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Infinito enquanto dure


Casamento é...namorar, unir-se a outros, separar-se e tentar mais uma vez, como Ana Lúcia e Marcelo Almeida, que reencontraram o amor e o brilho da paixão nos braços um do outro // Foto: Anna Fischer
Quando viu o nome dele na caixa de entrada, ela não soube o que devia sentir. Por 25 anos não existiram um para o outro. Ao ler as palavras de Marcelo de Almeida, Ana Lúcia lembrou-se daquele namoro de infância, do dia em que os dois se deixaram, de toda a vida construída longe dele. Ela havia se casado e passado 17 anos com outro homem. Ele também passou 12 anos com outra mulher. A mensagem tirou o chão da empresária de 45 anos. Era agosto de 2007 e Marcelo brincava de escrever o nome de amigos da infância em uma página de buscas. Foi aí que deu de cara com a foto de Analu no site de relacionamentos Orkut. “Quando abri o perfil dela, foi como se soltassem um balão de gás. Fiquei atordoado com a possibilidade de revê-la”, conta ele, hoje com 46 anos. Mandou a mensagem.
Mas Ana Lúcia estava divorciada havia oito anos e morava no Rio de Janeiro, com os três filhos. Marcelo, inspetor de qualidade, estava em Araraquara, no interior de São Paulo, também com três filhos e separado. E, além da distância, outra barreira mais forte afastava os dois. O matrimônio desfeito tinha deixado para Analu uma certeza: não haveria outro. Pela sequência de decepções que ela acumulou durante a vida conjugal, casamento era palavra riscada de seu vocabulário. “Meu casamento não era lá essas coisas”, diz. “Ele era ausente, criei meus filhos sozinha.” Convicta de nunca mais repartir sonhos nem projetos, ela alimentava namoros por, no máximo, três meses, para não abrir mão de sua liberdade. “Morria de medo. Não queria compromisso”, conta. “Quando me casei, era para que fosse para sempre, como foi o casamento dos meus pais e o dos meus avós. Mas ou eu me separava ou seria eternamente infeliz.”
Então, Marcelo chegou, destruindo as certezas. Passaram seis meses trocando mensagens, preparando-se para o reencontro. As expectativas confundiam-se com a opinião de amigos e familiares, que julgavam que um amor de infância não resistiria às transformações de um quarto de século. Mas ele insistiu, deu um ultimato. Precisavam se ver. Marcelo viajou sozinho de carro e encontrou Analu no Rio de Janeiro. “Minha vida virou de ponta-cabeça”, diz ela. Três semanas depois, veio o pedido de casamento. E ela disse sim.
O casal celebrou a cerimônia há três anos, na casa de campo da família dela, em Petrópolis, onde se conheceram. Analu entrou de branco, ganhou o sobrenome do marido e viveu o ritual como se fosse o único. “Tive de conhecer muitas mulheres para lembrar quem era a certa para mim”, diz Marcelo, apaixonado. “Recomeçar é um ato de coragem. Se eu tivesse de sofrer novamente tudo o que sofri no primeiro casamento para poder reencontrá-lo, eu faria”, diz ela.
"Continuamos apostando no casamento porque
ainda não foi inventada uma forma melhor de
enfrentar a vida do que juntos"
Outra vez
Feliz por voltar a entregar a vida nas mãos de alguém, o casal não acredita que a vida pudesse ser melhor se estivessem sozinhos. Como eles, outros 136 mil brasileiros preferem abrir mão da própria independência e casam-se novamente, todos os anos. Esse número de segundo, terceiro ou mais casamentos dobrou na última década – em 2000 eram 65 mil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, anualmente, quase 1 milhão de uniões são realizadas no país, assinadas e com papel passado. Para Analu e Marcelo, a explicação para alguém querer compartilhar os sonhos, as contas e a intimidade é uma só: o amor. Foi esse sentimento o único responsável pela dissolução das convicções do casal e pela crença de que, mais uma vez, a felicidade a dois é possível. “A legitimidade do nosso sentimento aplacou as dúvidas”, diz Analu.
Afinal, agora não existe mais a imposição de jurar fidelidade na saúde e na doença, se isso não for feito por amor. São só as garantias emocionais que levam alguém a dividir o mesmo lar. E é a confiança no amor que faz com que milhares de casais acreditem que uma palavra tão antiga como casamento faça sentido nos dias de hoje. “As pessoas continuam apostando no casamento porque talvez não se tenha inventado ainda forma melhor de enfrentar a vida do que juntos”, diz a psicoterapeuta Lidia Aratangy, autora do livro O Anel que Tu Me Deste: o Casamento no Divã.
