cuidar
Limpa até a consciência

"Decidi não falar nada para meu marido. Não sabia o que ele ia pensar dessa ideia maluca de bancar a alquimista na lavanderia. Eu mesma tinha meus receios e impus algumas limitações à experiência. Arriscar destruir as roupas da família testando um amaciante feito de vinagre? Nem pensar. Mas confesso que, de maneira geral, o desafio me instigou. Negociei algumas condições com o editor e topei a tal faxina ecológica.
O primeiro passo foi pesquisar as receitas. Não foi difícil. Uma busca na internet revelou várias delas, em sites pessoais e páginas de instituições envolvidas com a causa da sustentabilidade. Por utilizar menos matéria-prima química, esses produtos causariam menor impacto à natureza, após escoar pelo ralo e chegar aos rios e oceanos. Também sairiam mais baratos e seriam tão eficientes quanto os industrializados. É o que veremos!
Eis os produtos que fui encarregada de fabricar: sabão, detergente, desinfetante, limpador multiuso, limpa-vidros e limpa-forno. Com a lista de ingredientes nas mãos, saí às compras. Em uma drogaria, encontrei quase tudo: glicerina, amoníaco, bicarbonato de sódio e óleo de rícino. Comprei a soda cáustica em um hipermercado. Já o ácido bórico (que entraria na fórmula do multiuso) me rendeu uma boa caminhada. Em vão: como não o encontrei nas drogarias nem no mercado, fui em duas farmácias de manipulação: uma informou que só vendia o produto com receita médica; a outra, que não o comercializava isoladamente. Desisti.
Antes de pôr a mão na massa, achei prudente levantar informações básicas sobre essas substâncias com algum especialista. Liguei para o departamento de química ambiental da Universidade de São Paulo (USP) e falei com o professor Reinaldo Bazito. Ele confirmou que os produtos caseiros tendem a ser menos agressivos ao ambiente do que os industrializados. Mas me desaconselhou a escrever uma reportagem incentivando as pessoas a produzi-los. “Certos procedimentos só deveriam ser realizados por químicos. A soda cáustica, por exemplo, pode provocar queimaduras sérias. O amoníaco, por sua vez, causa mal-estar se for inalado e, caso se misture à água sanitária, forma a cloramina, um composto altamente tóxico que ataca as mucosas do sistema respiratório”, alertou.
"Ao lavar a louça, meu sabão em nada ficou devendo ao convencional.
Não deixou minhas mãos oleosas, limpou bem e ainda me fez ficar com
a consciência tranquila, por reaproveitar óleo e poluir menos"
Ciente de que precisaria tomar todo o cuidado possível, comprei uma máscara (dessas usadas por pintores) e luvas de borracha. O correto seria usar também óculos protetores, mas quebrei o galho com os meus de leitura.
Comecei pelo sabão caseiro, que exige tempo para ficar pronto e serve de ingrediente para o detergente e o desinfetante. A receita pedia 2 litros de óleo de cozinha usado (que eu tinha em casa, pois costumo guardar para a reciclagem), 350 gramas de soda em escamas e 350 mililitros de água. A primeira dificuldade foi acertar as quantidades, já que não tenho balança – a saída foi apelar para o olhômetro. Dividi os valores por dois, para elaborar só meia receita.
Dissolvi a soda na água numa lata de leite em pó vazia. Enquanto observava um leve vapor da reação química, percebi que o metal ficou bem quente – depois soube que não se deve usar como recipiente nada feito de alumínio, para evitar corrosão. Minha filha de 7 anos ficou curiosa com a experiência, mas a mantive afastada para evitar acidentes, e reservei a mistura em um local seguro.
O próximo passo foi coar o óleo e levá-lo ao fogo. Aí percebi a segunda dificuldade. Ele deveria ficar à temperatura de 60ºC. Como não tenho termômetro adequado, novamente usei minha intuição. Misturei tudo por cerca de 25 minutos e despejei em fôrmas feitas de embalagens de leite longa-vida.
O sabão só ficou no ponto – um pouco mais duro do que eu esperava – lá pelo quarto dia, quando, enfim, pude experimentá-lo. Não sem uma pontinha de receio, pois o professor Reinaldo também me havia advertido para outro perigo: se sobrar soda cáustica sem reagir, ela vai atacar a pele e alguns metais; e, se sobrar óleo, não vai limpar direito.
Mas, ao seguir exatamente o que diz a receita, com relação à quantidade dos ingredientes e ao modo de preparo, não há com o que se preocupar – é o que afirma o químico José Antonio Canal, do Instituto Triângulo, uma ONG voltada para a difusão de práticas sustentáveis e a produção de sabão com óleo reciclado. A recomendação de deixar o produto em descanso por alguns dias depois de pronto tem o objetivo de dissolver partículas que, eventualmente, ainda não tenham reagido.
Enfim, chegou a hora do teste da pia! E tanto esforço valeu a pena: ao lavar a louça, meu sabão em nada ficou devendo ao industrializado. Não deixou minhas mãos oleosas, ao contrário do que eu temia, e até fez um pouco de espuma – o que não é fundamental para a limpeza, mas dá uma boa impressão.
