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Nossas raízes, nossos frutos

A família mudou. Hoje, os modelos vão muito além do tradicional pai-mãe-e-filhos. Mas não significa que a mais básica unidade social esteja em crise. Adaptada ao nosso tempo, ela continua sendo nossa origem e nosso destino
Texto: Dilson Branco e Simone Cunha // Ilustração: Mariana Coan // foto: Daniela Toviansky
Nossas raízes, nossos frutos
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Desde aquele dia no orfanato, quando as duas se conheceram, haviam se passado menos de quatro meses. A garotinha Luiza, então com 4 anos, ia sentada no banco de trás do carro. Thereza, aos 36, dirigia. Em silêncio, as duas lembravam da cena ocorrida semanas antes, naquele mesmo carro, naquele mesmo quarteirão, quando Luiza dissera: “Eu sei que você quer que eu te chame de mãe, mas não vou, porque mãe é uma coisa muito ruim”. Se naquela vez Thereza havia ficado com o coração apertado, agora viveria o momento mais importante da vida. Luiza mais uma vez tocou no assunto: “Tia, eu andei pensando bem, e você é muito legal. Agora vou te chamar de mãe”. Thereza parou o carro, abraçou e beijou a nova filha. Naquele intante, nascia uma família.

Faz algumas décadas que as famílias se distanciam do modelo básico formado por pai e mãe casados, com filhos em escadinha. Hoje não é preciso haver casamento, filhos, laços de sangue, parceiros heterossexuais, relações conjugais nem uma só casa. “Desde a década de 1960, a gente vê o conceito tradicional de família se transformando. E isso se deve às reviravoltas da própria sociedade”, afirma a antropóloga Clarice Peixoto. Variações como essas são comuns no decorrer da história. Cada local, cada tempo, cada cultura tem a sua – ou as suas – definição de família. “As famílias tupis, por exemplo, nada têm a ver com as de uma nação africana, que não se parecem com as famílias portuguesas do século XVII, que são diferentes das brasileiras do século XX”, relata a historiadora Mary Del Priore. No Brasil dos anos 2000, as famílias estão se reinventando.

Como um mosaico


Quando se casou com Lucille, em 1953, o empresário mineiro Carlos Cavalcanti formou uma família nos moldes típicos da época: pai, mãe e muitos filhos. Hoje, porém, não é tão simples explicar quem é quem no clã reunido para o almoço de domingo – e não é só pela enorme quantidade de genros, noras e netos que surgiram no decorrer desses 55 anos. É que, de lá para cá, os Cavalcanti também viveram muitas novidades experimentadas, de mo­do geral, pelas famílias brasileiras.

O século passado foi marcado por grandes transformações sociais. A partir dos anos 1930, a urbanização e a industrialização ampliaram os espaços de convivência entre os jovens, diminuindo o poder da Igreja e dos pais na escolha dos cônjuges dos filhos. Os anos 1970 aceleraram as mudanças com a entrada massiva da mulher no mercado de trabalho e com a chegada da pílula anticoncepcional, que fizeram com que os planos de ter filhos fossem adiados – e que o número deles diminuísse drasticamente. A aprovação da lei do divórcio, na mesma década, legitimou o segundo casamento, dando origem à formação das famílias-mosaico, com novas figuras como padrastos, enteados e meios-irmãos.

Os Cavalcanti passaram por tudo isso. Em 1976, à beira das bodas de prata, sete filhos crescidos, Carlos e Lucille se separaram. Dois anos depois, ele conheceu Regina, sua mulher até hoje, com quem teve mais duas crianças. Ah, e há outros dois filhos nessa árvore, frutos de outro relacionamento de Carlos. Ao todo, o patriarca dos Cavalcanti tem 11 filhos, 15 netos e um bisneto. É um grande mosaico, mas com uma característica que nem todas as famílias que se separam conseguem alcançar: a reconstrução harmoniosa.

