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Marcado na pele

Cicatrizes são mais que feridas fechadas. Elas comprovam que vivemos a vida, que somos únicos e que temos força para nos reerguer – e boas histórias para contar
Texto: Chico Spagnolo e Dilson Branco, com a colaboração de Ana Luísa Vieira, Mariana Gomes, Sheyla Miranda e Tatiana Bandeira // Foto: Gabriel Rinaldi
Marcado na pele
Roark fez questão de manter a cicatriz da retirada dos três nódulos do pulmão: "Lembro-me do apoio que recebi de quem realmente me ama"
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Elas são a prova de que estávamos lá. Uma memória do corpo, às vezes mais eficaz que a da mente. Basta arregaçar a manga da blusa para comprovar: você não se lembra de como foi tomar a primeira vacina. Mas sua pele, sim.

Cicatrizes são testemunhas da nossa entrega à vida. Se existem, é porque estivemos dispostos a rasgar nossa carne para aproveitar o que o mundo tem a nos oferecer. São um traço de personalidade. Nenhuma é igual a outra, e cada uma traz consigo uma história singular. Elas nos fazem lembrar de quem fomos um dia, onde morávamos, com quem convivíamos, do que gostávamos de fazer, com o que costumávamos sonhar.

Tatuagens do acaso, elas revelam a capacidade do nosso corpo de se regenerar. As células se recompõem, os tecidos se reconstroem, mas não sem deixar esse esforço bem claro.
Cicatrizes são a expressão física da experiência. Nos dizem a todo o instante: “Veja só, você mudou”.

Há quem sinta vergonha. Que, com todo o direito, queira esconder, evite falar. (Talvez a ferida ainda precise de mais tempo para sarar.) Mas muita gente exibe suas cicatrizes com orgulho. Carrega-as como um prêmio, um suvenir, um pretexto pa­ra contar a boa memória que se esconde por trás. Como os entrevistados a seguir.

 

Quando eu tinha 20 anos, procurei um médico para saber a causa das fortes dores que sentia. Descobri que havia três nódulos no meu pulmão, e que seria preciso uma cirurgia para retirá-los. O corte deixou no meu peito uma cicatriz de 9 centímetros. Apesar do susto, essa marca me traz ótimas memórias. Lembro-me do apoio da minha família e dos amigos, de como eles me mostraram o que realmente significa amar alguém. O médico sugeriu uma cirurgia plástica de correção. Recusei. Exatamente por causa dessas lembranças.
Roark Stuart Kelly, 27 anos, São Paulo.


Eu sonhava em ter uma espada. Mas não uma que estivesse à venda. Queria produzir a minha própria. Aos 14 anos, comprei uma barra de alumínio e fui moldá-la com uma serra. Num dos golpes com a ferramenta, talhei um tantinho da minha perna direita. A marca ficou para sempre. O orgulho, também: foi ali que tive minha primeira espada.
César Yukiyoshi Suga, 29 anos, São Paulo.


Tinha 14 anos, estava passando a noite na casa de uma amiga. Resolvemos brincar com as pessoas na janela. Fazíamos “psiu!” e nos escondíamos. Dois rapazes ficaram ali até descobrir de onde vinha o som. Nervosas, com aquela sensação de quem faz coisa errada, aparecemos. Eles pediram para a gente sair para conversar na esquina. Mentimos que estávamos indo, mas só queríamos vê-los com cara de bobo, nos esperando. Descemos as escadas feito loucas, para nos escondermos na cerca e enxergá-los melhor. Na correria, meu anel enganchou na fechadura, partiu-se e encravou fundo na carne. Chorando, em busca de um táxi para o hospital, passei com a empregada na frente dos rapazes, que não entenderam nada. Daquela noite restou a cicatriz dos oito pontos que levei em volta do dedo, que uso como um lindo anel da minha adolescência.
Maria Isabel Medeiros, 54 anos, Maringá (PR).


Durante uma competição de skate, sofri um grande corte na canela. Minha esposa, Veronica, que cuida da minha preparação física, não estava comigo naquele dia. Durante a sutura, gravei um vídeo e lhe enviei imediatamente, com a seguinte mensagem: “Meu amuleto da sorte, olha o que acontece quando você não está por perto”. Essa cicatriz me fará lembrar de como é importante tê-la ao meu lado em todos os momentos.
Bob Burnquist, 33 anos, San Diego (EUA).


Foi pouco depois de completar 59 anos que fiz minha primeira viagem de avião. Fui passear no Rio Grande do Sul com meu marido. Uma vizinha disse: “Não vá ficar com medo, cuidado com o coração!”. Respondi: “Este é meu terceiro, novamente corintiano, muito guerreiro!”. Já fiz duas cirurgias para a troca de válvulas, que me deixaram cicatrizes no peito. Elas não me deixam esquecer da minha força interior. Já estou programando minha próxima viagem. Ainda não sei o destino, mas vai ser de avião!
Luiza D’Maschio, 59 anos, São Paulo.


Aos 7 anos, caí no quintal, abri a canela, levei oito pontos. Olhando para a marca que ficou, vejo como as coisas mudaram: minha mãe foi para o interior do estado, meu pai mora em outro bairro, eu também troquei de casa – e até a cicatriz tem um novo endereço: subiu para o joelho.
Marilyn Lima, 28 anos, São Paulo.


