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Na prática

Na hora de aprender, Rafael Rosa prefere colocar a mão na massa. Padeiro, ele abriu há quatro anos a Pão, uma padaria artesanal orgânica em São Paulo, sem nunca ter feito um curso formal na área. O conhecimento, as receitas e o jeito que tem com bolos e brioches vieram da prática. Em viagens, dividindo o fogão com cozinheiros e trabalhando com profissionais experientes, Rafael construiu o próprio caminho e acumulou o saber que hoje se cristaliza na massa fofa e perfumada que sai do forno todas as manhãs. “Quis buscar a origem do pão, em seus métodos mais simples e tradicionais”, conta. Por isso, a maior parte de suas receitas nem sequer está escrita. São apontamentos à mão, básicos e precisos, que ajudam na hora de dosar os ingredientes.
Eles foram reunidos em 34 anos de vida dentro de cozinhas, junto ao forno. Desde pequeno, Rafael passava as férias na padaria de um tio, em Fortaleza. Cearense, mudou-se com a família para São Paulo ainda criança e esperava o verão de folga para poder fazer seus pães de brincadeira. Quando terminou o Ensino Médio, decidiu juntar o gosto pelas viagens com o estudo. Matriculou-se em uma escola de hotelaria na Suíça e dedicava mais da metade do ano letivo a estágios dentro de hotéis. Depois de formado, decidiu viajar pelo mundo e, nos dias livres, aparecia nas padarias dos restaurantes oferecendo-se para trabalhar como voluntário. “Eu queria aprender com as pessoas que estavam lá, mexer na massa, entender fazendo”, diz.
Em uma temporada nos Estados Unidos conheceu o dono de uma padaria orgânica e passou um mês como hóspede em sua casa para aprender o preparo dos ingredientes. “Ele me ensinou a lidar com o forno a lenha, a manter o fermento ativo e me passou os fundamentos do que faço hoje. Grande parte desse saber não está registrada, faz parte da tradição, e era isso que eu queria aprender”, explica. Pouco tempo depois, quando Rafael decidiu voltar ao Brasil, deu-se conta de que, em 12 anos de viagens, tinha virado um padeiro. Foi quando surgiu a Pão. Em sua vitrine, os bolos, pães e bolinhos expostos foram herdados da família, de países estrangeiros e das pessoas com quem conviveu – e ele não pode imaginar um diploma melhor que esse, feito da própria história.
Os ingredientes
Tentando, repetindo e refletindo sobre seus erros, Rafael aperfeiçoa dia a dia suas técnicas. “Qualquer tipo de aprendizado fica melhor quando há o equilíbrio entre a prática e a teoria. Um separado do outro deixa o caminho longo e estafante”, diz Sueli Fidalgo, professora da Universidade Federal de São Paulo e membro de um grupo de estudos sobre o tema. Afinal, mesmo em atividades que são puramente experimentais, há um conjunto de saberes – que poderiam ser chamados de teoria – que estão por trás da ação. Mas conhecimentos teóricos, sozinhos, fazem pouco ou nenhum sentido: tem de sair do papel.
“A teoria nasce quando alguém olha para a prática e busca entender o porquê, o como, o para quê. E novas práticas surgem disso e são melhoradas. São saberes que estão, o tempo todo, entrelaçados”, diz a professora. Para Rafael, livros e consultas a outros profissionais pavimentam o conhecimento abstrato sobre a padaria e apoiam sua experiência diária. Afinal, nem todo mundo gosta de ficar somente estudando ou só praticando. “Os resultados chegam com uma ou outra forma de conhecimento – às vezes por sorte. Mas ter os dois unidos é mais eficiente e divertido”, diz Sueli.
"O trabalho artesanal faz a gente perceber que é muito
ignorante em relação a coisas que parecem simples - mas
que, na verdade, carregam séculos de conhecimento acumulado"
Foi esse casamento perfeito que José Henrique Becker foi procurar em Ubatuba, há 14 anos. Biólogo, ele decidiu mudar-se para a praia e conviver com seu objeto de estudos: a conservação ambiental. Logo no primeiro ano de ciências biológicas da Universidade de São Paulo, em 1987, ele mergulhou no assunto, trabalhando em centros e museus dedicados ao tema na capital. Mas a vontade de estar no meio da natureza e viver o que apenas estudava
o levou para o Pantanal, como guia de ecoturismo, e ao litoral da Bahia e ao de São Paulo, onde fez estágios voluntários no Projeto Tamar, o programa de conservação de tartarugas marinhas.
Dez anos depois, ainda sem terminar o curso de graduação, José Henrique foi morar em Ubatuba para dedicar-se às tartarugas e estudar, de um jeito novo, a biologia. Afinal, é difícil aprender algo sobre a conservação de uma espécie a distância. “A proximidade com o animal, o convívio com as comunidades e o clima daqui facilitam a compreensão”, conta. Em 2001, ele finalmente se formou, e hoje, aos 43 anos, é coordenador técnico do Tamar na região. Mas sabe que o profissional que se tornou se deve mais à vivência do que ao estudo. “Os bichos sofrem, textos e números não. E lidar diretamente com o ser humano que trabalha duro e depende da pesca para sustentar a família é bem diferente do que nos é apresentado na faculdade como ‘pescador predatório’”, afirma. “Tem de estar perto para ver e sentir isso.”