Foi numa festa de Natal, no condomínio na Grande Belo Horizonte em que parte da família vive, que a união entre os dois grupos, o do primeiro e o do segundo casamento, foi selada. Até então, as comemorações eram separadas: uma na casa de Carlos, outra na de Lucille. Certo dia, a ex-mulher propôs: “Vamos juntar?”. E assim se fez. No tradicional amigo secreto, entre os quase 40 nomes nos pequenos papéis, foi o de Lucille, a ex, que Regina, a segunda mulher, tirou. As duas se aceitaram, e assim é até hoje. Muitas vezes, Regina e Carlos viajaram e deixaram os filhos na casa de Lucille. E os dois mais novos do primeiro casamento chegaram a morar com o pai e a madrasta. Para a filósofa e educadora Tania Zagury, esse é o melhor modelo de reconstrução familiar: “O ideal é que cada um aceite seu papel nas novas e velhas circunstâncias”, afirma.

No processo de refazer laços, sempre cabe mais um. Há dez anos, os Cavalcanti abraçaram um novo membro. Ibrahima Gaye, um estudante de 23 anos recém-chegado do Senegal, do outro lado do Atlântico, viera ao Brasil fazer intercâmbio e estava com dificuldades para se manter. Acabou conhecendo os Cavalcanti, que decidiram ajudá-lo bancando uma pensão. “Mas era uma pior que a outra”, lembra Regina, “então decidimos levá-lo para casa”. Ele morou com a grande família por quatro anos. Hoje, Ibrahima fala português, comanda um restaurante inspirado na sua África natal, é cônsul do Senegal em Belo Horizonte e mora no mesmo condomínio dos Cavalcanti. Apesar de não ter sido oficialmente adotado, é considerado da família. Ou, como diz Patrícia, filha de Lucille: “Ele não é considerado. Ele é da família!”.

“Para entrar nesta família tem apenas de chegar. Não temos fronteiras”, diz Carlos. O espírito agregador é herança de sua mãe, Lucila. Viúva aos 24 anos, a pernambucana se viu sozinha em Juiz de Fora, Minas Gerais, com dois filhos pequenos. Transformou em família os amigos do grupo de orações. “Todos a chamavam de mama”, lembra Carlos. Como ele, na hora de criar nosso núcleo, somos influenciados pela família que tivemos na juventude. “Seja repetindo o conhecido ou buscando o extremo oposto, a família é a base da nossa personalidade, e vamos conversar com o modelo que tivemos por toda a vida”, diz a psicanalista Gisele Groeninga.

Entre os Cavalcanti, a influência da família aparece no orgulho de pertencer ao clã. Marina, neta de Carlos, deu prova disso quando se casou. “Não poderia mudar meu sobrenome. O Cavalcanti me caracteriza. É como o nome científico de uma espécie de planta”, compara. Luan Buzelin, de 10 anos, é enteado de Antônio, filho de Carlos, e não tem Cavalcanti no nome. Não seja por isso: na escola, assina Luan Cavalcanti só porque acha bom pertencer à família. O vínculo entre todos é alimentado em grandes almoços de domingo, quando a casa de Carlos fica cheia. “É por meio da união que a gente se fortalece”, diz o patriarca.

Uma menina, dois endereços

Catarina, de 5 anos, não tem uma casa. Tem duas. Numa delas, não há hora pra dormir, a bagunça é bem-vinda e até palavrão pode falar. Na outra, existe uma rotina certa de horários e regras. É que Catarina mora uma semana com a mãe, a escritora Clarah Averbuck, 29 anos, e a seguinte com o pai, o empresário Marcelo Schenberg, 32 anos, em São Paulo. É assim desde que os dois se separaram. À maneira deles, com as regras e acordos que foram inventando, os três formam uma família: a família da Catarina.

Clarah e Marcelo são exemplo de um comportamento típico das famílias contemporâneas: pouca cerimônia para se formar – e também para se desfazer. Com três meses de namoro, Clarah se mudou para a casa de Marcelo. Logo estava grávida. Catarina mal havia começado a falar quando os dois se separaram. “Foi muito intenso, e não soubemos lidar com a situação”, conta Marcelo. Se tivessem se conhecido há 50 anos, provavelmente teriam de engolir a insatisfação, pela obrigação de preservar a família. Hoje, há opções. “A união entre os casais deixou de ser determinada por questões morais ou sociais e se tornou uma escolha”, explica a historiadora Mary del Priore. “Quando o amor deixa de existir, os laços também se desfazem.”

