editorial
Não costuma falhar

Fui batizada com a mesma camisola que meu pai usou e que duas décadas depois vestiria minha filha. Durante a infância, fui tanto à igreja com a minha avó Elza que aos 7 anos já sabia de cor até as partes em latim da missa católica. Mas estudei quase a vida toda em uma escola luterana, e por isso conheci outra Bíblia, folgava em feriados diferentes e aprendi a rezar em alemão.
Quando eu e meus irmãos estávamos impossíveis, minha mãe nos levava para tomar passe no centro espírita. Se me entristecia sem motivo, meu avô Adão me benzia contra o quebranto com galhos de arruda. Minhas tias liam cartas e me ensinaram simpatias, boas especialmente para os anos novos, quando abençoavam a entrada, assim como as flores que mandávamos para Iemanjá.
A maioria das pessoas que conheço, assim como eu, cresceu em famílias que misturam suas crenças: é um traço do Brasil. À essa herança, vamos juntando outros rituais vida afora – não necessariamente religiosos, mas que sempre têm a ver com fé. É o caso da blusa da sorte para grandes encontros, do esquema infalível de torcida pro jogo, do jeito de brindar que traz bons ventos, dos três toques na madeira, do horóscopo lido às manhãs, dos santinhos, pimentas, incensos e tantos outros amuletos que protegem o corpo, a casa, o bolso, a vida.
Seja qual for o nome, a forma ou o lugar em que nos expressamos, as crenças e rituais servem, em boa parte, para alimentar nossa força, nossa segurança. Costumamos associar a fé à espiritualidade porque é reconfortante acreditar que algo maior do que nós tem o dom de nos proteger da angústia e de atender nossos desejos. Sentir-se amparado assim ajuda a crer mais em nosso próprio poder.
Mas é disso, afinal, que se trata: do nosso poder. A fé não é divina – embora também possa estar depositada em um Deus. Essa palavrinha quer dizer, antes de tudo, confiança. Quer dizer que acreditamos. Que apostamos, mesmo sem ver nem saber o final. Fé é outra forma de chamar a esperança: esse sentimento que nos mantém firmes mesmo quando nada indica que vamos conseguir.
Algo lá fora pode ajudar a alimentar essa força: cada um sabe do que precisa para se sentir melhor. Mas ela vive mesmo dentro de nós. E nossas realizações dependem mais da fé que colocamos nelas (ou seja, na gente) do que dos rituais. Encarar essa responsabilidade pesa: se temos o poder, ficamos sem ter a quem pedir (ou culpar) pelas coisas. Mas também liberta. Porque, se podemos, nada nos impede de conseguirmos o que quer que seja – a não ser nós mesmos.
Esta edição está cheia de histórias de gente que, por fé e esforço, conseguiu feitos extraordinários quando nada indicava que fosse possível. É também a história da própria Sorria – R$ 2,50 é quase nada para lutar contra o câncer, mas, de revista em revista, já são mais de 2,5 milhões doados. O maior risco que corremos na vida é achar que podemos tão pouco que nem vale a pena tentar. A gente pode. Começa por acreditar em nós mesmos e na diferença que somos capazes de fazer no mundo. E essa fé não costuma falhar.

















