No entanto, o casamento moderno não é mais moldado por uma forma feita pelas cerimônias civil e religiosa e com contratos inquebráveis para toda a vida. O matrimônio deixou de ser um trilho no qual se entra com o caminho traçado. Já que é baseado no amor, tem todo o direito de extinguir-se se o sentimento acaba. Não há mais restrições sociais nem culturais – como as de antigamente, baseadas na religião – que obriguem qualquer pessoa a ficar em uma relação. “Os casamentos hoje possuem mil formas diferentes, são celebrados entre duas pessoas que se amam e pretendem viver juntas, seja com ou sem filhos, na mesma casa ou separados. A união está mais sob medida do que prêt-à-porter”, diz Lidia, comparando as roupas feitas em um alfaiate com as compradas prontas.
"Cada casal tem que inventar sua forma de ser feliz.
O modelo tradicional não serve mais para quem acredita
em uma relação mais igualitária, livre e satisfatória"
Tempo de amor
É que vivemos, pela primeira vez na história, um compromisso com base em um sentimento. O casamento foi inventado para lidar com questões de herança e era completamente dissociado de amor. Durante mais de quatro séculos, no Brasil, ele não foi celebrado de acordo com as emoções: interesses econômicos e familiares eram mais importantes, e, entre os mais pobres, o matrimônio organizava a sobrevivência. Em meados do século 19, o amor romântico começou a exercer sua influência no mundo e chegou até nós com o processo de urbanização do país. Enquanto a mulher descobria sua independência financeira, ela percebeu que não precisava mais se casar para sobreviver e podia escolher seu par. A ideia tem menos de 200 anos na sociedade ocidental, mas, daí em diante, passamos a acreditar que matrimônio e amor sempre caminharam juntos.
“O casamento é visto hoje como uma parceria, um encontro de duas pessoas especiais, que se completam e se compreendem”, afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pesquisa o casamento no Brasil desde 1988. Seus estudos mostraram que, para as brasileiras, as bodas são um pilar de satisfação. O marido é considerado por elas um capital que faz com que se sintam mais fortes, independentes e interessantes. E, se o primeiro ou o segundo não deram certo, dá para tentar mais uma vez.
Isso acontece porque o que antes era eterno, ou com um desembarque lento, ganhou uma saída de emergência. O divórcio, permitido desde 1977, exigia meses de espera. Trinta anos depois, uma nova legislação permitiu que casais sem filhos se divorciem tão rápido quanto se casam. E a possibilidade de poder saltar de um casamento à deriva estimulou novas uniões. “Cada casal tem de inventar sua forma de ser feliz”, diz Mirian. “O modelo tradicional não serve mais para muitos que acreditam em relações mais igualitárias, livres e satisfatórias.”

Casamento é...reinventar a família e viver para sempre a dois, como cibele e fábio da silva, que, juntos, estão completos e decidiram não ter filhos // Foto: Marcelo Trad
Você e eu, eu e você
Esse prazer de estar com o outro em novas versões de matrimônio trouxe consigo mudanças na ideia de família. Na receita contemporânea, unem-se os filhos de casamentos atuais com os do passado, acrescentam-se os ex, parentes e afilhados. Ou, então, a família se concentra em duas pessoas. É assim que Cibele Habermann Silva, de 39 anos, e Fábio da Silva, de 41 anos, constituíram seu núcleo. Quando a dupla de funcionários públicos assinou a certidão de casamento, há 20 anos, decidiu que era melhor esperar para pensar nos filhos que teriam. Tinham os estudos para terminar e o início da vida profissional pela frente. O tempo passou, e as mudanças de emprego e de cidade tomaram os planos do casal, que hoje mora em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Depois de resistirem anos a fio aos questionamentos de familiares e conhecidos, pararam para pensar se os filhos seriam mesmo necessários para tornar um casamento completo. E, em uma conversa, perceberam que não havia espaço para crianças entre os dois.
“Não tínhamos esse vazio de que as pessoas falam”, diz Cibele. A decisão também foi uma forma de enfrentar a pressão externa a favor da família numerosa. “Tem gente que nos considera egoístas. Mas acho que egoístas são aqueles que têm filhos pensando em ter alguém para sustentá-los na velhice”, diz ela, convicta de que não precisa representar o papel de mãe. Não que a casa não esteja repleta de crianças: Cibele e Fábio são padrinhos de oito, que transformam a casa em um refúgio de diversão.
A dois, eles dispensam dilemas típicos de uma família tradicional, como conciliar as férias dos pais com o recesso escolar e ter a agenda sempre cheia com inglês, dentista e natação. Também não sofrem com as preocupações de quem se sente responsável pelos filhos para sempre. Mas o principal que Cibele e Fábio dividem é o sentimento de estarem completos um com o outro e, assim, conseguirem gerir com liberdade a própria vida. Já arremataram sua geração, com uma sensação profunda de satisfação a dois. Para eles, não faz sentido colocar filhos como parte integrante da família que construíram com amor e carinho. “Não vemos motivos para ter um bebê”, afirma Cibele.