Modo de fazer
É passando pelos sentidos, em vez de só pela mente, que o conhecimento se transforma. Adquire significados concretos e coloca em xeque ideias e conceitos aprendidos ou preconcebidos. Além disso, viajar ou estar rodeado por elementos culturais diferentes dá ao saber novos significados e ensina a olhar o que já sabíamos por outro ângulo. É aí que o aprendizado se torna completo.
Gabriele do Nascimento percebeu isso há dois anos, quando decidiu se aperfeiçoar em inglês e espanhol. Desde o fim do Ensino Médio, a jornalista carioca seguia cursos regulares das duas línguas. Mas em 2005 precisou reduzir as despesas e cortou as aulas. Em viagens, percebeu que ficava muito mais desenvolta depois da imersão em língua estrangeira – o problema era dinheiro para fazer as malas o tempo todo. Foi aí que seguiu o exemplo de uma amiga e se cadastrou no CouchSurfing, site que reúne pessoas ao redor do mundo dispostas a oferecer gratuitamente teto e cama a turistas. Em seu perfil, Gabriele, de 30 anos, avisa que oferece um quarto de seu apartamento no Rio de Janeiro a hóspedes do mundo. Em troca, recebe falantes de inglês e espanhol. O objetivo é praticar as duas línguas e aprender sobre a cultura estrangeira com quem vive imerso nela.
“Para mim é uma semana de aula particular em casa, ao ar livre, dentro de uma boate”, diz. “Sempre peço para que prestem atenção em como falo e me corrijam.” Cerca de 15 pessoas já fizeram esse papel de professor. Com os australianos, aprendeu a reproduzir o sotaque do país e o jeito certo de falar os verbos no passado do inglês. Com os ex-hóspedes com quem troca e-mails, aperfeiçoa também a expressão escrita. “Aprendo coisas que, talvez, na sala de aula, não veria. Gosto muito de estudar gramática e literatura, mas acho mais divertido me comunicar, entender o que as pessoas falam”, diz. Quando está de férias, a busca por saber continua. “Sempre tento conhecer gente que me ensine algo novo. E, com isso, fiz bons amigos em diversos cantos, como Inglaterra, Espanha, Austrália, Estados Unidos e Suíça. É o melhor jeito de praticar e aprender mais.”

Finalização
Ir fundo em uma atividade prática para aprender é também o que faz Sarah Amaro, gerente de vendas de São Paulo. Seus domingos começam cedo, com o celular desligado e a máquina de costura montada. Ela passa o dia todo cortando, costurando, modelando e ajustando medidas em peças que cria para si mesma. O ritmo é tão intenso que, depois de dez meses às voltas com fios e tesouras nos fins de semana, ela começou a tentar fazer detalhes diferentes, forros sofisticados, bolsos mais difíceis. Sozinha e com o material que dispunha em casa, não conseguiu. Como o corte e a costura básicos não deram conta de sua criatividade, foi atrás de um curso avançado de confecção de roupas. “Estou com mania de fazer calças e blazers e agora quero usar tecidos e técnicas que não domino”, conta.
Não é a primeira vez que ela vai à sala de aula para aprender a prática. Até o ano passado, Sarah nada sabia sobre linhas e agulhas. Aos 36 anos, ela entrou em um curso básico por indicação de uma amiga – e se apaixonou. “Procurava uma atividade artesanal diferente e que me desse prazer. Nas aulas, descobri um mundo novo”, afirma. Conversando com as professoras e colegas, ela percebeu que existia um saber complexo por trás das barras e golas que veste. “Hoje, olho uma roupa e sei o que existe por trás dela. O trabalho artesanal faz a gente perceber que é muito ignorante em relação a coisas que parecem simples – mas que, na verdade, carregam séculos de conhecimento acumulado.”
É essa reflexão que permite entender o que, na hora de arregaçar as mangas, funciona, dá errado ou pode ser feito de outra maneira. “A possibilidade de melhorar uma ação e criar algo novo depende de uma reflexão que se apoia no saber concreto”, diz Ana Maria Monteiro, diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A troca de saber que acontece na conversa com colegas e professoras é o que faz com que Sarah não desista e vá cada vez mais longe. “É na prática que acontece o ‘insight’, que o aprendizado se solidifica e se torna pleno. Há uma relação de mão dupla entre teoria e prática que faz com que os conhecimentos não sejam apenas repetidos, mas aperfeiçoados”, completa Ana Maria. É assim, com as mãos na massa, que a aprendizagem ganha sentido – e, de brinde, se torna emocionante.

















































