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Inclua-se você

Cada um tem um papel na inclusão social de deficientes: mais do que adaptar meios de transporte e comunicação, é preciso garantir o acesso a nossa própria vida
Texto: Larissa Soriano // Ilustração: Estúdio Mopa
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Na adolescência, quando Mário Vieira Neto queria contar a seu irmão, Paullo, que teria um encontro com uma garota de quem estava gostando, ele passava os dedos perto do rosto, simulando cabelo comprido, e abria e fechava a mão, fazendo o gesto típico para indicar “sair”. O sorriso estampado no rosto ajudava a não deixar dúvidas sobre o significado da mímica.

Paullo, hoje com 39 anos, é surdo. Mário, um ano mais novo, não. Conviver com a deficiência do irmão, com quem mantém uma relação muito próxima até hoje, é, para Mário, a coisa mais natural do mundo. E o melhor exemplo disso é a maneira pela qual se comunicam. Trata-se de uma língua criada pelos dois durante a vida, constantemente reinventada e perfeitamente eficaz. “Ninguém mais entende a nossa linguagem. Ela sempre foi muito improvisada. Para contar a mesma história de novo, provavelmente usarei gestos novos”, diz Mário.

Atuando como intérprete, Mário sempre ajudou Paullo a se integrar em novas turmas, dando confiança ao irmão para que ele siga o próprio rumo. Hoje presidente da Associação dos Surdos de São Paulo e assistente da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, na capital paulista, Paullo reconhece quanto a relação com o irmão tem sido fundamental em sua vida. “O Mário teve um papel muito importante para minha inserção na sociedade. Foi ele quem me ajudou a sentir meu potencial para atuar pela causa dos surdos”, conta.


Quando Matheus ficava nervoso, os colegas da 3ª série
cantavam "o sapo não lava o pé",
para ele se acalmar.
Ao ver um amigo chorar, ele passou a fazer o mesmo


Quando se fala sobre inclusão social das pessoas com deficiência, a primeira coisa em que pensamos é em adaptar as ruas, os prédios, as mídias. Tudo isso é, obviamente, de enorme importância. Mas a história de Mário nos mostra que ainda mais essencial é a mudança da própria sociedade. Só quando cada pessoa estiver disposta a se transformar para permitir que os deficientes façam parte de sua vida é que eles poderão, de fato, sentir-se incluídos.


Além da cartilha

Márcia Monteiro, de 41 anos, é professora da escola municipal Coronel Hélio Franco Chaves, em São Paulo. Dentre os cerca de mil estudantes do colégio, 22 têm alguma deficiência, física ou mental. No começo de 2005, ela soube que haveria um aluno autista na sua turma de 3ª série. Matheus Santana, hoje com 15 anos, havia passado bem pela 1ª série, mas na 2ª seu rendimento caíra bastante. Ele chegou à classe de Márcia agitado e desmotivado. Com a ajuda da coordenação da escola e da família de Matheus, sempre presente, Márcia abraçou o desafio de devolver ao garoto o prazer de ir à aula.

O primeiro passo foi se informar. “Procurei livros sobre autismo e inclusão”, conta a professora. Então ela se dedicou a adaptar seus meios de ensino, buscando atividades que atraíssem a atenção do menino. Ao saber que ele viajaria para Pernambuco com a família, por exemplo, a professora identificou uma boa oportunidade para lhe mostrar o mapa do Brasil. “Ele ficou muito interessado. Chegou a traçar uma linha entre São Paulo e Pernambuco. E, no dia da prova, era o único que sabia todos os estados e capitais”, conta Márcia.

Os colegas de Matheus também tiveram um papel crucial na sua inclusão. “De vez em quando ele ficava nervoso e jogava o caderno para longe. Aí os colegas cantavam aquela música ‘o sapo não lava o pé’, de que ele gosta muito. Assim, ele ia se acalmando e voltava a estudar”, conta a professora. E, apesar das dificuldades de demonstrar afeto, típicas do autismo, Matheus sabia retribuir o carinho. “Quando algum aluno chorava na sala de aula, ele cantava a mesma música, porque imaginava que o que era bom para ele também deveria ser para o colega”, lembra Márcia.

Hoje na 8ª série, Matheus comemora seus avanços. Ele participa de todos os eventos da escola, como apresentações e festas. Na foto de um desses encontros, ele está sorrindo no meio dos colegas, fazendo o sinal de “paz e amor” com as mãos. “Ele é legal! Outro dia a professora colocou uma música do Michael Jackson e ele dançou na sala”, conta Janaína Lopes, de 13 anos, que estuda com Matheus desde a 1ª série. “Nós jogamos bola juntos na aula de educação física. Ele não é muito bom, não, mas passa a bola direitinho”, conta Leandro Sousa, de 14 anos.

Segundo o psicólogo da Universidade Paulista (Unip) Airton Munhos, a convivência entre pessoas com e sem necessidades especiais desde a infância só tem a acrescentar à sociedade. “Se uma criança cresce convivendo abertamente com essas diferenças, ela se torna um cidadão preocupado com os outros. Será, por exemplo, um arquiteto que irá prever rampas para os cadeirantes em seus projetos”, diz.


Pedalar e amar


Domingos Gatti, de 42 anos, não é arquiteto. É palhaço. Mas criou e implantou um curioso projeto de acessibilidade, a fim de realizar o sonho de uma amiga. Ativista do ciclismo, ele costuma participar das bicicletadas (espécie de passeatas sobre duas rodas) de São Paulo. Fernanda Bucci, de 28 anos, sempre quis acompanhar a turma, mas nunca pôde. Devido a um problema no parto, ela anda e fala com dificuldade.

