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Não é utopia

Pode parecer utopia. Só em 2007, 14 milhões de pessoas freqüentaram as unidades do Serviço Social do Comércio (Sesc) da capital paulista. Viram shows, peças, mostras, praticaram esportes ou foram ao dentista. O Sesc tem uma programação eclética, com artistas de ponta, a preços acessíveis. Abriga um festival de filmes em webcam, feitos por gente comum. Traz uma atração da Europa para a unidade do Belenzinho, na periferia – não aos bairros nobres de sempre. E mistura música erudita com caipira, arte com brincadeira de criança. Parece utopia, mas é só um objetivo levado a sério.
O sério, nesse caso, pode ser personificado na figura de Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc paulista há 24 anos. Ele acredita piamente que o objetivo formal da entidade – que não tem fins lucrativos e é financiada por empresas – é algo muito concreto: promover bem-estar social, desenvolvimento cultural e melhoria da qualidade de vida da comunidade. Talvez por isso esteja dando tão certo. O reconhecimento de seu trabalho a favor da cultura é unânime. Cientista social e filósofo, na entidade desde 1968, ele já foi chamado pelo dramaturgo Gerald Thomas de “o maior ministro da Cultura que o Brasil já teve” . Danilo recebeu Sorria* em seu escritório para um bate-papo:
Sorria* – Jadel Gregório, nosso recordista sul-americano de salto triplo, teve sua primeira oportunidade no Sesc. Por que facilitar o acesso à cultura e ao esporte pode ser transformador?
Danilo – Cultura, esporte, informação, inclusão digital, todo esse conjunto torna um cidadão mais feliz, mais confortável, mais integrado. E capaz de saber o que quer da vida. Porque decidir implica ter informação, conhecimento, convivência, observação. Também precisamos estar preocupados com nossa relação com a sociedade, com a política, o meio ambiente. Indivíduos que não participam, que ficam à margem da sociedade, vão ter um protagonismo reduzido. A proposta do Sesc é oferecer às pessoas a chance de crescer, desenvolver-se, dar uma contribuição e receber também. É interação.
Uma cena como ver gente jogar papel para fora do ônibus, por exemplo, isso é falta de protagonismo?
Danilo – É isso. O sujeito não tem informação. Ele não sabe que aquilo pode provocar o entupimento de um bueiro e causar uma enchente. Essa percepção de que nós fazemos parte de um todo, e que esse todo pode ser melhor ou pior conforme a contribuição que nós, individualmente, damos, é rara. E não é que a gente faça um trabalho para dizer: “Olha, você é responsável, tome cuidado com o que faz”. Não é didaticamente inteligente fazer isso. O que você tem de fazer é proporcionar uma programação em que essa informação esteja embutida de maneira indireta, sutil.
E proporcionar isso deve ser trabalho de quem?
Danilo – De todos. Especialmente de organismos mantidos com recursos públicos, ou da iniciativa privada que tenha finalidade de interesse público. Mesmo nas sociedades mais simples, menos tecnológicas, há momentos em que o indivíduo não está trabalhando nem produzindo nada, está simplesmente participando de uma experiência cultural, de uma cerimônia... Os povos mais simples têm isso bem presente. É inerente ao ser humano: a alegria, o brinquedo, o prazer, o jogo. Faz parte.
"Cultura, esporte, informações, inclusão digital, todo esse conjunto
torna um cidadão mais feliz, mais confortável, mais integrado"
Cultura e entretenimento, por exemplo. Você acha que está claro para a maioria o que é um e outro?
Danilo – Não. Entretenimento também pode ser cultura, e vice-versa. Tem de tomar algum cuidado aí. Do ponto de vista antropológico, cultura é tudo aquilo que você cria, que transforma a natureza. Alimentação, vestuário, caneta, caneca, vidro. Mas há uma diferença entre a cultura que é educação, que torna as pessoas melhores, e a cultura que é mero entretenimento. Um tipo de cultura que não faz pensar, que repete o de sempre, é próprio do entretenimento. Agora, uma apresentação refinada de um poeta, um escritor, se me dá prazer, pode ser chamada de entretenimento.
E o que mais quer o Sesc?
Danilo – Mais unidades [hoje são 17 na Grande São Paulo e 15 no interior e litoral], mais presença em novos bairros e no interior e passar mais enfaticamente a idéia da ocupação produtiva do tempo livre. Você sabia que nós somos uma sociedade em que o tempo livre vai ser cada vez maior? Vamos produzir mais em menor tempo. E isso significa que teremos mais tempo para continuar produzindo, mas aí é produzir para a gente mesmo. Gostaria que todas as instituições percebessem o papel que têm no que tange a esse compromisso com a sociedade. Nós temos de preparar um mundo melhor para quem vem depois da gente. Não sou utópico. Acho isso fundamental. Sou contra a sociedade do conflito e da competição permanentes, contra o desentendimento como forma de vencer e ultrapassar. Eu parto da idéia da igualdade absoluta entre os seres humanos. Afinal, somos todos portadores dos mesmos direitos.


















