Quando se separaram, sem acordos formais, Clarah e Marcelo optaram pelo que é juridicamente chamado de guarda alternada, uma das atuais possibilidades da lei para casais divorciados com filhos. A legislação também teve de evoluir para acompanhar as mudanças sociais. “Antes, as mulheres ficavam sempre com a guarda porque não trabalhavam. Hoje, como conseqüência da revolução feminina e da reivindicação dos pais, que fazem questão de participar da criação dos filhos, pode-se dividir a guarda entre os dois”, explica Rodrigo da Cunha Pereira, advogado especialista em direito da família. Essa divisão de direitos e deveres também é característica dos jovens casais. Foi-se o tempo em que só a mãe trocava fraldas. Desde sempre, Clarah e Marcelo fazem de tudo: dão banho, preparam a comida, brincam. “Hoje, o que se discute não é a igualdade entre homens e mulheres, mas a complementaridade. Para a geração que tem entre 20 e 30 anos, não há tarefas exclusivas do pai ou da mãe. Eles vão de um papel a outro sem constrangimento”, afirma Mary del Priore.

As diferenças ficam por conta do estilo de cada um dos pais. “O Marcelo tem mais regras e eu sou mais bagunçada”, resume Clarah. Catarina já se acostumou. “Por incrível que pareça, ela não estranha as diferenças de criação”, diz Marcelo. Para a filósofa e educadora Tania Zagury, o arranjo alternado pode não ser a solução ideal, mas já é muito melhor do que o velho esquema pai-de-fim-de-semana. A psicanalista Gisele Groeninga concorda. “Em princípio, é bom que as crianças tenham um local contínuo. Mas elas se adaptam melhor do que a gente imagina.”

Thereza sempre sonhou adotar uma filha. Aos 36 anos, decidiu
que era a hora. Antes, porém, acabou o namoro
de quatro anos. Marido, para ela, nem pensar 

Apesar das divergências, pai e mãe não vivem às turras tentando convencer um ao outro de suas próprias convicções. É um acordo baseado na confiança: “Concordamos em discordar”, brinca Marcelo. “Temos visões diferentes do que é certo e errado para a Catarina. Mas respeitamos e compreendemos que cada um tem seus motivos e, do seu jeito, faz o melhor por ela”, explica. Para Clarah, as rotinas diferentes são uma experiência positiva para a filha. Já Marcelo acredita que só será possível avaliar isso no futuro. “O essencial é que a Catarina sente que os pais a amam muito e estão presentes. Esse amor nivela as coisas num patamar muito pacífico”, arremata Marcelo.
 

Três é demais

A jornalista Thereza Venturoli, de 50 anos, não precisa discutir com ninguém os rumos da educação da filha, Luiza, de 17 anos. É que Luiza não tem pai: ela foi adotada quando tinha 4 anos por uma mãe solteira por opção.

Desde criança, Thereza já sonhava adotar. E nunca se encantou com a idéia de se casar. Entre 22 e 25 anos, ela viveu um namoro que virou noivado, mas parou por aí. “Quando ia acertar a data no cartório, sempre mudava de idéia”, conta. Aos 32, teve outro relacionamento sério. Dessa vez, chegou a dividir o mesmo teto. Ele queria oficializar a união, ter filhos. Ela não. “Tenho pavor de me casar. Mas não sou contra o casamento. É uma incapacidade minha de dividir o espaço com alguém que foi criado de forma diferente, com outros hábitos. As experiências que tive não foram traumatizantes. Eu é que não queria. Adoro minha liberdade”, diz.

Com 36 anos, Thereza decidiu que era hora de colocar o velho plano em prática. Recém-separada, poderia ter optado por uma produção independente, mas preferiu seguir com a idéia da adoção. “Nunca quis amarração com outra pessoa”, justifica. Thereza deu preferência a meninas negras, entre 2 e 6 anos. “Queria menina porque sou menina, me parecia mais natural. Não podia ser bebê porque eu trabalhava o dia inteiro e morava sozinha. E preferi que fosse negra porque não tenho nenhum problema com negros, e em geral eles são mais prejudicados”, afirma.

