Inforzato, de Santos (SP), já fez na vida foi para o Egito, em 2007. “Fui com minha mãe. Conhecemos templos, fizemos um cruzeiro pelo rio Nilo, foi incrível”, lembra. O filme favorito da administradora de 24 anos é o espanhol Má Educação, de Pedro Almodóvar: “Nem tanto pela história, mas pelas cores e pela forma com que o diretor brinca com o tempo”. Sempre que quer rever a trama, Marcela pode se dar ao luxo de dispensar dublagens e legendas. Além de português e espanhol, ela fala inglês e um pouco de francês.

Caso um dia venham a se conhecer, Marcela e Juliana Parente, jornalista de 29 anos, de Barueri (SP), poderão escolher a língua com que vão conversar. Juliana também fala português, inglês e espanhol. Além disso, compra flores sempre que pode, “mesmo que faltem vasos para acomodar os exageros”, só consegue trabalhar descalça e adora combinar anéis grandes com unhas vermelho-sangue. Coisa que nunca fez nesta vida foi passar a mão em um gato. “Acho que isso vem de criança, quando aprendi que eles comem ratos e que ratos transmitem doenças”, teoriza.

Brincar com sua gatinha Millú é a primeira coisa que a secretária Marilda Madureira, de 53 anos, faz ao chegar em casa, em São Paulo. A viagem mais maluca em que ela já embarcou foi para Honolulu, no Havaí. Marilda ficou impressionada quando lhe contaram que a praia em que estava era artificial – com areia importada da Austrália! Quando era pequena, esperava ansiosa em frente à TV pelo começo do programa Jovem Guarda: “Meu maior sonho era assistir ao show de dentro do calhambeque do Roberto Carlos!”.

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Este é, de longe, o melhor Amar que a Sorria já teve!!!
Laura Sobenes
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