Sou piloto de rali de moto. Em 1999, no Rali Dakar, em Burkina Fasso, a mais de 150 quilômetros por hora, atropelei uma vaca que saiu de trás de um arbusto. Tive de reconstruir os ligamentos no ombro direito. É essa cicatriz que me ajuda a lembrar a meus alunos de pilotagem que grandes traumas não são necessariamente o fim: eles fazem parte de nossa história, nos dão lições de superação, e por isso não podem ser esquecidos.
Juca Bala, 44 anos, São Roque (SP).


Tenho uma cicatriz no pulso direito, herança da infância, quando caí numa escada de banco e fui parar atrás de um caixa eletrônico. Pelo formato – em cruz –, e pela localização, mais parece uma tentativa de suicídio. Anos depois, no começo da faculdade, passei alguns bons dias sendo vista como “aquela moça, vocês sabem, aquela que...”.
Tatiana Bandeira, 32 anos, São Paulo.


Levei uma martelada no rosto, aos 11 anos. Dois meninos estavam brincando com a ferramenta no playground do prédio e, por acidente, me acertaram em cheio. No hospital, o médico me tranquilizou e fez um trabalho de artista – tanto que a marca é superssutil. Aquilo me enfeitiçou, eu queria ser como ele. Hoje, estou no 2º ano de medicina.
Luiz Felipe Lessa Ortiz, 23 anos, São Paulo.


Por muito tempo, eu tive vergonha da cicatriz que ganhei por causa de uma apendicite. Depois de adulta, passei a encará-la de outro jeito. Hoje, ela me faz lembrar dos qua­tro dias em que meus pais ficaram me paparicando no hospital, lendo histórias em quadrinhos ou vendo TV do meu lado. E de quando meus amigos da escola foram me visitar com uma faixa: “Volta logo, Fabi!”.
Fabiana Siqueira, 27 anos, Curitiba.

 


Obtida às vésperas de seu primeiro mochilão, a cicatriz de Letícia a faz pensar em partir, viajar

 

Eu devia ter uns 4 anos quando brincava de fingir que a rodinha de meu carrinho de boneca era um guarda-chuva, e eu tinha de atravessar a avenida movimentada – na verdade, a varanda de casa – onde meu irmão fingia ser um motociclista. Foi, então, que a dondoca da sombrinha e o piloto desnorteado se chocaram em um acidente que me causou um corte na testa. Na época, pensei que os pontos eram pelos, que ficariam ali para sempre. O que restou foi uma cicatriz, da qual aprendi a gostar ainda mais quando um menino, no ônibus, gritou ao me ver: “Nossa! Você tem uma marca igual à do Harry Potter!”.
Gabriela Borges, 27 anos, São Paulo.


Estava na escola, pulando como um coelhinho, quando percebi ao meu lado um vaso com plantas (elas tinham formas tão esquisitas que nem o Einstein poderia imaginar!). Não deu tempo de desviar: caí com o joelho na ponta do vaso. Urrando, percebi a enorme cratera na minha perna. Doeu, mas, quando conto essa história, dou boas gargalhadas e todos riem comigo.
Giovanna Siqueira, 10 anos, Campinas (SP).


Todo dia, depois do colégio, eu pegava a prancha e ia para o mar. Era assim na minha adolescência, quando morava no litoral. Um dia, tomei um caldo daqueles, e a quilha rasgou minha perna, fazendo uma grande ferida. Hoje vivo em São Paulo e, a julgar pela minha pele superbranca, ninguém acredita que já fui uma menina da praia. É aí que exibo, com orgulho, a cicatriz que comprova meu passado radical.
Isabela Gaia Gonçalves, 22 anos, São Paulo.


Eu adorava apreciar mamãe fazendo biscoitos no fogão à lenha. Aconchegado naquele quentinho, eu observava atento suas manobras com a frigideira. Um dia, um espirro de óleo ardeu em meu braço. Ela prontamente me acudiu, misturando a farinha de suas mãos às minhas lágrimas de dor e mimo. São essas deliciosas lembranças que surgem sempre que vejo em meu braço a cicatriz do biscoito da minha infância.
Gilberto José Gomes, 59 anos, São Paulo.


Há 14 anos, na véspera do voo para meu primeiro mochilão – dois meses sozinha pela Europa –, bati num carro que passou o sinal vermelho. Ganhei um grande corte no joelho. Com a responsabilidade de cuidar bem dele, embarquei para Barcelona, uma semana depois. A cicatriz ficou larga, alta e internacional: curtiu gazes de diversos países. Claro que a memória do acidente não é boa. Mas a ferida que ele deixou me lembra cruzar, viajar, partir – coisas que amo. Ah, e a esquina da batida também ficou marcada, com a tinta das latas que eu carregava para a pintura de um cenário na faculdade.
Letícia Zero, 33 anos, São Paulo.


Correndo, no escuro, pisei no rabo do Rintin, nosso pastor alemão. Instintivamente, ele abocanhou minha testa. Eu tinha 5 anos. Não me lembro de sangue nem de hospital. Só do arrependimento daquele cão ao perceber o que havia feito. Para matar saudade das nossas brincadeiras, basta olhar no espelho: dois pequenos riscos brancos na testa marcaram para sempre a nossa amizade.
André L. Machado, 39 anos, Mogi Guaçu (SP).


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