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Não foi como planejei

Nossa vida é feita de planos. De grandes e pequenos, sérios e sonhadores, cotidianos e distantes. Planejar é um hábito inerente ao ser humano, fruto da imaginação e do gosto pela sensação de estabilidade. Planejamos o que vamos fazer para o jantar, que roupa vestir amanhã, onde será nossa casa, em que lugar passaremos as férias, quantos filhos teremos, como será nossa festa de aniversário.
Muitas vezes, os planos funcionam. Outras tantas, dão estrondosamente errado. Frustrante? Pode ser. Mas também pode significar um novo caminho, ainda melhor do que aquele que havíamos calculado. Erros, enganos e furadas, acredite, têm o poder de nos levar também a descobertas, surpresas e aprendizados. Ou você nunca se pegou dizendo: “Ainda bem que foi assim”, depois de um problema?
Conheça histórias inspiradoras de planos que foram por água abaixo. É provável que depois você se pegue torcendo por um imprevisto que mude tudo para melhor.
Efeito borboleta
“Era setembro de 2006, fim de semana de eleições, e eu iria de Manaus, onde vivia, até Brasília visitar minha namorada. No caminho para o aeroporto, notei que havia esquecido o título de eleitor. Voltei para pegá-lo e perdi o voo. Além da raiva, veio na cabeça o meu pai, que trabalhou 20 anos em empresas aéreas, dizendo ‘Não falei pra chegar mais cedo?’. Peguei outro avião e pousei a tempo do jantar. Pouco depois, o telefone começou a tocar. As pessoas queriam saber se eu estava bem: o avião em que eu deveria ter embarcado tinha desaparecido. Quando os destroços do voo da Gol apareceram na TV sem nenhum sobrevivente, senti um frio na barriga. Algo me disse: ‘Faça a sua vida valer a pena daqui pra frente.’”
Carlos Gurgel, 29 anos, Lisboa, Portugal
Era outro
“Era nosso aniversário de dois anos de namoro. Para comemorar, tive a brilhante ideia de montar um jantar árabe. Fiz quibes, me vesti de odalisca e fui ao apartamento do Guilherme montar o cenário, enquanto ele jogava futebol. Quando entrei... Um clássico: ele estava no sofá com outra. Fiz um escândalo, arremessei os quibes neles e fugi. Dias depois, o Alexandre, irmão caçula dele, foi em casa. Disse que a família estava furiosa com o traidor, e que ele queria continuar meu amigo. Nas semanas seguintes, o Alê seguiu me visitando. Nos apaixonamos. O ex é agora oficialmente meu cunhado, e ainda rimos dele nos almoços de domingo.”
Letícia Nunes, 31 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Melhor acompanhada
“Costumava dizer que não teria filhos. Imaginava uma vida independente, cheia de mudanças, sem parar nunca, experimentando sempre. Aos 15 anos, o plano ruiu – e eu ganhei a maior aventura de todas. A Jade nasceu 21 dias antes do vestibular e mamou em cima das apostilas. Passou comigo pela faculdade, pelas viagens, pelas mudanças de cidade atrás de trabalho. Sobrevivi, crescemos, e juntas ainda desbravaremos muitos mundos.”
Jaqueline Li, 26 anos, São Paulo (SP)
Segunda chance
“Em 1993, minha turma de engenharia completou 20 anos, e havia uma festa. Eu não queria ver ninguém: recém-separado, chegara aos 40 sem filhos nem emprego fixo, morando com meus pais. Mas precisava fazer contatos. Fui e fiquei de canto. Até que a Maria Eugênia, a única garota da turma, veio conversar. Linda e inatingível como sempre, achei que iria enumerar seus feitos. Não: ela disse que o tempo a assustava. Era o que eu sentia. A conversa durou horas e continua até hoje. Pela paixão, retomei a vida: passei num concurso, nos casamos, virei pai. No encontro de 40 anos da turma, espero que ela continue a me entender – e que se orgulhe do homem que me tornei por sua causa.”
Antônio Stumpf, 60 anos, São Leopoldo (RS)
Inspiração aguda
“Há um ano, minha carreira de atriz estava empacada e recebi um convite para ser hostess – aquela pessoa que fica na entrada barrando quem está malvestido – de um restaurante chique. Parecia moleza e, quem sabe, uma chance de mudar minha sorte. Me enganei quanto ao trabalho. Tinha de ficar das 7h às 16h na porta, sem sentar nem tomar água, usando uma roupa dourada ridícula. Foram cinco meses de sofrimento... que me inspiraram a criar a peça Meu Ouvido Não É Penico. Nela, faço a Joceleyne, uma hostess que vive o que eu penei. O teatro lotou na estreia.”