O melhor é que assisti às bolhas descendo pelo ralo sem um pingo de peso na consciência: diferentemente dos detergentes normais, sabia que elas não continham lauril (um derivado de petróleo), sendo mais facilmente degradadas pela natureza. Lembrei-me também das palavras do químico José Antonio: “Além de ser eficiente e poluir menos, o sabão caseiro reaproveita o óleo, que causaria estragos ao ambiente se chegasse aos rios – sem contar o risco de entupimento de tubulações de esgoto”. Outro aspecto positivo é que o produto sai mais barato que o industrializado (veja o quadro abaixo).
|
ECOLÓGICOS, ECONÔMICOS, EFICIENTES |
|
|
Confira como foi o desempenho dos produtos testados por nossa repórter nos quesitos preço, poder de limpeza e cuidado na hora de elaborar Detergente: |
|
Quem usa sabão caseiro com frequência comprova sua eficiência. É o caso da professora carioca Denise Rangel, de 53 anos. Há dois anos ela é adepta do produto. “Meu sabão rende muito e realmente limpa”, diz. Denise também utiliza vinagre e bicarbonato de sódio na limpeza de casa. Assim, além de contribuir com o meio ambiente, ela evita o contato com o cloro, substância à qual é alérgica. “Os produtos caseiros são mais naturais e igualmente eficientes para limpar vidros, pias, banheiros. O cheiro do vinagre não é problema: ele se dissipa rápido”, afirma.
Pois foi justamente um limpa-vidros à base de vinagre que eu testei em seguida. São três colheres de sopa para 11 litros de água quente. Fiz um terço disso. Recomendado para a limpeza de rotina, o produto deu a impressão de ser diluído demais. Parecia que eu estava limpando só com água. Após aplicá-lo, tive de dar uma boa passada de pano seco.
Já uma segunda versão de limpa-vidros – que contém meia xícara de álcool, duas de água e uma colher de sopa de amoníaco – me pareceu mais eficaz, pois foi evaporando à medida que era utilizada. Isso porque tanto o álcool quanto o amoníaco são muito voláteis. Mas aí acende novamente a luz de perigo: o álcool é inflamável, e o amoníaco pode causar intoxicação se aspirado, bem como queimaduras ou irritação na pele. Portanto, é preciso usar máscara, luvas e manipulá-los com atenção.
Ingrediente muitas vezes usado para deixar o bolo mais fofinho, o bicarbonato de sódio entrou na formulação do meu desafio seguinte: um limpa-forno. Bastou dissolver o pó em água quente. Mas a receita não especificava a proporção. Talvez por isso, depois de ter utilizado a mistura sem muito sucesso na tentativa de eliminar marcas de gordura, o produto tenha secado e deixado um resíduo esbranquiçado. Ou seja: tive de limpar o produto de limpeza...
Mas segui adiante: experimentei uma pasta, também feita de bicarbonato e água, para limpar uma panela queimada. Conforme as orientações, deixei-a agir por cerca de três horas. Mas, novamente, não deu certo. Se eu tivesse esfregado com mais vigor, talvez funcionasse; mas suspeito de que acabaria arranhando o metal. Não quis pagar para ver. O lado bom é que o bicarbonato, além de não poluir, pode ser manuseado sem nenhum problema.
Quanto aos produtos que usam sabão caseiro como ingrediente, preparei primeiro o desinfetante para banheiro. Eu já havia deixado algumas folhas de eucalipto – colhidas numa chácara – de molho em aproximadamente 250 mililitros de álcool. Então, parti para a próxima etapa: ferver 250 mililitros de água com um pedaço de sabão caseiro ralado, até dissolvê-lo. Só depois que
a mistura começou a transbordar, de tanta espuma que formou, percebi que deveria ter utilizado uma panela bem mais funda. Contornada a situação, acrescentei mais 750 mililitros de água fria e a essência de eucalipto. Pronto. Parti para a faxina, e a sensação foi de que o produto limpou mesmo!
Animada, segui para meu experimento final: o detergente. Fiz primeiro uma versão em que se deve ferver uma mistura de 2 litros de água com sabão caseiro ralado, uma colher de óleo de rícino e outra de açúcar. Depois, preparei uma segunda receita, que leva um pequeno pedaço de sabão derretido em 250 mililitros de água, acrescido de pouco mais de 1 litro de água, meio limão e uma colher de sopa de amoníaco. Essa última versão limpou melhor. Mas ambas têm a vantagem de ser mais facilmente absorvidas pela natureza do que os detergentes convencionais, compostos de matérias-primas sintéticas.
Pronto, o desafio foi cumprido! E agora você pergunta: que lições eu tirei da experiência? Vou ser sincera: adotar todos esses itens no dia a dia não é para qualquer um. Eles exigem muito tempo e cuidado para ser preparados. Os convencionais são muito mais práticos, claro. Mas confesso que é emocionante ver uma criação sua funcionar. E a sensação de poluir menos também é bastante estimulante. Então, se é inviável transformar a lavanderia numa fábrica, pelo menos alguns hábitos a gente pode mudar.
É assim na casa da jornalista Larissa Veloso, de 24 anos, de Belo Horizonte. Ela usa produtos convencionais para tudo, exceto para deixar a roupa fofinha. Aí entra em ação seu amaciante caseiro, feito de raspas de sabonete. “Não é muito complicado e, além de minimizar o impacto ambiental, ajuda a economizar e faz menos mal à pele”, afirma. Com esses argumentos, ela garante que já convenceu sua mãe, de 55 anos, a adotar o produto.
Assim como Larissa, o que eu pude concluir, na prática, é que uma frase já clichê no tema da sustentabilidade realmente está certa: pequenas mudanças de hábito podem fazer a diferença. Depende de cada um de nós vencer a inércia e se permitir experimentar.”
Clique aqui e aprenda algumas receitas para que você realize a sua própria ecofaxina.
















































