Droga Raia

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Meu herói

Todo mundo tem um ídolo assim: em vez de voar ou soltar raios, seu superpoder é o de repassar valores que moldam nosso caráter e nos acompanham pela vida inteira
Texto: Ana Luísa Vieira e Juliana Dias, com a colaboração de Flávio Carneiro e Jéssica Martineli // Fotos: Raoni Madallena
Meu herói
Pedro (à esq.) e seu irmão Gustavo aprenderam com o pai, Mauro Sérgio, que pegar e não pagar é coisa de ladrão
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David, de 11 anos, um dia chegou em casa mostrando o poema que havia feito na escola: “Na minha casa tem um gato / Na minha rua só tem rato / Lá onde eu moro só tem maconha / Mas lá em casa só tem pamonha / Na rua todo mundo usa droga / Lá em casa eu só tomo Coca-cola / Os bandidos só metralham / Mas eu gosto mesmo é de soltar raia / Às vezes eles me oferecem arma com bala / E a minha vó fala: ‘sai da rua menino, fica em casa’”.

A família ficou surpresa. “Não sabíamos se chorávamos pela realidade que ele tem de enfrentar ou se ficávamos felizes por saber que os nossos esforços para educá-lo estão funcionando”, diz a tia Maria Damaris de Sousa, técnica de enfermagem, de 29 anos. Na periferia de São Bernardo do Campo (SP), onde a família mora, é comum ver crianças usando cocaína pelas ruas. Em casa, os exemplos que David tem são bem diferentes. “Minha mãe estuda e minha tia até se formou”, diz ele, com orgulho.

Os meninos do bairro, envolvidos com o tráfico desde pequenos, ostentam tênis caros. David foi apelidado de “dorme-chuteira”, por usar sempre o mesmo calçado velho, de que tanto gosta e que o faz sonhar. “Quero ser jogador de futebol. Vou seguir o caminho da minha avó, minha mãe e minha tia. Elas lutam bastante, e eu acho que sempre vale a pena esse esforço para estudar e trabalhar”, diz o garoto.

São histórias como essas que você confere a seguir. De gente que, a partir de um exemplo – seja um familiar, amigo, seja até desconhecido –, adquiriu um valioso princípio. E faz questão de reconhecer como esse aprendizado tem iluminado sua vida.

 


Estávamos no supermercado, e meu pai queria comprar umas colheres. Como não tinha onde carregar, ele as colocou no bolso da bermuda. Quando chegamos em casa, percebi que a gente tinha esquecido de passar pelo caixa. Meu pai e meu avô disseram que, se nós não tínhamos pago, era roubo. Mas nós não somos ladrões, então voltamos e acertamos tudo. A moça do caixa nos deu parabéns. Agora sempre lembro meu pai de pagar tudo, pra gente não ter de ficar voltando nos lugares.
Pedro Aurélio, 7 anos, São Paulo.
(Esse depoimento chegou aqui na redação em forma de cartinha. Quer dar uma espiada nela? Clique aqui.)




A reportagem na TV era sobre uma região pobre do país. De repente apareceu um garotinho de uns 2 anos, com seus únicos brinquedos: pedaços de ossos de algum animal. Mesmo assim, ele se divertia muito, desenhando na areia. Diante daquela cena, repensei a dimensão dos meus problemas e a forma como os enfrento.
Eduardo Esber, 33 anos, Itajubá (MG).




Minha avó faleceu há seis anos. No velório, um grupo de amigos cobriu seu caixão com a bandeira da associação da terceira idade da qual ela fazia parte. E o presidente disse: “Está indo uma mulher que fazia acontecer”. Sempre admirei a força da minha avó. E naquele momento decidi ser como ela. Larguei meu emprego e fui atrás do sonho do qual já tinha desistido: fazer doutorado em matemática.
Lisandra Sauer, 35 anos, Pelotas (RS).




Há 10 anos,  passei por uma situação difícil. Minha esposa nos deixou, e fiquei sozinho com meu filho de 7 anos. Sem ter quem cuidasse dele, passei a levá-lo comigo ao trabalho. No caminho, ao passar por um local abandonado e escuro, ele segurou minha mão e disse: “Pai, tem um lado bom de tudo isso, sabia? A partir de agora, eu venho todos os dias com você e te protejo”. Isso me marcou demais. Foi um grande exemplo sobre enxergar de forma positiva mesmo as piores situações.
Murilo Mendez, 46 anos, Amparo (SP).




Já era madrugada, e a rua onde fica meu ponto de táxi estava vazia. Aí surgiu aquele sujeito mal-encarado, querendo ir a um bairro distante. No trajeto, descobri que era um produtor musical respeitado e pra lá de simpático. Aprendi na prática aquele velho ditado: “As aparências enganam”.
Amauri Ramos, 61 anos, São Paulo.




Aos 16 anos, fui procurar emprego para ajudar minha família. Na entrevista, em uma loja de material de construção, a psicóloga perguntou se era aquilo mesmo que eu queria, pois na redação eu havia citado minha paixão pelo desenho. Um senhor que estava lá falou: “Desde pequeno eu quis ser jogador de futebol. Abri mão do sonho, e hoje tenho um bom salário, mas não sou feliz”. Desde então, trabalho com artes visuais.
Márcio Moreno, 26 anos, Santo André (SP).




Sempre aprendo com as crianças atendidas no hospital onde sou voluntário. Não me esqueço de um menino que perdera quase todos os movimentos e só podia se comunicar por meio de expressões faciais. A mãe não saía do lado dele. Nas refeições, ela criava toda uma história envolvendo a Dona Colher e o Senhor Faca. O filho gargalhava. Quando eu me lembro da cena, penso que, se eu me dedicar de verdade aos outros, sempre poderei fazer a diferença.
Rodrigo Zanata, 37 anos, São Paulo.


