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Jogar junto

É quase impossível ficar indiferente diante de uma equipe em ação. A fila de formiguinhas que carregam folhas até o formigueiro, por exemplo. Que criança não fica fascinada? E o trabalho em grupo da escola, na casa do colega, o jeito mais divertido que existe de estudar. Tem aquele dia em que todo mundo vem te ajudar na mudança e, quando acaba, você olha todos empoeirados e se emociona de ver que tem amigos.
Qualquer ação em equipe é assim, cada um com sua função, mas num mesmo palco, com um mesmo objetivo. E dá trabalho. Tem as brigas, as (duras) concessões, a implicância com as diferenças. A divisão nem sempre igual de forças, as rejeições. Mas, de repente, quando a gente emerge desse emaranhado de interações e se dá conta de que, sim, a tarefa foi completada... Não tem satisfação igual. Ver o resultado da soma de trabalhos, talentos, lampejos é o tipo de coisa que faz a gente acreditar que, bem, conviver é complicado, mas que lindo que é.
No esporte, é contagiante. Que comemoração pode ser melhor que um time pulando e berrando até perder a voz? Fomos conhecer histórias de gente que escolheu se exercitar em grupo. Não é à toa que os esportes coletivos têm as maiores torcidas...
Uma perna ou cotovelo
É como se cada remador fosse um membro de um mesmo corpo. Um controla o ritmo, outro o equilíbrio, um o lado direito, outro o esquerdo, numa tal cadência, força e velocidade que fazem o barco – o ”corpo coletivo” – avançar. O esporte funciona assim: os atletas ficam enfileirados, com um remo em cada mão, e de costas para a direção do barco. Numa ponta vai o voga, que só tem a água à frente; é o homem da estratégia, coordena o ritmo e sabe quando cada tamanho de remada é melhor. Na outra vai o proa, detalhista, que vê todos os atletas, corrige o compasso e garante a estabilidade do corpo, quer dizer, do barco. Os atletas mais próximos de cada um deles são o sota-voga e o sota-proa, que compensam os erros. Em barcos de oito atletas há mais quatro remadores no meio, os meias-naus, que turbinam a força da equipe. Enfim, “remo é conjunto”, resume Leandro Franco Ferreira, 33 anos, atleta profissional do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Aos 16 anos, quando entrou na escolinha do Botafogo, Leandro estava seguindo o conselho da mãe, que o achava magrinho e “precisado” de um esporte para se desenvolver. Com 59 quilos, o “franguinho” chegou, com muita ralação, aos 21 anos e 80 quilos. Seu alimento foi a paixão especial por um dos fundamentos do esporte: “gosto de sentir que o parceiro depende de mim e que posso confiar nele. Preciso disso, é assim que me motivo”, diz. O parceiro pode ser um só ou outros sete remadores, dependendo da modalidade. “As minhas maiores vitórias são as de barcos grandes, quando foi preciso coordenar a técnica e a cabeça de oito atletas. Quando se ganha, a felicidade é maior porque o trabalho também é”, afirma, com a autoridade de quem já foi campeão sul-americano e cinco vezes campeão brasileiro. E com a engenhosidade de quem, dependendo do caso, é capaz de ser as duas pernas de uma dupla ou um cotovelo de um corpo, digo, de uma equipe de oito.

A diversidade é simples
A bola dispara para o outro lado da quadra: é Roberto Wolff, de 68 anos, também corredor de maratonas, quem saca. No outro time está Heloísa Campos, de 62 anos. Sem intimidade com esportes, ela nunca consegue agarrar a bola. Por mais diferentes que sejam, os dois batem ponto, às terças e quintas-feiras, com 22 outros senhores na casa dos 60 anos, na aula de vôlei adaptado do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. As regras básicas são iguais às do vôlei. Só que os times são mistos, agarra-se a bola em vez de rebatê-la direto, não vale saque manchete nem bloqueio. Tudo para abrigar a maior diversidade de idades, habilidades e condições de saúde e fazer dar jogo. “Gosto porque entro e jogo, sem julgamento nem pressão. É melhor ser titular do Bragantino do que reserva do São Paulo”, brinca Wolff. E é assim, sem pressão, que a iniciante Heloísa garante a emoção dessa partida: agarra a bola, pela primeira vez, bem no último ponto, o da vitória de sua equipe. “Todos comemoraram, até os adversários aplaudiram”, conta, orgulhosa. Já dona Elza Diacoli, de 62 anos, está focada nos resultados mais, digamos, científicos da aula: “É o jogo mais simples que nos dá a chance de estar aqui e não ficar parados em casa. É na quadra que sinto todas as reações químicas e liberações de hormônios que me deixam feliz. Não falto por nada”.

A física que vira química
A pequena Bia Evrard é a última a subir. Ela espera pelos braços que a levarão à extremidade da pirâmide, os dos chamados volantes. Cada passo é calculado: eles só a alcançam depois que o porteaur – a força, aquele que fica na base – dá o sinal: allez, hop! (francês para “vamos lá!”). Em um só movimento ela já está pairando no ar, sustentada pela equipe, mas pondo à prova sua concentração.
É assim na pirâmide: um movimento individual é conectado sempre ao dos outros. “Eu não gostava de atividades em grupo com risco, porque você depende de decisões alheias”, conta Celso Reek, de 32 anos, um dos porteaur da companhia artística Nau de Ícaros. Eles treinam todos os dias para seus cinco shows fixos em São Paulo. Com o tempo, Celso entendeu que a pirâmide desenvolve mais do que senso de equipe: “Ela ensina a não subestimar as pessoas”, diz.
O que garante a segurança dos acrobatas são os princípios da física: o pisar precisa ocupar a maior área de contato para dar mais aderência; um porteaur não fica rígido, aproveita o peso do outro para facilitar os movimentos. É tanta complementaridade que parece automático continuar a parceria fora do treino, do bar ao cinema. “A gente fica em contato físico por três horas ao dia. Facilita a amizade porque a química é natural”, conta Érica Rodrigues, volante da trupe.


















































