movimentar
Na calada da noite

O dia é para o trabalho, e a noite, para o descanso. Pelo menos é assim que pensa e age a maioria das pessoas. Nada mais natural. Nosso corpo, aliás, está programado para isso: quando o sol se põe e as retinas percebem a diminuição da luminosidade, produzimos o hormônio melatonina, que prepara o organismo para o sono. Esse calmante natural, somado ao cansaço da atividade diária e ao silêncio das ruas, torna quase irrefutável o convite à cama.
Mas há quem encare o crepúsculo com outros olhos. Gente que se diz mais produtiva quando a lua impera lá no alto, que tem nas estrelas uma fonte de inspiração. Dentre esses, alguns se veem estimulados a refletir, ler, escrever, cumprir seu hobby intelectual preferido. Outros vão ainda mais de encontro à nossa natureza de animais diurnos: enxergam na noite o cenário ideal para pôr os músculos para funcionar.
Os especialistas têm restrições: para não atrapalhar o sono, a atividade deve terminar ao menos duas horas antes de ir para a cama. Mas, para os atletas noturnos, isso não é impedimento. Se for para remexer o esqueleto imerso em paisagens, sons, cheiros e demais sensações que só um céu negro propicia, não é nenhum sacrifício deixar o sono para um pouco mais tarde.

Trote lunar
O céu parece pintado à mão. As nuvens ganham tons alaranjados, e as árvores, azuis prateados. Ouvem-se os ruídos de grilos, corujas e sapos, e a brisa faz o cheiro do mato invadir as narinas. São assim as noites em que a dona de casa paulistana Simone Maciel Leme, de 34 anos, cavalga com a família numa fazenda em Itu (SP), a 100 quilômetros de casa . Os passeios, realizados uma vez por mês, sempre durante a lua cheia, são promovidos por uma agência de turismo rural. Há dois anos, Simone nem imaginava montar um cavalo, muito menos em horário tão estranho. Um dia, assistindo à TV, uma propaganda atiçou sua curiosidade. Na manhã seguinte, ao lado do marido e dos filhos gêmeos, cavalgou pela primeira vez. “Gostamos tanto que passamos a ir com frequência. Foi quando soubemos dos passeios noturnos e quisemos experimentar”, diz. No início, Simone achava que não conseguiria enxergar nada e que as crianças ficariam assustadas. Mas bastaram alguns minutos para que seus olhos se acostumassem com a luz da lua, e uma sensação prazerosa desse cabo de qualquer temor. “Cruzamos um riacho em meio à mata, passamos por ovelhas e bois e seguimos em direção ao topo de um morro. Lá, a lua iluminava a paisagem e tínhamos uma vista incrível da cidade”, recorda. Tudo isso em companhia das pessoas que mais ama. “É ótimo fazermos uma atividade física juntos, principalmente porque inclui o contato com a natureza. Sempre voltamos renovados, desestressados e felizes!”

Pedalada cor-de-rosa
Toda sexta-feira à noite, Teresa D’Aprile, de 62 anos, veste sua camiseta rosa-choque e toma as ruas de São Paulo. Não por causa de alguma bandeira feminista – embora o grupo que a acompanha seja formado apenas por mulheres. Seu compromisso é como guia da turma de ciclistas Saia na Noite, que ela mesma criou, há 18 anos. Quando a ideia surgiu, a então gerente comercial já havia adotado a bicicleta como meio de transporte e passeio, incentivada pelo marido, que é cicloativista. “Algumas amigas queriam participar das pedaladas, mas antes precisavam de treino. Topei guiá-las em passeios noturnos, quando tinham mais tempo e menos vergonha. De meia dúzia, logo passamos a sair com uma média de 35 mulheres”, afirma. A experiência resultou não só na criação do Saia na Noite como também na mudança de profissão de Teresa. Hoje, ela é personal biker: ensina a mulheres os truques para pedalar em segurança pela metrópole. Sexta à noite, porém, a proposta é mais livre: cuidar do corpo, conhecer a cidade e fazer novas amizades. Tudo isso sem pressa – e esse é o motivo de o grupo seguir o estilo “clube da luluzinha”: segundo Teresa, os homens são menos pacientes com quem pedala devagar. “Reunimos mulheres de diferentes idades e nosso foco não é correr nem competir. Por isso pedalamos de noite: a cidade fica mais tranquila, então dá para aproveitar melhor a atividade e relaxar.”

Da academia para a balada
Desde cedo, Flávia Maria de Oliveira treinou seu corpo para o prazer da dança. Tinha apenas 5 anos quando começou a praticar balé. Deliciando-se entre pliés e piruetas, Flávia tornou-se bailarina profissional em um grupo de São Caetano do Sul, na Grande
São Paulo, onde mora ainda hoje. Mas então surgiu outra paixão, o direito, e ela decidiu pendurar as sapatilhas para ter mais tempo para a faculdade. O corpo reclamou. Ela quebrou o galho entrando numa academia de ginástica. Quando percebeu, já havia feito amizade com a turma da dança de salão, que treinava no mesmo prédio. Além de arrastar o pé na aula, os alunos também costumavam ir a casas noturnas pôr em prática os passos aprendidos. Convidada a ir junto, Flávia não resistiu. Foram a uma balada especializada em zouk, um ritmo caribenho. Naquela noite, por coincidência, o professor estava presente, e bastou que ele ensinasse alguns passos para que Flávia se esbaldasse pela pista pelo resto da noite. “A dança já é algo meio intuitiva para mim”, conta a advogada de 28 anos. Hoje, ao menos duas noites por mês, ela sai com o único propósito de dançar. Chega a ficar até quatro horas seguidas deslizando pelo salão, geralmente ao som de um bom samba de raiz. A melhor hora para fazer isso? Quando o sol se põe: “A noite tem um brilho diferente. Acho que todo mundo fica mais vivo, disposto, bonito. Conheci muita gente bacana e fiz amigos queridos por causa dessas noitadas!”
VEJA MAIS:
Clique aqui para ler mais uma história inspiradora.



















