Thereza é um exemplo extremo da liberdade de que as pessoas gozam na hora de formatar seu círculo familiar. “Hoje, mais do que nunca, você pode definir com quem quer morar, viver e se casar”, avalia a antropóloga Clarice Peixoto. Ao mesmo tempo, esse poder de seleção tem limites inerentes à natureza humana: por mais que sejam escolhas, um casamento, uma gravidez ou uma adoção sempre serão também apostas no incerto. “Os filhos não sabem de antemão como serão os pais, nem vice-versa. Mesmo em caso de adoção, porque não se escolhe a personalidade”, argumenta Tania Zagury. A família de Thereza segue algumas das tendências estatísticas de nossa sociedade. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de famílias lideradas por mulheres está crescendo. Em 1992, elas eram chefes de quatro em cada 100 lares. Hoje, de cada 100 famílias, 24 são lideradas por mulheres. Os casais sem filhos aumentaram 23% nos últimos dez anos, a quantidade de filhos por mulher diminuiu para menos de duas crianças, e os números mostram que o plano de ser mãe está sendo adiado para depois dos 35 anos.
Enquanto os dados demonstram, por um lado, o aumento do poder feminino no rumo da família, por outro, aponta que os núcleos já não são tão sólidos. Hoje, em 22% dos lares com filhos de até 16 anos mora apenas um dos pais. A última década assistiu a um número recorde de separações e, depois, de casamentos de pessoas divorciadas. O resultado é o aumento das famílias reconstituídas, já que cerca de 70% dos casais que se separam têm pelo menos um filho na bagagem.

Boa parte dessas tendências está relacionada à ética do individualismo na sociedade, tônica do nosso tempo. “Hoje em dia se dá mais importância às escolhas individuais. A hora de formar uma família, de casar ou de ter filho é escolha pessoal. Mas o individualismo não pode ser visto de forma negativa. É uma maneira contemporânea de criar laços sociais”, explica a antropóloga Clarice.

Thereza reconhece seu individualismo, mas argumenta que soube ceder para dar espaço a Luiza – parece que é sempre mais fácil abrir mão de escolhas e vontades pelos filhos do que por parceiros. Thereza conta o caso do tapete colocado em frente à escada de casa. Ela gosta que ele fique na diagonal, Luiza o prefere reto. Não tem discussão: a mãe arruma o tapete do seu jeito, a filha passa por lá e alinha-o do seu. Se fosse um marido, Thereza não agüentaria o pitaco na decoração. “Mas ela pode, ela é filha”, esclarece.

A falta de um pai não é vista como um problema por Luiza: “Não sei o que é pai, nunca tive um”, diz, com a naturalidade de quem não conhece para comparar ou pensar se faz falta. Nem por Thereza, exceto nas contas: “Se você tem alguém para dividir as despesas, dá mais segurança. Mas nunca quis dividir a educação. Quando preciso, converso com minha família, os amigos ou um psicólogo”. Para a psicologia, aliás, a falta de pai ou mãe ainda causa impactos na construção da identidade da criança. Mas a ausência masculina e de irmãos, como nos modelos tradicionais, não impediu Luiza de criar uma forte noção de família. Thereza conta que bastava ela falar um pouco mais alto com o avô de Luiza nos almoços de domingo para a menina ficar transtornada. “Não pode brigar desse jeito! Família é sagrada!”, interrompia filha.

Além de sagrada, família para Luiza tem a ver com amor, segurança e união. Para Thereza, é o lugar para onde sempre podemos voltar, mesmo depois de ter feito as piores coisas na vida. A psicanalista Gisele Groeninga diz que é onde encontramos as respostas para inquietantes perguntas como:  “de onde viemos?” e “para onde vamos?”. Para Clarice Peixoto, o significado depende de quem o indivíduo acha que é sua família: “Pode ser seu cachorro, se você vive só com ele”. Comum em muitas definições é a presença do afeto. “O melhor para a criança é ter afeto, não importa se com laços de sangue ou não. Aí qualquer modelo dá certo”, enfatiza Tania Zagury. Com tantos tipos de família, é quase impossível achar uma só definição. Mary Del Priore arrisca: “Apesar de todas as rupturas, de todas as transformações, o que permanece é a idéia de perpetuar uma cultura. Família é esse compromisso com o amanhã”.
 

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O tempo passa, a cultura muda, mas no fim do dia, quando chegamos em casa, o que conta mesmo é a família. Mesmo quando ela é apenas o seu cachorro de estimação e você.
Hermínio Braga
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