Alessandra Cifali, 30 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Melhor que a encomenda
“Estava casada havia sete anos e, apesar de todas as tentativas, os médicos diziam que não tinha nada no sistema solar que pudesse me fazer engravidar. Meu sofrimento convenceu meu marido, que era contra, a adotar. O dia em que o Ricardo chegou, há 32 anos, foi o mais feliz da minha vida. Seis meses depois, não sei como, engravidei do Ronaldo. Só faltava uma menina, e resolvemos adotar. No dia em que soube que a garotinha que me fora prometida não seria minha, passei mal. Estava grávida. E nasceu a minha Roberta.”
Maura Silva Pires, 60 anos, Praia Grande (SP)
Na melhor companhia
“Ia ser a viagem da nossa vida. Eu, com 21 anos, mais quatro amigas durante quinze dias pelo Nordeste. Mas na primeira semana choveu, e as meninas resolveram voltar. Eu acabara de me formar, estava sem trabalho e não tinha pressa. Mesmo sozinha, apostei. O sol reapareceu enquanto eu ia de Porto Seguro a Jericoacoara, de carona e ônibus. Conheci várias turmas, fiquei em albergues e a viagem durou dois meses. Aprendi a me virar e descobri que sou uma ótima companhia. Para mim mesma.”
Vanessa Biajoti, 37 anos, São Paulo (SP)
Obrigada pelo cano
“Combinei com minha amiga um encontro duplo: ela iria com o namorado e eu, com o Roberto, um cara de quem eu gostava. Na hora H, meu par furou. Em seu lugar, apareceu o Marcos. Odiei. Não bastasse a decepção, ainda vinha esse desconhecido se meter. Apesar da minha antipatia, ele insistiu. Dias depois, foi me buscar no colégio. Aos poucos, fui gostando daquele menino bonito. Dois anos depois, nos casamos e tivemos uma filha. Ainda bem que o Roberto não apareceu.”
Terezinha Mariano, 53 anos, São Paulo (SP)
Juntando as peças
“Comecei a fazer teatro na oitava série e logo descobri que era minha vocação. No vestibular, porém, meu pai exigiu que eu passasse de primeira, e resolvi fazer matemática, mais fácil de passar. Enquanto avançava nos números, continuei fazendo peças e me formei sem saber qual carreira seguir. Foi um professor quem sugeriu o mestrado em educação. Lá aprendi que podia ter o melhor dos dois mundos. De ator, virei professor de matemática e faço da sala um palco para os números.”
Marcos Antonio Gonçalves Junior, 28 anos, Goiânia (GO)
Mais que uma mãe
“Tinha 14 anos quando minha irmã Simone nasceu. Ajudei no parto, feito em casa, e algo mudou em mim. Hoje sei que foi o instante em que me tornei mãe. Cuidei da Simone desde então, e quando minha mãe morreu, três anos depois, apenas continuei o trabalho. Moramos juntas e, mesmo ela tendo 36 anos, pergunto-lhe o que comeu e só pelo modo de entrar em casa já sei se está bem. Não planejei ser mãe, mas ela é minha filha.”
Solange Bortolotto, 50 anos, São Paulo (SP)
Vocação verdadeira
“Tinha uns 8 anos quando disse que queria ser padre. Entrei no Noviciado dos Jesuítas jovem. Apesar da certeza da escolha, não conseguia dormir, ficava deprimido. Os padres me alertavam de que podia ser sinal de que meu caminho era outro. Mas insisti. Foi na faculdade de sociologia, já ordenado sacerdote, que descobri que eles tinham razão. Lá conheci Suzana. Avisei-a de que era padre. Mas ela não me deu ouvidos e diz que, assim que me viu, soube: ‘é este’. Sete meses depois, consegui a dispensa do papa e dos jesuítas e nos casamos. Estamos juntos há 39 anos.”
