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Inspiração

É tão básico quanto estar vivo. A gente acorda respirando, dorme respirando, dança, pára, sente medo, raciocina, faz besteira, tudo enquanto inspira e expira. É talvez a ação mais automática do nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, é das menos banais. Ela garante a sobrevivência de todas as células do corpo, mas faz bem mais que isso. A gente também muda de humor, se aquieta, se estressa e até exprime traços de personalidade enquanto o ar entra e sai, entra e sai.
Do ponto de vista da ciência, tudo se resume a uma troca. O ar que inspiramos chega aos pulmões cheio de oxigênio. O sangue distribui esse oxigênio por todas as células do corpo, que o usa para transformar os nutrientes da alimentação em energia para o organismo. O que sobra desse processo de transformação é o gás carbônico, muito tóxico. Então, esse ar “envenenado” é levado pela corrente sanguínea de volta aos pulmões, que o expulsa quando soltamos o ar. Os pulmões se enchem de novo de ar carregado de oxigênio... e o ciclo recomeça.
Sem perceber, fazemos essa troca de 15 a 25 vezes por minuto. Uma interrupção de poucos minutos é suficiente para causar danos ao cérebro. Mas manter o ar entrando e saindo não basta para garantir saúde plena. Observe nesse exato momento como você respira. Quando o ar entra, que parte do seu corpo se move mais: o peito ou o abdômen? Provavelmente o peito – sinal de uma respiração curta, que enche apenas a parte de cima dos pulmões e não os esvazia totalmente. Como entra menos ar, são necessárias mais inspirações por minuto, o que pode fazer com que você se sinta cansado e até ansioso.
O raciocínio respira
O que a ciência tem apontado nas últimas décadas – e que as técnicas milenares como meditação e ioga já dominavam – é que inspirar e expirar não tem implicações meramente físicas, mas também psicológicas. “A respiração tem ligação direta com a parte do cérebro que controla as emoções e o pensamento”, diz o psiquiatra Antonio Nardi, que coordena o laboratório de Pânico & Respiração do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ele, respirar de maneira curta, rápida e freqüente pode provocar dor de cabeça, cansaço fácil, formigamento e até desmaio. Já respirando de forma lenta demais, como quando estamos sonolentos, ficamos mais vagarosos.
A respiração tem ligação direta com a parte do cérebro
que controla as emoções e o pensamento. Inspirando e
expirando, podemos mudar o modo como nos sentimos
A relação é tão evidente que nem é preciso ter consciência desses processos. A garota Ana Luiza Carvalho Sartorelli, por exemplo, tem 11anos e há quatro pratica ioga. Quando pega o tapetinho feito por seu avô e foge da bagunça dos irmãos para fazer os exercícios de respiração que aprendeu na aula, ela sabe bem o que procura. “Eu sou agitada, meio irritada, e me concentro na respiração para ficar mais calma. Eu analiso o que faço e nem percebo”, conta.
Expire suas tensões
Como explica Nardi, transtornos de ansiedade e depressão também podem estar relacionados à forma como se respira. “Concentrar-se para respirar em outro compasso, aumentando a profundidade de cada ciclo, pode nos ajudar a ficar mais calmos”, explica o anestesiologista Fábio Regatieri. Pela prática, a pequena Ana já entendeu isso também. “Gosto de fazer as respirações antes de dormir. Ajuda a descansar mais tranqüila, sem ficar ansiosa para o outro dia.”
Para a hatha ioga, a modalidade que Ana pratica, a respiração é o único sistema do nosso corpo que pode controlar nossos sentimentos. “Ela é uma válvula de acesso à modificação do nosso estado emocional”, diz o professor de educação física, especialista em ioga, Marcos Rojo. Então, quando você estiver prestes a partir para as vias de fato com aquele colega encrenqueiro, basta parar e respirar fundo que passa? Talvez funcione, mas também é irreal pensar que a gente pode controlar conscientemente cada respirada que der no dia pra que seja assim, devagar e com calma.
“O melhor é criar um padrão rítmico de respiração adequado que seja constante, o que se consegue treinando um novo jeito de inspirar e expirar”, diz Rojo (veja no quadro ao lado as dicas dele para mudar seu jeito de tomar o ar). Para a medicina, a lógica é a mesma. “Deveríamos dar mais atenção à respiração, mas nunca damos. Olhando para nosso jeito de respirar podemos melhorá-lo, e daí melhorar diversas condições na nossa vida”, diz o psiquiatra Antonio Nardi. Parece elementar. Mas nada banal.
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ENTRA E SAAAI, ENTRA E SAAAI Quatro passos para lidar melhor com o ar que atravessa suas narinas |
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Observação |
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