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Não tem preço

Quem disse que voluntário trabalha de graça? As histórias de pessoas que doam seu tempo para melhorar a vida dos outros provam que o prazer de ser útil é uma recompensa e tanto
Texto: Larissa Soriano // Ilustração: Mariana Coan e Renato Faccini
Não tem preço
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Foi correndo na esteira da academia que Danielle Bertolini, hoje com 34 anos, teve o estalo: com o que ela aprendera na faculdade de medicina era possível salvar vidas. E não só das pessoas com condições de marcar hora nos hospitais e nas clínicas em que ela trabalhava, mas também de outras muito mais necessitadas. Gente que ela jamais conheceria se não tomasse a iniciativa de procurá-las. Poderia ser um pensamento passageiro, esquecido tão logo o exercício acabasse. O comum seria encarar essa iniciativa como algo muito trabalhoso, ainda mais para resolver um problema alheio ao qual seria tão fácil fechar os olhos.

Mas Danielle levou a ideia adiante. Bolou um plano e convidou o então namorado, Carlos Alberto Maknavicius, atual marido, também médico, a enfrentar a empreitada. Ele topou. Durante um ano, a dupla se preparou para a aventura. Compraram um jipe e, em 2007, caíram na estrada. No decorrer de um ano e meio, visitaram as 47 cidades brasileiras com a pior qualidade de vida, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Levaram atenção, orientação e medicamentos a comunidades sem a mínima infraestrutura de saúde pública. Em abril deste ano, voltaram a São Paulo. Exaustos, mas felizes como nunca.

Seja dedicando a vida a uma causa, doando só algumas
horas por mês ou agregando momentos únicos a uma
viagem, o voluntariado gera relatos apaixonados 


Danielle e Carlos Alberto não têm dúvidas de quanto contribuíram para cada pessoa que atenderam, mas também sabem como a experiência foi engrandecedora na vida deles. “Muita gente não tinha nem água potável. Eram pessoas tão simples e, ao mesmo tempo, tinham um equilíbrio e uma alegria que não se acham facilmente por aí”, conta Danielle, lembrando uma das várias lições que trouxe na mala. Agora radicados em Fernandópolis (SP), eles não pretendem abandonar a ajuda gratuita a quem mais precisa. “Vamos trabalhar com as comunidades carentes daqui. Sei que somos só dois médicos, com inúmeras limitações, mas sinto que fazemos a diferença.”

O casal faz parte dos 19,7 milhões de brasileiros que rea­lizam trabalho voluntário, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Se esse tipo de ação fosse tão praticada quanto admirada, o número seria muito maior: de acordo com pesquisa de 2001 do instituto Datafolha, 83% dos entrevistados consideram a iniciativa muito importante para o Brasil, mas 73% nunca prestaram nenhum tipo de serviço voluntário. Entre os que se dedicam, a média de tempo doado por mês é de seis horas. Mas tem gente que ultrapassa muito esse limite, transformando a vida por uma causa, sem nenhum retorno financeiro.

Ficou com o mico


É o caso de Cláudio Pádua, de 60 anos. Aos 30 e poucos, ele era diretor executivo de uma empresa farmacêutica no Rio de Janeiro, morava em uma cobertura e andava de carro esportivo do ano. Então resolveu largar tudo e se dedicar à paixão que o fisgara ainda na infância, quando adorava brincar na fazenda do avô: a preservação da natureza. “Foi uma missão do coração. Só racionalizei depois”, conta. Casado, pai de três filhos, viu o padrão de vida da família cair consideravelmente, mas seguiu em frente. Formou-se em Biologia, especializou-se em espécies ameaçadas de extinção e mudou-se para o interior de São Paulo, a fim de estudar o mico-leão-preto.

Em 1992, ao lado da mulher, Suzana, Cláudio fundou o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), ONG voltada para o estudo de espécies ameaçadas, a educação ambiental, a restauração de habitats e o desenvolvimento sustentável. Sua atuação na instituição é totalmente voluntária. O sustento vem da carreira acadêmica – ele é professor aposentado da Universidade de Brasília, onde lecionou de 1994 a 2004, e reitor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (Escas). Sua dedicação tem reconhecimento internacional: em 2003, ele e Suzana foram considerados Heróis do Planeta pela revista norte-americana Time, por sua luta pela conservação da biodiversidade. “Sabe quando você se incomoda com algo e chega a um ponto em que ou se entrega de verdade ou nunca mais muda? Eu, felizmente, me entreguei”, afirma.

Espacinho na agenda

Ao contrário do que a história de Cláudio pode sugerir, não é preciso causar uma revolução na própria vida para embarcar no voluntariado. Carolina Galdino, de 58 anos, é um exemplo. Há quase duas décadas, depois de ver o pai morrer vítima de câncer, ela encontrou espaço em sua rotina de advogada e mãe para se dedicar a pacientes com a mesma doença. Toda semana, passa de três a cinco horas na Rede de Combate ao Câncer de Adamantina, no interior de São Paulo, um centro médico que realiza exames preventivos gratuitos e oferece assistência social a pacientes com câncer e a seus familiares.

