editorial
Me desculpem

Ando precisando pedir desculpas. Com a sua licença, vou fazer isso publicamente: Gabi e Artur, desculpa por passar mais tempo trabalhando do que vivendo a nossa família. Mãe e pai, desculpa por ter escolhido viver tão longe. Fábio e Alexandre, desculpa por ser uma irmã ausente. Meus amigos amados, cujos e-mails não respondo e encontros eu perco: desculpa por não fazer parte da vida de vocês como antigamente.
Amanda, desculpa por não ter ficado ao teu lado na mudança. Mari, sinto muito por ter brigado contigo – tenho saudade de nós. Carla, lamento ter te decepcionado. Rô, desculpa por estar sempre atrasada. Leitores: vocês não sabem, mas me fazem chorar com as cartas que me escrevem. Perdoem-me por não conseguir respondê-las. A todos que convivem comigo, peço desculpas por dar menos atenção do que vocês merecem.
Tenho raros arrependimentos na vida. São sobre coisas que não deveria ter feito, mas que se resolveram de alguma forma, ao me perdoar ou pedir perdão. Em compensação, tenho centenas de culpas – essas, sobre coisas que deveria fazer, ou que poderiam ter acontecido de outro jeito. E o problema é que, nesses casos, minhas desculpas valem muito pouco.
É porque, embora reconheça minhas falhas, e, ainda que amargue as consequências delas, quase nunca conserto meus erros. Não sei como, não consigo pôr em prática as soluções que planejo ou, sendo muito sincera, a bem da verdade eu não quero mudar. Às vezes, as desculpas são apenas uma tentativa de solidariedade por lamentar a mágoa que causo – o que não significa que me arrependa da escolha feita.
De uns tempos para cá, tenho pensado muito sobre a inutilidade das minhas desculpas. E chego à conclusão de que o mais importante em pedi-las, enfim, não é recebê-las. Ironicamente, o precioso de um pedido de perdão não está na expiação dos nossos erros, mas no reconhecimento do que temos de pior.
Parece duro falar assim, eu sei. Mas essa é uma consciência importante de se ter na vida. Pedir desculpas é parte de um caminho de autoconhecimento. É de saber do mal que somos capazes que nasce a vontade de melhorar, a humildade de conviver com nossas imperfeições, a honestidade de assumi-las. Pode não resolver nada. Mas nos ensina muito.
E, assim, começo a achar que pedidos de desculpa contam mais pela sinceridade do que pelo arrependimento. No fim, o que procuro não é simplesmente ser perdoada. É ser aceita como sou, ainda que não me compreendam de todo. Mesmo que não concordem comigo. Porque o que sou inclui meu melhor... e, inevitavelmente, o meu pior também.
Se ser aceito não nos exime de tentar superar nossas falhas, ao menos nos dá a clareza de que perdão não zera o contador. A gente até recomeça, mas é de outro ponto. De onde ainda se vê, sim, o que passou – que vai permanecer na paisagem como parte da nossa história. Só que, dessa vista, dá pra contemplar a vida com um pouco mais de serenidade para escolher o caminho daqui pra frente.
Esta edição carrega histórias inspiradoras de perdão e agradecimento, de tentativa e superação. Espero que iluminem você a pensar na sua própria história – a que passou e as que virão. Bom fim de ano, obrigada por nos acompanhar... e desculpa qualquer coisa.


















