Domingos pegou um desses triciclos usados para fazer publicidade nas ruas, algumas tábuas, um banco de automóvel e, com a ajuda de um amigo, passou uma noite inteira montando sua invenção: uma bicicleta em que pudesse transportar a amiga. A estreia do veículo foi em abril. “Eu pedalo e a Fernanda fica com a parte mais bonita, que é sorrir e espalhar a alegria para quem passa na rua”, conta.

Para driblar a dificuldade na fala, Fernanda usa muito a internet. Foi na rede que conheceu seu namorado, Marcelo Caruso, de 37 anos. Após dois meses teclando, eles decidiram se encontrar. “Falei da minha paralisia ainda pela internet. Quando enfim nos conhecemos, ele ficou um pouco apreensivo, mas logo nos entendemos bem”. Eles estão juntos há oito meses.

“A minha família não aprova o namoro. Disseram para eu ter certeza do que quero, porque vou enfrentar inúmeras dificuldades. Eu sei que desejo ficar com ela, venha o que vier”, diz Marcelo. “Com paciência, boa vontade e amor, tudo se resolve”, completa.


Abram alas à competência


A legislação brasileira determina que toda empresa com mais de 100 funcionários tenha alguma porcentagem de empregados deficientes. Mesmo assim, ainda há muito preconceito no mercado de trabalho. Inclusive nas altas esferas do poder público, como sentiu na pele Ricardo Tadeu Fonseca, de 50 anos. Nascido prematuro, ele sempre teve problemas de visão. Quando cursava o 3º ano da faculdade de Direito, na Universidade de São Paulo (USP), a deficiência se ampliou, e ele ficou completamente cego. Formou-se com a ajuda dos colegas, que gravavam os textos a ser estudados.

Em 1989, seu caso ficou famoso ao ser proibido de prestar concurso para juiz no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Mesmo abatido com a discriminação, não desistiu. Tornou-se procurador do Ministério Público. E, no ano passado, foi nomeado o primeiro juiz cego do Brasil, no Tribunal Regional do Trabalho de Curitiba.

O também desembargador Márcio Gapeski, de 56 anos, colega de Ricardo, admite que teve preconceito. “Na hora de escolher qual dos indicados ocuparia o cargo, eu propus a exigência de um exame médico, porque acreditava que ele não conseguiria julgar tantos casos”, diz. Os demais juízes discordaram, e Márcio voltou atrás. Hoje, quando lembra desse momento, ele se emociona.
“Depois de conhecer o Ricardo, eu entendi que o corpo não é impedimento para nos realizarmos completamente”, diz.

Para estudar os processos que deve julgar, Ricardo conta com assessores que o ajudam na leitura. Como Célio Pereira, de 41 anos, que se sente um privilegiado: “Eu fiquei sabendo do caso dele e o procurei. Sabia que seria uma oportunidade de aprender bastante, já que leria todos os processos”, conta. “Nossa relação dá certo porque, desde o começo, cheguei desarmado, sem preconceitos nem pudores”, diz o assessor.

Entender que os deficientes são pessoas completas e complexas, como todas as outras, é um passo fundamental para permitir sua inclusão. “Muita gente se relaciona com o estereótipo do deficiente, e não com o indivíduo em si. A deficiência não é quem ele é, mas uma parte dele. Não pode ser determinante”, afirma o psicólogo Airton Munhos.


Célio é assessor de Ricardo, o primeiro juiz cego do país:
"Eu o procurei. Sabia que seria uma oportunidade de
aprender bastante, já que leria todos os processos"


Trupe entrosada

Célio Pereira não se tornou assessor do desembargador Ricardo por acaso. Ele se ofereceu para trabalhar com o juiz, na certeza de que esse convívio lhe traria benefícios. A musicista Viviane Louro, de 30 anos, e o ator Sérgio Zanck, de 31, têm uma história semelhante. Em 2006, eles criaram, em Santo André (SP), o grupo de teatro Trupe do Trapo, formado em sua maioria por deficientes mentais. No total, são 22 artistas, entre 14 e 73 anos, que interpretam e tocam instrumentos musicais.

Viviane e Sérgio precisam constantemente se adaptar aos seus parceiros de trupe. “Quando eles não conseguem me entender, faço desenhos ou mímicas. Além disso, dois deles enxergam pouco, então imprimo o texto com letras maiores”, conta Sérgio, o diretor. Viviane, em suas aulas de música, também vem descobrindo melhores formas de se comunicar. Para ensinar que uma nota tem um tempo, e que outras duas, juntas, têm a mesma duração da primeira, ela usa garrafas: uma de 1 litro, para representar a nota mais longa, e duas de meio litro cada uma, simbolizando os dois sons mais curtos. “Eles precisam de coisas concretas, não basta imaginar”, explica.

Quem assiste à apresentação do grupo não tem dúvida de que a comunicação entre eles funciona muito bem. Além de comemorarem os resultados do trabalho, Viviane e Sérgio percebem quanto aprendem com esse convívio. “Passei a perceber que todo mundo, deficiente ou não, precisa de um tipo distinto de atenção. Mais do que ser tolerante, aprendi a entender as diferenças entre cada pessoa”, conta Sérgio. Viviane também tem mudado sua visão de mundo: “Alguns dos integrantes não conseguem amarrar os sapatos ou dar um troco, mas decoram perfeitamente as suas falas e interpretam muito bem. Isso me ensinou que nossos limites estão dentro de nós mesmos, e somos os únicos capazes de decidir até onde temos capacidade de ir”.

 

Clique aqui e confira mais uma emocionante história sobre inclusão social.

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