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Inspiração

Não é irritante quando a gente está pê da vida e alguém aconselha: “Respire fundo”? A verdade é que inspirar e expirar bem é, sim, viver melhor. Mas não vale lembrar disso só quando está à beira de um ataque de nervos
Texto: Simone Cunha // Ilustração: Adriana Komura
Inspiração
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É tão básico quanto estar vivo. A gente acorda respirando, dorme respirando, dança, pára, sente medo, raciocina, faz besteira, tudo enquanto inspira e expira. É talvez a ação mais automática do nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, é das menos banais. Ela garante a sobrevivência de todas as células do corpo, mas faz bem mais que isso. A gente também muda de humor, se aquieta, se estressa e até exprime traços de personalidade enquanto o ar entra e sai, entra e sai.

Do ponto de vista da ciência, tudo se resume a uma troca. O ar que inspiramos chega aos pulmões cheio de oxigênio. O sangue distribui esse oxigênio por todas as células do corpo, que o usa para transformar os nutrientes da alimentação em energia para o organismo. O que sobra desse processo de transformação é o gás carbônico, muito tóxico. Então, esse ar “envenenado” é levado pela corrente sanguínea de volta aos pulmões, que o expulsa quando soltamos o ar. Os pulmões se enchem de novo de ar carregado de oxigênio... e o ciclo recomeça.

Sem perceber, fazemos essa troca de 15 a 25 vezes por minuto. Uma interrupção de poucos minutos é suficiente para causar danos ao cérebro. Mas manter o ar entrando e saindo não basta para garantir saúde plena. Observe nesse exato momento como você respira. Quando o ar entra, que parte do seu corpo se move mais: o peito ou o abdômen? Provavelmente o peito – sinal de uma respiração curta, que enche apenas a parte de cima dos pulmões e não os esvazia totalmente. Como entra menos ar, são necessárias mais inspirações por minuto, o que pode fazer com que você se sinta cansado e até ansioso.

O raciocínio respira

O que a ciência tem apontado nas últimas décadas – e que as técnicas milenares como meditação e ioga já dominavam – é que inspirar e expirar não tem implicações meramente físicas, mas também psicológicas. “A respiração tem ligação direta com a parte do cérebro que controla as emoções e o pensamento”, diz o psiquiatra Antonio Nardi, que coordena o laboratório de Pânico & Respiração do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ele, respirar de maneira curta, rápida e freqüente pode provocar dor de cabeça, cansaço fácil, formigamento e até desmaio. Já respirando de forma lenta demais, como quando estamos sonolentos, ficamos mais vagarosos.

A respiração tem ligação direta com a parte do cérebro
que controla as emoções e o pensamento. Inspirando e

expirando, podemos mudar o modo como nos sentimos

A relação é tão evidente que nem é preciso ter consciência desses processos. A garota Ana Luiza Carvalho Sartorelli, por exemplo, tem 11anos e há quatro pratica ioga. Quando pega o tapetinho feito por seu avô e foge da bagunça dos irmãos para fazer os exercícios de respiração que aprendeu na aula, ela sabe bem o que procura. “Eu sou agitada, meio irritada, e me concentro na respiração para ficar mais calma. Eu analiso o que faço e nem percebo”, conta.

Expire suas tensões

Como explica Nardi, transtornos de ansiedade e depressão também podem estar relacionados à forma como se respira. “Concentrar-se para respirar em outro compasso, aumentando a profundidade de cada ciclo, pode nos ajudar a ficar mais calmos”, explica o anestesiologista Fábio Regatieri. Pela prática, a pequena Ana já entendeu isso também. “Gosto de fazer as respirações antes de dormir. Ajuda a descansar mais tranqüila, sem ficar ansiosa para o outro dia.”

Para a hatha ioga, a modalidade que Ana pratica, a respiração é o único sistema do nosso corpo que pode controlar nossos sentimentos. “Ela é uma válvula de acesso à modificação do nosso estado emocional”, diz o professor de educação física, especialista em ioga, Marcos Rojo. Então, quando você estiver prestes a partir para as vias de fato com aquele colega encrenqueiro, basta parar e respirar fundo que passa? Talvez funcione, mas também é irreal pensar que a gente pode controlar conscientemente cada respirada que der no dia pra que seja assim, devagar e com calma.

“O melhor é criar um padrão rítmico de respiração adequado que seja constante, o que se consegue treinando um novo jeito de inspirar e expirar”, diz Rojo (veja no quadro ao lado as dicas dele para mudar seu jeito de tomar o ar). Para a medicina, a lógica é a mesma. “Deveríamos dar mais atenção à respiração, mas nunca damos. Olhando para nosso jeito de respirar podemos melhorá-lo, e daí melhorar diversas condições na nossa vida”, diz o psiquiatra Antonio Nardi. Parece elementar. Mas nada banal.
 

ENTRA E SAAAI, ENTRA E SAAAI

Quatro passos para lidar melhor com o ar que atravessa suas narinas

Observação
Concentre-se e analise como você respira: sinta a entrada e a saída do ar em situações banais e sua reação em momentos estressantes. Isso vai ajudá-lo a perceber as diferenças depois que começar a praticar os exercícios de respiração com freqüência.

Expiração longa
Expirar é a parte calmante do processo. Alongar o período da saída do ar – em até o dobro do tempo da entrada – é o tipo de respiração que nos leva a mudanças mais duradouras e profundas no dia-a-dia. Pratique inspirando em quatro segundos e expirando em oito. Quem é muito agitado pode não conseguir, mas basta contar tempos iguais e aumentar o
tempo da saída gradualmente.

Disciplina
Pratique esse exercício todos os dias, ao menos dez vezes pela manhã e dez à noite. “São dois ou três minutos, não dá para alegar falta de tempo”, defende Rojo. A mudança pode começar a ser percebida após uma semana.

Cautela

Não se esqueça: a prática tem de ser fácil. Fique atento à sua capacidade respiratória para não sentir falta de ar.

 

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