Droga Raia

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No braço

O bíceps é símbolo de força. A mão, de precisão. Potentes e delicados, nossos braços são ferramentas perfeitar para desbravar a graça dos mais variados esportes
Texto: Larissa Soriano // Fotos: Renato Pizzuto e Marcela Chaves
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No início, eram nadadeiras. Foi a maneira que a natureza arranjou para que os primeiros seres vivos complexos a habitar o planeta pudessem se locomover. Quando esses nossos ancestrais saíram dos oceanos em direção à terra seca, seus membros se transformaram em patas, próprias para suportar o peso do corpo sobre o solo. Dependendo dos inúmeros ambientes e necessidades, elas passaram a adquirir as mais variadas formas. Nós, seres humanos, fomos premiados com duas estruturas formadas cada uma por 32 ossos e 41 músculos. Um presente sob medida para realizarmos uma infinidade de movimentos fundamentais à nossa sobrevivência.

Foram necessários 500 milhões de anos de evolução para que dispuséssemos das ferramentas perfeitas que são nossos braços. Sem eles, fica difícil imaginar como teríamos construído a tecnologia, a ciência e a arte que caracterizam nossa espécie. Mas não só isso. Pelo simples prazer de exercitar a versatilidade de nossos membros superiores, criamos uma série de esportes que se baseiam essencialmente na exploração do incrível potencial dessas partes do nosso corpo. Na sua capacidade de arremessar, rebater, puxar, empurrar, impulsionar, arrastar, abaixar, levantar... Tudo isso para buscar o limite da força e da precisão. Para descobrir, no braço, a paixão pelo movimento.

Poesia a distância

Corridas rasas, com obstáculos, com barreiras. Salto em distância, em altura, com vara, triplo. Lançamento de dardo, martelo, disco, peso. São muitas as variedades do atletismo. Quando Lucas Ivan da Silva, de 21 anos, começou a treinar, em Paranavaí (PR), por influência do irmão mais velho, pôde experimentar várias delas. O lançamento de dardo não era a modalidade em que se saía melhor. Mas foi a que ele escolheu para se dedicar com exclusividade. “É a prova mais bonita. O atleta tem de correr até a marca, parar bruscamente e lançar o dardo da forma certa, para que ele atinja a maior distância possível. Exige coordenação dos músculos dos braços e das pernas, técnica e concentração”, explica, empolgado. O que conquistou o garoto foi a plasticidade do esporte, mas seria uma birra de adolescência que o impulsionaria ao primeiro grande título internacional. Começou quando, numa competição, o treinador tirou Lucas do time e o substituiu por um dos melhores amigos do rapaz, Eduardo Alexandrino. Bastou para que os dois travassem uma disputa particular. “Continuamos bons companheiros, mas sempre treinando forte para um superar o outro”, conta. Assim, os dois conseguiram as melhores marcas da escola, da cidade... Até que, em 2009, foram representar o Brasil no Campeonato Sul-Americano na Colômbia. Aí Lucas levou a melhor, ganhando o primeiro lugar. Há dois anos, o campeão se mudou para São Paulo a convite da Federação Paulista de Atletismo. Treina sete vezes por semana e faz faculdade de educação física. Sua melhor marca é de 70,27 metros. E ele sabe bem até onde quer chegar: “Nos 80 metros, que é o recorde adulto brasileiro”.





Melhor que a ficção


O adversário é uma montanha de músculos. Mas Sylvester Stallone vira o boné para trás, sente-se forte como um caminhão e vence o desafio. Desde quando o clássico da sessão da tarde Falcão – O Campeão dos Campeões estreou nos cinemas, no fim dos anos 1980, muitas crianças sonharam em se tornar craques da queda de braço. Uma delas chegou lá. E sua história também daria um filme. Aos 22 anos, Valdomiro de Souza, de Hortolândia (SP), foi assistir, por curiosidade, ao campeonato paulista de luta de braço – como o esporte é chamado pelos profissionais. Da plateia, seus músculos chamaram a atenção do técnico de uma das equipes. Convidado a participar, Valdomiro aceitou. Guiou até a mesa de disputa a cadeira de rodas que o acompanha desde os 3 anos de idade – quando uma poliomielite o deixou paraplégico – e, mesmo sem nunca ter disputado a modalidade profissionalmente, ficou em terceiro lugar. “Eu brincava de braço de ferro desde a infância, quando disputava com meu avô, mas nunca pensei que pudesse ser campeão”, diz. Hoje, tem cinco troféus mundiais. Em 1997, na Índia, venceu na categoria para portadores de deficiência. Em 1998, no Canadá, repetiu o feito e ainda levou outro caneco: o da categoria para não deficientes. Mas como o esporte ainda é pouco valorizado, Valdomiro nunca pôde se dedicar exclusivamente a ele, sustentando-se como técnico em eletrônica. Em 2002, ficou desempregado e teve de vender bala nas ruas. Entrou em depressão, parou de competir. Mas se recuperou, e dois anos depois, aqui no Brasil, repetiu o pódio duplo que havia conquistado no Canadá. Hoje, aos 38 anos, seu sonho é que o esporte seja reconhecido pelo Comitê Paraolímpico Internacional: “Quero representar nosso país em 2016 nos Jogos do Rio de Janeiro”.


 



Para o alto e avante

A mão vasculha a rocha em busca de uma fenda em que possa se apoiar. Os músculos dos braços se comprimem, as pernas avançam em sincronia, e o topo fica cada vez mais próximo. Cordas, grampos, mosquetões e diversos outros equipamentos garantem a segurança, mas é impossível esquecer que o chão está a centenas de metros. A jornalista Marina de Mello conhece bem essas sensações. Aos 72 anos, ela pratica escalada quase toda semana. Conheceu o esporte numa viagem aos Estados Unidos. Em 1998, começou a praticar em paredões artificiais, em academias. Dois anos depois, mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro e, desde então, desbrava as montanhas de pedra que estampam os cartões-postais cariocas. Para ter fôlego, força e confiança, ela faz musculação e aeróbica. E sabe que o segredo é não pisar em falso: “Não tento fazer o que só uma mocinha de 30 anos consegue. Vou no meu ritmo, respeitando meu corpo”, diz. Além de autoconhecimento, a atividade lhe trouxe muitos amigos e um grande amor. Foi entre uma escalada e outra que ela conheceu o experiente montanhista Joffre Telles, com quem se casou em 2002. Para comemorar seus 70 anos, Marina desafiou o famoso Pão de Açúcar. Foram 270 metros de rocha vertical, cumpridos em 12 horas. “Quando cheguei lá em cima, no fim da tarde, via, de um lado, a floresta, do outro, a cidade e o mar, junto com um pôr do sol indescritível. Nessas horas, eu me sinto em conexão com o meu corpo e familiar com a natureza. É uma experiência divina.”
 

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