Ela faz de tudo um pouco: já foi de ajudante de cozinha a presidente da rede, visita os pacientes, organiza e divulga eventos para arrecadar dinheiro e entra em contato com os médicos de Jaú, para onde as pessoas são encaminhadas em caso de diagnóstico positivo. Já nos primeiros dias de voluntária, Carolina percebeu a importância do seu gesto: “Dava pra ver no rosto dos pacientes que eles estavam com muita dor, mas mesmo assim eles sorriam para mim, agradecendo a visita”. Ao mesmo tempo, ela se abastece da força das pessoas a quem ajuda. “Com cada um dos pacientes eu aprendi a não desistir diante dos problemas e a valorizar ainda mais a vida.”

Bem-aventurado

Além de lições, o voluntariado também pode vir acompanhado de aventura e diversão. Que o diga o fotógrafo Pedro Borges, de 24 anos, de Tatuí (SP). Em 2007, ele decidiu que era hora de fazer sua tão sonhada viagem ao continente africano. E escolheu um tipo de pacote que tem cada vez mais chamado a atenção de jovens brasileiros: o intercâmbio cultural com trabalho voluntário. Mais de 10% das viagens atualmente vendidas pela Associação Brasileira de Intercâmbio Cultural já são desse tipo.

Durante seis meses, Pedro atuou como monitor numa escola para deficientes físicos e mentais no Quênia. “Tive de aprender a ter paciência para lidar com os alunos e desfiz alguns preconceitos que tinha em relação à África”, conta. Como turista, ele também aproveitou ao máximo: foi à praia, fez um safári, visitou uma tribo Masai e passeou pela capital do país, Nairóbi, com amigos europeus, também voluntários, que conheceu durante a viagem. “Passei por lugares fascinantes. Vi um lago cheio de flamingos e praias lindas. Pretendo voltar. E de novo como voluntário”, garante.

Recompensa natural

O prazer em ajudar outras pessoas sem exigir nenhuma remuneração em troca tem explicação biológica. Um estudo comandado pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll Neto, publicado em 2006, mostra que, quando fazemos uma boa ação, é acionado em nosso cérebro o sistema de recompensa, o mesmo dispositivo ligado à satisfação de comer um chocolate, fazer sexo ou ganhar dinheiro, por exemplo.

Denise de Souza, de 84 anos, fez essa descoberta em um delicado momento da vida. A dona de casa carioca já era viúva e se dividia entre as casas dos três filhos quando se inscreveu na Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI), para espantar o tédio fazendo cursos sobre história da arte e pintura. Lá, ela foi convidada a participar do Projeto Idoso Companheiro, que leva idosos a trabalhar como voluntários em asilos. Há 12 anos, ela vai semanalmente ao Lar Sylvia Penteado Antunes visitar seus “amiguinhos”, como ela os chama carinhosamente. “Invento histórias, brinco, adapto exercícios de ioga e crio jogos de perguntas e respostas para eles exercitarem a memória”, conta.

Animada, ela solta uma gargalhada a cada frase. “Eu passo experiências para outras pessoas e também me animo, exercito minha própria criatividade. Não sou nenhuma mocinha, mas, enquanto eu puder, continuo a ajudar”, diz. Com humildade, Denise mostra que aprendeu uma das características essenciais da prática voluntária: a importância de pequenos gestos. “Minha atuação é limitada. Mas as pessoas podem se inspirar e fazer igual. Assim a coisa vai crescendo, até que atinge a cidade, o país, o mundo inteiro”.
 

Dê um passo à frente

Animou-se com a ideia de fazer trabalho voluntário, mas não sabe por onde começar? Confira algumas dicas

Um bom caminho é procurar os Centros de Voluntariado. Eles são especializados em encontrar o tipo de associação que precisa de alguém exatamente com seu perfil. Veja aqui o endereço do centro mais próximo de sua casa: www.voluntariado.org.br/voluntariado_brasil/busca_brasil.htm

Outro site interessante é o portaldovoluntario.org.br. Inscreva-se na rede social disponível na página e entre em contato com voluntários de todo o Brasil.

Se sua intenção é doar seu tempo durante uma viagem de intercâmbio, procure agências especializadas. O site da Associação Brasileira de Intercâmbio Cultural pode ajudar: www.abic.org.br

Além disso, você pode procurar instituições, escolas e grupos comunitários próximos à sua casa ou ao lugar onde você trabalha. Sentir-se útil na própria comunidade é um dos grandes prazeres que o voluntariado tem a oferecer.


 

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