Afinal, aumentar ou não a família, e quando fazer isso, passou a ser decisão do casal. Os avanços da medicina permitem evitar o nascimento das crianças e transferem a decisão de ter filhos da natureza para cada um. Engravidar é uma opção e casar e fazer a família crescer deixou de ser causa e consequência. Se, a princípio, os filhos chegavam para dar continuidade à linhagem familiar e multiplicar a força de trabalho em grupo, hoje, com a valorização da individualidade, as novas famílias preferem se reproduzir quando encontram condições – e sentido – para isso.
“O amor é uma construção social que se apresenta de diversas formas na história”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins, autora do livro A Cama na Varanda. Por isso, o romantismo e suas expectativas difíceis, como parceiros ideais e filhos perfeitos, deram lugar a relações construídas por vínculos fortes e cumplicidade entre os parceiros. “Um casamento pode ser ótimo, mas, para isso, as pessoas também precisam reformular os sonhos que alimentam sobre a vida a dois”, diz Regina.

Casamento é... fazer questão do ritual e dos documentos, que simbolizam a união e trazem segurança, como ocorreu com Toni e David, que se casaram em maio // Foto: Renata Chéde
Sem fantasia
Isso significa acabar com a imagem de duas pessoas vivendo em um conto de fadas, sem brigas nem diferenças. Faz parte do imaginário de todas as idades desejar alguém que traga um universo de sonho em que os defeitos, sejam os dele, sejam os dela, não existem. No entanto, reconhecer as deficiências, os dias de mau humor e as dificuldades que devem ser encaradas juntos é a lição que os casais estão aprendendo. Foi assim que Toni Reis, de 46 anos, e David Harrad, de 53 anos, construíram sua relação de quase 22 anos. Eles passaram por todos os problemas que envolvem um casal homossexual no Brasil – até mesmo uma detenção. Há 15 anos, David, nascido na Grã-Bretanha, foi preso pela Polícia Federal em Curitiba, onde o casal mora, por não ter visto de residência no país. Eles dividem a casa, os dilemas e as novas leis que lhes permitem viver o casamento de peito aberto.
“Nos amamos muito”, diz Toni, quando fala do atual companheiro. Ele pediu a mão de David no momento em que os ministros da Suprema Corte brasileira debatiam a aprovação da união estável para gays, reconhecida em 5 de maio deste ano. Convite prontamente aceito, eles se casaram quatro dias depois da aprovação legal do documento. Com terno, paletó, cravo na lapela e bênção das testemunhas (e do ex-presidente Lula, que lhes telefonou após a cerimônia) disseram sim um ao outro, comemorando o ritual que, por décadas, havia sido negado a eles. Afinal, para eles, os papéis oficiais, além de simbolizarem o sentimento que sentem um pelo outro, significam também segurança jurídica para que evitem os apuros de eles não serem reconhecidos como companheiros. “Agora, podemos ficar tranquilos e em paz”, diz Toni, que é professor e presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).
A certidão coroa a relação de Toni e David, que se acostumaram a comemorar as pequenas vitórias em comum, e alimenta o amor que nasceu à primeira vista. Em 29 de março de 1990, Toni subia pelas escadas rolantes da antiga estação de Highgate, uma das mais profundas do metrô de Londres, na Inglaterra. O tempo de percurso foi suficiente para que os dois se vissem e se apaixonassem. “Ele olhou para mim e eu me declarei na hora para ele”, diz Toni. Juntos desde então e impossibilitados de oficializar seu vínculo perante a lei, os dois criaram pequenos rituais que representam a força do compromisso que os une. Todos os dias, David acorda Toni com o café da manhã na cama. E Toni, sempre que consegue, chega em casa com flores. Há seis anos, decidiram que estão prontos para fazer o amor crescer. Estão na fila da adoção para aumentar a família.
Para eles, são esses ritos e planos que simbolizam e demonstram sua união, na alegria e na tristeza, mesmo quando não tinham um papel timbrado para dizer isso. E é isso que oferece uma espécie de estabilidade para o universo volúvel dos sentimentos. Toni e David escolheram o ritual do casamento para consolidar a união. Para outros, basta morar juntos e ter filhos ou, simplesmente, dividir-se em mais um. O modelo matrimonial afrouxou as costuras, ganhou novos números, mas ainda veste o compromisso entre duas pessoas. E, com as linhas fortes do amor, faz com que a possibilidade do encontro verdadeiro seja mais livre e feliz.

















