 



A tia de Marina a ensinou a esperar o doce esfriar para apreciar o melhor sabor. A lição de paciência ficou para a vida toda




Minha tia fazia um delicioso doce de abóbora. Tão logo a panela saía do fogo, eu já queria comer. Com toda delicadeza, ela me dizia que para provar o melhor sabor era preciso esperar. Uma deliciosa lição de paciência, para a vida toda.
Marina Paschoal, 54 anos, São Bernardo do Campo (SP).




Tenho um filho com síndrome de Down, de 30 anos, casado, trabalhador e feliz. Quando ele era pequeno, eu vivia corrigindo o modo como ele falava. Um dia, ele disse: “Olha o obus!”. E eu retruquei: “É ô-n-i-b-u-s”. Ele insistia, e eu ficava impaciente. Percebendo minha irritação, ele olhou nos meus olhos e soletrou “h-e-l-i-c-ó-p-t-e-r-o”, mostrando que poderia falar qualquer palavra que quisesse. Dei o braço a torcer cobrindo-o de beijos.
Corinne Goldenberg, 63 anos, São Paulo.




Meu carro pegou fogo em frente de casa. Imediatamente, os vizinhos sacaram extintores e mangueiras e foram ajudar. O senhor Luis, que eu nem conhecia, permitiu que eu guardasse o automóvel em sua garagem até que tivesse condições de consertá-lo. Numa época em que não temos tempo nem de notar a existência dos outros, foi uma grande lição de solidariedade. 
Cristiane das Neves, 40 anos, São Paulo.




No filme Homem-Aranha, a namorada do herói diz que não o quer só pela metade. Fiquei com essa frase na cabeça, e a falei ao meu namorado, que estava passando por uma fase de crise. No filme, o casal fica separado. Mas na minha história foi bem diferente: a paixão segue até hoje, porque decidimos ficar juntos por inteiro.
Maria Helena Sampaio, 49 anos, São Paulo.




Hal Jordan, meu herói predileto, é um dos Lanternas Verdes que compõem a Tropa Estelar, nas histórias em quadrinhos. Ele usa o anel do poder – que não faz o herói, apenas desperta a força que já existe dentro dele. Há anos carrego meu próprio anel do poder. Usá-lo é uma lembrança de que posso tudo o que meu coração desejar, desde que me dedique sem medo.
Camilo Otelac, 32 anos, São Paulo.




Uma ex-colega de trabalho me contou que ingressou na faculdade aos 46 anos, formando-se em pedagogia aos 50. Seu exemplo me inspirou a fazer o mesmo: acabei de entrar na minha primeira graduação, com o ânimo de uma adolescente!
Erika Macedo, 45 anos, São Vicente (SP).




Quando saí de Sergipe para trabalhar em São Paulo, meu pai, um pedreiro exemplar, me disse: “Sempre que fizer algo, lembre-se de que está escrevendo seu nome, assumindo uma responsabilidade da qual deve se orgulhar”. Aplico essa lição a todo instante, para ser lembrado como um bom exemplo, como meu pai.
Rinaldo Silva, 25 anos, Santos (SP).




"Meu avô abandonou a família quando meu pai tinha
5 anos. Tempos depois, apareceu em nossa casa, velhos
e doente. Meu pai cuidou dele até a morte. Jurei fazer o
mesmo: sempre estar ao lado do meu pai, meu herói"





Recém havia voltado de uma viagem de férias, mas por algum motivo estava irada. Quando parei no farol e um menino veio me oferecer balas, não dei o menor papo. Mesmo com o vidro fechado e minha expressão de poucos amigos, ele disse: “Que sorriso lindo!”. Seu bom humor me fez gargalhar, e tive um dia maravilhoso.
Marina de Souza, 52 anos, Embu (SP).




Minha filha é portadora de esclerose sistêmica, uma doença crônica e sem cura. Deixei de lamentar esse destino quando conheci a Maria do Rosário Mauger. Apesar de sofrer do mesmo mal, ela está sempre de bom humor e cheia de disposição para ajudar a quem precisa. Não à toa, ela preside a Abrapes, associação que reúne – e enche de otimismo – pacientes de esclerose sistêmica de todo o país.
Ana Florenzi, 47 anos, S. J. da Boa Vista (SP).




Sempre quis aprender a tocar piano, mas nunca tive a oportunidade. Hoje, por causa da artrose, tenho os dedos bem tortinhos. Mas me espelho no maestro João Carlos Martins, um dos maiores pianistas do nosso país. Acompanho sua trajetória desde antes dos incidentes que o fizeram perder os movimentos das mãos. E, ao vê-lo tocar tão lindamente, sigo sonhando.
Mathilde de Souza, 74 anos, Sertãozinho (SP).




Meu avô saiu de casa deixando minha avó com dois filhos pequenos para criar. Na época, meu pai só tinha 5 anos. Tempos depois, quando eu já era nascida, meu avô apareceu lá em casa, velho e doente. Meu pai, mesmo sem conhecê-lo, o acolheu e cuidou dele até a morte. Naquele dia jurei nunca abandonar esse homem tão generoso: meu pai, meu exemplo, meu herói!
Sophia Bertinni, 18 anos, Campinas (SP).

 

Quer ver mais depoimentos como esses? Clique aqui.
Se você gostar, depois clique aqui e confira mais uma série de depoimentos no nosso especial!

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