João Lupi, 71 anos, Florianópolis (SC)
Bom é sonhar
“Meu sonho era ser uma patinadora como as dos filmes, com roupas de brilhos, que correm dançando e dão pulos. Ganhei um par de patins no Natal e achei que ia sair deslizando. Mas dei um passo e caí. Foi engraçado, mas continuei caindo e perdeu a graça. Chorei de raiva e quis devolver o presente. Eu não era uma patinadora. Mas todo mundo insistiu, então continuei tentando. Fiz aulas e aprendi até a andar de costas. Daí vi que nem era tão legal assim. Agora quero ser cozinheira, mas também dá mais trabalho do que eu pensava.”
Gabriela Ropelato, 9 anos, São Paulo (SP)
Não mudaria nada
“Estava com 18 anos e trabalhava de madrugada em uma fábrica. Havia uma semana, eu tinha comprado uma moto – meu maior sonho na época – e voltava para casa quando um caminhão de lixo cortou minha frente. Na batida, minha perna direita foi amputada. Passei dois meses achando que a vida tinha acabado. Quando chegou o dinheiro do seguro, sem outras perspectivas, resolvi pagar uma faculdade de computação. Nem me formei e já estou no segundo emprego. Hoje sou mais paciente, me permito depender das pessoas e vi que dá para superar obstáculos. Minha perna é mecânica, mas sou mais feliz do que antes. Se pudesse voltar no tempo, não desviaria do caminhão.”
José Maicon Bueno, 22 anos, Joinville (SC)
Romance zero
“Eu imaginava ser pedida em casamento em uma viagem ou num jantar romântico, só eu e o Marcelo. No aniversário do nosso primeiro beijo, estávamos na casa de um amigo, e os meninos resolveram brincar de telefone sem fio. Não bastasse a brincadeira nada a ver, na vez de o meu namorado passar a mensagem, ele sussurrou no meu ouvido: ‘Quer casar comigo?’, ali, na frente de todo mundo. Morri de vergonha e fiquei muda uns cinco minutos. Mas tá. Apesar de não ter sido como eu queria, foi lindo do jeito dele. Vamos nos casar no dia 5 de dezembro.”
Fernanda Vidal, 23 anos, São Paulo (SP)

Não estava nos livros
“Há alguns anos, logo que acabei o mestrado, apostei todas as fichas no doutorado. Mas não passei na seleção. Fiquei arrasado e resolvi largar tudo por um tempo.Com dinheiro emprestado, eu vivi um ano mochilando na Europa. Fiz coisas incríveis, como produzir a turnê de uma orquestra brasileira, ganhei intimidade com outros idiomas e descobri que havia muito o que aprender mesmo longe dos livros.”
Marcelo Téo, 31 anos, São Paulo (SP)
Bastou um fim de semana
“Só aceitei que a Camila fosse conosco pra praia porque a Simone – essa, sim, minha amiga – pediu muito. A Camila era da escola das patricinhas, uma chata por tabela. Mas ficaríamos sozinhas no apartamento, então nem a mala seria capaz de arruinar o fim de semana. Foi dar uma chance... e ainda tenho as fotos da viagem: nós três nos divertindo um monte. Eu e a Camila nos tornamos inseparáveis. Ela passou a me arrastar para shows vergonhosos com as ‘patis’, enquanto eu a obrigava a ouvir meus rocks antigos. Onze anos depois, não sabemos bem o porquê, nos amamos.”
Thanara Pruner da Silva, 26 anos, Curitiba (PR)
In memoriam
“Esta história é do meu pai. Ele passou a vida trabalhando. Não tinha tempo para brincar nem ser carinhoso. Aos 70 anos, viúvo, descobriu um câncer. Só fez uma pergunta ao médico: ‘Quanto tempo?’ Oito meses. No dia seguinte, avisou: ‘Estou indo viajar’. Foi ao Nordeste, à Amazônia, à Europa. Da sua Itália natal, mandou um cartão: ‘Meus filhos, planejei minha vida inteira, e nos meus planos eu teria tempo, um dia, para viver. Agora que meu plano deu errado, a única coisa que tenho a perder é tempo. Perdoem-me, se puderem, pela ausência. Se lhes consola, saibam que este câncer imprevisto, ao contrário do que lhes possa parecer, salvou minha vida. Estou feliz e vou-me em paz’. Semanas depois ele morreu, e a lição nesse postal é minha maior herança.”
Virginia Mancini, 42 anos, Jaraguá do Sul (SC)


















































