Droga Raia

Twitter Facebook Flickr Orkut Delicious RSS
dê uma nota para esta matéria:
Participe:

movimentar

No meio da pista

O trânsito e a violência tornam a tarefa difícil, mas não impossível: veja como é divertido manter o corpo em forma redescobrindo as brincadeiras de rua
Texto: Chico Spagnolo // Foto: Gabriel Rinaldi
AumentarDiminuir

Elas podem ser de terra, de pedra, de asfalto. Algumas se mantêm na medida para uma charrete passar, e nada mais. Outras são tão largas que exigem dois faróis para nos permitir atravessá-las. Tem as iluminadas, as escuras, as planas, as íngremes, as apinhadas de gente, as abandonadas, as arborizadas, as áridas, as de traçados caóticos, as cartesianas... Seja como for, as ruas estão por toda a cidade. Viabilizando, dia e noite, nosso sagrado direito de ir e vir.

Não faz muito, elas eram também um lugar para se ficar. O meio do caminho entre a nossa casa e a do vizinho, um ponto de encontro, quintal coletivo. Ideal para serem transformadas, temporariamente, em quadra de esportes, aeroporto de pipa, feira livre de limonada ou o que a imaginação da garotada do quarteirão permitisse.

Essas crianças viraram adultos, viram os centros urbanos se expandir, ser tomados por carros e, muitas vezes, pelo medo da violência. Mas algumas não desistiram das brincadeiras de rua. Se não dá para ser na via em frente de casa, busca-se uma alternativa: o campus da faculdade, uma praça, um parque, um camping. A graça é ocupar os espaços, permitir-se ser feliz. Nós crescemos, as cidades também, mas isso não nos impede de continuar nos divertindo juntos.
 

 

Ana, Ana, Ana Sella, do Brasil!

Um dos centros econômicos mais emblemáticos do país, a Avenida Paulista, em São Paulo, oferece inúmeras opções de lazer: cinemas, parques, museus, centros culturais, shopping centers... Para uma criança que gosta de brincar na rua, porém, está longe de ser o lugar mais adequado do mundo. Que o diga Ana Sella, de 21 anos, moradora da região desde a infância. Quando era pequena, ela contava os dias para trocar o trânsito intenso da metrópole pelas férias no litoral. Nem tanto pelo mar em si, mas pela possibilidade de se divertir com o irmão empinando pipa, brincando de pega-pega e, especialmente, andando de carrinho de rolimã. O tempo passou, mas a vontade de brincar, não. “Logo quando entrei no curso de Geociências e Educação Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), em 2007, fiquei sabendo do Grande Prêmio de carrinho de rolimã que acontecia no campus. Achei interessante e sugeri ao meu irmão que participássemos”, conta. No ano seguinte, os dois fizeram a inscrição. O irmão, Sergio Ricardo, de 24 anos, ficou responsável por montar o carrinho; ela, por pilotar. A dupla já soma cinco participações no GP, que é organizado duas vezes ao ano, desde 1982, pelo centro acadêmico do curso de Engenharia Mecânica da USP. “Nosso melhor resultado foi na edição passada, quando cheguei em segundo lugar”, conta Ana. Com ou sem pódio, a diversão é garantida: “Volto para casa exausta, com alguns arranhões a mais e muitas histórias pra contar”.

 

República do taco

Lançada, a bolinha zune em direção a Marcelo Veloso. Com as mãos firmes no bastão, ele calcula força e ângulo exatos para fazer a pelota se perder de vista. Prepara-se para cruzar os tacos e comemorar a vitória, quando... a bola acerta os cabos de eletricidade e cai fácil nas mãos do adversário. “Qual é a probabilidade de isso acontecer?”, pergunta-se, indignado. Em se tratando de um jogo tipicamente disputado por entre os obstáculos das vias urbanas, talvez não seja tão raro assim... Aos 23 anos, Marcelo anda empolgado com a pesquisa sobre reprodução de células-tronco por meio da luz que realiza na faculdade de Física Médica, em Botucatu (SP). Mas, sempre que tem uma folguinha, junta os amigos da república onde mora para reviver uma das brincadeiras da sua infância: o taco, ou “bets”. O jogo é disputado por duas duplas. Uma começa com os tacos; a outra, sem. Para conquistá-los, é preciso derrubar a “casinha” adversária: uma espécie de pirâmide feita de três pequenos bastões. Quem tem os tacos deve rebater a bola para o mais longe possível: quanto mais tempo o adversário demorar para pegá-la, mais pontos se faz. “Estávamos pedalando pela universidade e vimos umas crianças jogando. A nostalgia bateu, e decidimos fazer o mesmo”, lembra Marcelo. Para construir os tacos, usaram pedaços de móveis quebrados. As casinhas são garrafas plásticas. Mas logo eles devem se profissionalizar: “O filho do vizinho já disse que tem o equipamento completo para emprestar”, comemora.

 

Em busca do esconderijo perfeito

Quando era criança, Daniel não via a hora de a luz acabar para que seu pai se escondesse e reaparecesse inesperadamente, assustando a todos. Hoje, com 31 anos, o jornalista dá continuidade à diversão em família brincando com sua filha, Beatriz, de 7 anos. Um dos passatempos favoritos da dupla é o esconde-esconde. É assim desde quando Beatriz mal sabia falar – mas já conhecia o prazer de ser procurada e também de encontrar o parceiro de estripulias. Morando numa região movimentada de São Paulo, fica difícil brincar na rua. Mas, quando viajam para um local mais tranquilo, como o camping que costumam frequentar em Pirapora do Bom Jesus (SP), a diversão é ao ar livre. Seja onde for, a menina está sempre à procura do esconderijo perfeito. Quando encontra, pobre do pai... Foi assim certa vez na casa dos avós de Beatriz. Daniel estava a tanto tempo procurando a filha que foi obrigado a entregar os pontos. A avó, que acompanhava a brincadeira, deu a dica, e lá foi ele para o porão. Atrás de uma caixa, adivinha quem ele encontrou? Os dois logo caíram na gargalhada. “Era o melhor esconderijo de todos. Eu nunca iria encontrá-la sem a pista”, confessa Daniel. Para ele, a infância não precisa sumir à medida que a idade vai chegando: “É um barato reviver essas brincadeiras”, conta. “E nem tem essa de facilitar as coisas para a Bia, por ela ser criança. Vencê-la no esconde-esconde é sempre um desafio.”

dê uma nota para esta matéria:
Participe:
Comentários:
adorei essa revista é muito legal tenhotodas!!!
laura
Envie seu comentário:
Nome (preenchimento obrigatório)
E-mail (preenchimento obrigatório, mas não será publicado)
Website
Realização:
Patrocínio:
Instituições beneficiadas:
Medley P&G Kimberly-Clark Reckitt Benckiser EMS
EDITORA MOL Rua Andrade Fernandes, 303, sala 3, Alto de Pinheiros, São Paulo / SP | Email: contato@revistasorria.com.br | Telefone: (11) 3024-2444
2009 - 2010 Editora Mol. Todos os direitos reservados