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Na mosca

Um dos mais admirados fotógrafos do século XX, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), assim definiu seu ofício: “Fotografar é pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. Apesar de ter sido criada no contexto das artes, a máxima vale para todos os aspectos da vida em que se exige precisão. Sem observação, interpretação nem sentimento, não se acerta o ponto de uma receita, não se usa a palavra mais adequada num diálogo delicado, nem sequer se chega no horário para um jantar em família. No universo dos esportes, quase todas as modalidades exigem esse alinhamento. Seja em busca do gol, da tacada, do golpe, do arremesso ou de qualquer outro movimento perfeito, os atletas estão sempre explorando sua capacidade de precisão. Algumas atividades levam a perícia ao máximo, exigindo resultados aparentemente impossíveis, como cravar uma haste pontiaguda exatamente no centro de um círculo minúsculo, posicionado a mais de 10 metros de distância. Aí, além de cabeça, olho e coração, inúmeras outras variáveis fazem toda a diferença: o braço, o vento, o adversário, o tempo, o cansaço... Com o treinamento, aprende-se a controlá-las. Mas nem mesmo o melhor esportista, no auge de sua forma, pode ter todas as condições sob seu domínio. Sempre há espaço para o imponderável. E aí está a graça dos esportes de mira, como contam os três entrevistados a seguir.
De olho no bolim
Bernardo Possidonio, de 17 anos, já levou meia dúzia de colegas da escola para conhecer seu esporte favorito. Nenhum se encantou, e ele não consegue entender por quê. Desde que entrou pela primeira vez numa cancha de bocha, quando tinha cerca de 10 anos, a convite dos pais, também praticantes, ele nunca mais quis parar de jogar. Treina duas vezes por semana e, quando tem tempo livre, aos sábados e domingos também. Jogando em equipe, ele já participou de várias competições, chegando ao terceiro lugar no campeonato paulista de 2009. “A bocha me faz bem, me deixa feliz. E também estimula a lógica, me mantém focado”, conta. O esporte usa o conceito de alvo de forma um pouco diferente do usual. Primeiro, posiciona-se o bolim, uma bola menor. É em sua direção que os jogadores arremessam as bochas, mas não com a intenção de acertá-lo, e sim de deixá-las o mais perto possível dele. Às vezes, porém, o melhor é partir para uma tática diferente: “Se a bocha de seu adversário está mais próxima do alvo do que a sua, vale também acertá-la para que se afaste”, explica Bernardo. O que mais impressiona quem acompanha um treino da equipe do garoto, porém, não são as regras nem as habilidades exigidas pelo esporte, e sim a diversidade etária da equipe. Os jogadores têm entre 14 e 70 anos. Para quem acha estranho, Bernardo rebate com naturalidade: “Sempre joguei com os mais velhos, nunca tive nenhum preconceito. Aliás, uma das coisas mais legais da bocha são os amigos que eu fiz aqui”.

Tiro certeiro
Bastou uma provadinha para a empresária Liane Marques, de 44 anos, apaixonar-se pelo arco e flecha. Foi há cerca de três anos, durante uma viagem à Bahia. Apresentada ao esporte que ela mal e mal conhecia só pela televisão, surpreendeu a todo mundo – e principalmente a si mesma – ao acertar o alvo na primeira tentativa. Pronto: passou o resto das férias treinando. Quando voltou para casa, em Santos (SP), logo foi procurar uma escola na qual pudesse praticar a nova mania. Não encontrou. O tempo mostraria que a paixão não era fogo de palha: Liane esperou longos dois anos até abrir uma turma na cidade, e, assim que possível, matriculou-se. Hoje, treina duas vezes por semana. “É aqui que alivio minhas tensões. Penso com cuidado em cada movimento, na harmonia do corpo, no alvo. A cabeça tem de estar limpa para pensar no agora, e, aí, esquecemos qualquer problema”, diz. Com pouco mais de um ano de experiência no estica e solta, Liane já está disposta a enfrentar competições. Quando começou, ela se posicionava a 5 metros de distância do alvo. Agora fica a quase 18 e garante que acerta em 90% das vezes. “Não é fácil, mas não podemos nos irritar quando erramos. Há momentos em que faço tudo direitinho – a posição dos braços, a força, a mira – e mesmo assim o tiro sai pela culatra”, explica. Como tudo na vida, a gente pode programar, deixar os pés paralelos, esticar o braço, respirar... “Mas aí bate um vento mais forte, por exemplo, e desvia a flecha. O que podemos fazer? Continuar tentando”, diz.

Cesta sobre rodas
Larissa Leme corre para o garrafão, recebe a bola da colega, gira e arremessa. A cesta está a 3 metros do chão. A bola, com mais de meio quilo, tem de girar na trajetória perfeita até mergulhar no aro com menos do dobro de seu diâmetro. Na maioria das vezes, o resultado é o mesmo: cesta! O aproveitamento é fruto da experiência. Hoje com 20 anos, Larissa treina desde os 12, quando descobriu que a Associação Desportiva para Deficientes, em São Paulo, estava montando a primeira equipe infantil de basquete sobre rodas do país. Após uma entrevista, ela acabou sendo uma das dez crianças selecionadas para participar. Cadeirante desde os 9 anos, quando um acidente de carro lhe causou uma lesão medular, Larissa encontrou no esporte a atividade ideal para desenvolver sua determinação. “O basquete me faz muito bem. Mostra a mim que, se eu sou capaz de vencer obstáculos na quadra, também consigo fazer o mesmo fora dela, na vida. Além disso, tem a energia positiva do time, que acabou virando minha segunda família”, afirma. E virou também fonte de vitórias e orgulho, representados nos troféus que ela tem colecionado nos últimos anos, como o segundo lugar no campeonato brasileiro de 2008. Algumas das maiores lições do esporte, porém, ela tira no treino do dia a dia. “Tão importante quanto acertar a cesta, o que é sempre muito bom, claro, é não acertar. Nessas horas eu percebo que o erro tem um objetivo: ajudar-nos a sempre evoluir.”


















































