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Lavando a alma

O plano era combinado durante o dia, aos cochichos entre nós, um bando de pré-adolescentes em férias de verão. Era preciso esperar que os adultos dormissem – eles jamais concordariam com a ideia (com razão). Então, com as roupas de banho furtadas mais cedo do varal, fugíamos pé ante pé. Sem ninguém para nos vigiar, tomávamos de assalto a praia – àquela hora, iluminada só pelo céu estrelado. Como todas as coisas desconhecidas e pouco recomendáveis, era tão excitante quanto assustador: qualquer barulho, passo em falso, movimento suspeito na água, e saíamos correndo aos berros, apavoradamente felizes. O mar parecia mais quente do que ao meio-dia, e as ondas, embora mansas, nunca soaram tão altas.
Foram banhos memoráveis, que ao longo da vida se juntaram a muitos outros: praia de noite virou uma aventura da qual nunca me canso. Como a vez no luau da faculdade em que, indecisa entre dois pretendentes, entrei no mar de vestido e tudo e fiquei boiando no fundo até a situação passar. Ou quando resolvi apresentar a maravilha dos banhos noturnos a uma amiga – dessa vez, deixamos as roupas na areia. Encantadas com os plânctons que brilhavam na água e nos faziam parecer cobertas de purpurina, não percebemos outros amigos chegando à praia... e tivemos de passar mais tempo do que planejáramos no mar, disfarçando, até que pudéssemos recuperar nossos trajes. De outra vez, há tempos sem ver o oceano, tive uma crise de o-que-foi-que-fiz-da-minha-vida. ‘Vou ali e já volto’, falei pro pessoal – e saí do trabalho direto para o aeroporto, e do avião para o táxi, que me deixou em uma das minhas praias preferidas em Florianópolis, meia-noite passada. A bolsa e os sapatos ficaram na areia. As tristezas e confusões, o mar lavou. À noite, parece que ele limpa a alma melhor.

















































