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Múltipla escolha

E, um dia, Marcus Vinicius Ferreira teve de escolher o que seria quando crescesse. “Advogado”, decidiu. Mas reprovou no vestibular de Direito. Tudo bem: no ano seguinte, passou em Odontologia. E conheceu habilidades que nunca sonhara ter. O curso era tudo o que ele sempre quisera. Estava descoberta sua vocação: dentista.
Em 1997, com o diploma em mãos, começou a trabalhar. Entre uma obturação e outra, em Belo Horizonte, onde morava, ele descobriu que a Universidade de São Paulo (USP) estava abrindo o primeiro mestrado do Brasil em lasers. Ora, ele gostava de lasers, então decidiu fazer a prova. Passou.
No curso, viu-se em meio a contas, fórmulas e equações. Logo ele, que havia feito uma fogueira com todos seus cadernos de matemática quando passara no vestibular, exultante por nunca mais precisar estudar tal disciplina. Mas o reencontro foi revelador. Marcus descobriu que, na verdade, tem uma vocação e tanto para os números.
Os professores também reconheceram sua aptidão. E, quando Marcus entregou a dissertação, fizeram-lhe um convite: cursar doutorado em uma área, bem, que ele jamais havia cogitado. Lá foi ele. Então o ex-quase advogado, dentista diplomado em lasers, descobriu durante a nova especialização, cursada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que também tem vocação para a biotecnologia. E, talvez, para outras coisas que, aos 35 anos, ainda nem imagina.
Polivalentes e versáteis
A história de Marcus está longe de ser comum. Mas não é que ele seja um superprivilegiado. O conceito de vocação de boa parte das pessoas é que anda defasado. “Essa ideia de chamado interno ou divino é uma definição tão pobre, tão impregnada de preconceitos, que engessa muita gente”, afirma a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, coordenadora do serviço de orientação profissional da Universidade de São Paulo (USP).
Até o começo do século 20, acreditava-se que cada um de nós recebia um chamado (vocatio, em latim) do sobrenatural para atuar em determinada área profissional. Uma só, e pelo resto da vida. Os avanços da psicologia na época começaram a questionar esse dogma. E a partir de então a ciência tem comprovado que somos polivalentes, e que muitos de nossos talentos podem ser descobertos no decorrer da vida. “O mais comum é que se tenha múltiplos interesses e diversas habilidades. E, de acordo com as características pessoais e do ambiente, vamos desenvolvendo as inclinações pouco a pouco”, completa Maria da Conceição.
“O mais comum é que se tenha múltiplos interesses e diversas
habilidades. E, de acordo com as características pessoais e do
ambiente, vamos desenvolvendo as inclinações pouco a pouco”
É fácil comprovar que nossas aptidões não dependem apenas de características hereditárias. “Se fosse assim, gêmeos idênticos, que têm a mesma composição genética, fariam exatamente as mesmas coisas”, afirma o neurologista Benito Damasceno, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O especialista também explica que nosso cérebro não nasce pronto. Ele vai se desenvolvendo durante toda a vida, moldando-se de acordo com as informações que recebemos e as experiências pelas quais passamos. “Cada vez que algo novo é aprendido, mais ligações entre os neurônios são formadas, novas redes são construídas, e o cérebro, esse órgão tão plástico, vai mudando”, diz o cientista.
Foi assim, enveredando por áreas aparentemente divergentes, que Marcus construiu uma profissão. Quer dizer, mais de uma. Além de trabalhar como cirurgião-dentista, ele tem uma empresa de pesquisa em biotecnologia, trabalhando com terapia fotodinâmica, que une luzes e corantes naturais para desenvolver novos tratamentos de saúde. “Sou como uma esponja, gosto de absorver o conhecimento onde quer que esteja”, diz. “Olhar para um único ponto faz você ser ignorante em muitas outras coisas que podem ser mais interessantes. Para mim, ser especialista em uma coisa só não faz o mínimo sentido.”
Cozinha fashion
É também com muitas profissões que a gaúcha Talula Trindade, de 31 anos, tem construído sua carreira. Ela começou duas graduações – Direito e Letras –, mas formou-se em uma terceira – Moda. Desenhar novas roupas e criar produções fashion era um barato. Mas Talula percebeu que escrever sobre isso lhe dava ainda mais prazer. Então, conseguiu uma vaga como colunista de um jornal, em Porto Alegre. Quando o dinheiro começou a ficar escasso, ela atacou de cabeleireira. Dessa vez, porém, enganou-se: as tesouras não lhe traziam encantamento e, em dez meses, aposentou-se dos salões.
Aí veio a gravidez, e Talula quis fazer algo que lhe desse tempo em casa e calma para cuidar da criança que estava vindo. “Sempre gostei de cozinhar. Fiz um curso de gastronomia e me apaixonei. Quando vi, já estava fazendo comida para vender, feliz da vida”, conta. “Como adoro escrever, mantenho um blog para dividir minhas descobertas culinárias.”
Da época de estilista, ela mantém o cuidado estético para montar doces e salgados no café onde trabalha, em Santa Cruz do Sul (RS). “Nunca pensei em profissão como um conceito fechado. Tudo o que fiz e aprendi me transformou no que sou hoje e agregou valor ao meu trabalho. Mudei tanto nestes 31 anos que acho impossível imaginar que nasci para uma coisa só”, diz a cozinheira – que logo vai se aperfeiçoar em fotografia, outra área de que gosta muito.
Hobby a sério
“Uma escolha profissional é um modo de obter um significado para a vida, de desvendar o mundo e de construir a própria identidade”, diz Luciana Valore, professora de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “E isso tudo é muito dinâmico, já que as pessoas mudam no decorrer da vida e os valores pessoais se transformam”, acrescenta. A psicóloga lembra que, com a expectativa de vida aumentando, temos mais tempo para nos dedicar a diferentes áreas. Algumas pessoas acabam unindo os interesses distintos numa mesma profissão. Em outros casos, porém, precisamos organizar muito bem a agenda para poder nos dedicar a tudo que desejamos.
Esse é o caso de Pedro Mazzoni, de 23 anos, de Jundiaí (SP). “Sempre joguei basquete e gostei de rock. Desde os 16 anos, quando comprei um baixo, levo o esporte e a música comigo”, diz. Na hora de cursar a faculdade, Pedro se decidiu pela Educação Física. Forma-se em dezembro e já trabalha numa academia. Mas, no início deste ano, montou uma banda com um grupo de amigos. Era para ser só um passatempo, mas virou coisa séria. “Estamos gravando um CD e, se der certo, eu largo o trabalho e me dedico só à banda”, diz. Porém, se a carreira de rockstar for lucrativa, adivinha o que ele pretende fazer? “Quem sabe eu não monto uma academia? Aí junto as duas coisas!”, comenta, deixando claro que não consegue viver só com uma das paixões. “A música e o esporte são momentos mágicos, que me fazem muito bem. E eu não quero ter de me decidir por um ou por outro. Gosto de levar as duas coisas assim, ao mesmo tempo.”
“Profissão tem a ver com professar uma fé, uma dedicação a algo em que se acredita. Ela é uma relação de amor e fonte de realização pessoal, já que investimos tanta energia nisso”, afirma a professora Luciana Valore. E o melhor de tudo é que não há apenas um caminho para encontrarmos essa satisfação. Ela pode estar relacionada a diferentes conhecimentos e ser praticada em mais de uma atividade. “Acreditar que uma única vocação precisa ser desenvolvida leva a crer que há uma profissão, com letra maiúscula, que trará a plenitude”, explica a psicóloga Delba Barros, professora da UFMG. “Só que essa profissão ideal não existe. Não há um dia a dia de trabalho sem crises nem defeitos. Um ser humano contém tantas potencialidades que acreditar que uma só vale a pena seria uma lástima”, completa. É por isso que Pedro resolveu deixar o roteiro de sua vida profissional em aberto. Assim, do mesmo jeito que Talula, Marcus e qualquer um de nós, ele pode decidir ser várias coisas quando crescer.


















































