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A culpa é nossa

Se algo é público, é de todos. Mas isso também quer dizer que você – é, você mesmo – precisa assumir responsabilidade por ele
Texto: Jéssica Martineli // Ilustração: Niege Borges
A culpa é nossa
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São Paulo fazia mal para Sumaya Lima. Em poucas horas, com suas ruas sujas e congestionadas, a cidade enlouquecia a revisora de texto de 32 anos. Sozinha, fechada em seu carro e obrigada a atravessar dezenas de bairros para chegar ao trabalho, Sumaya se sentia como um animal encarcerado, prestes a se soltar e atacar o primeiro que encontrasse pela frente. Não tinha dúvidas: a cidade estava contra ela. “Estar imóvel dentro de um veículo começou a se tornar algo irritante, e violento. Via alguém estacionado em fila dupla e tinha vontade de bater na pessoa, de revolta”, diz.

Com medo de suas reações, ela decidiu, em um dia de 2009, deixar o automóvel na garagem. Usou o ônibus e os próprios pés para fazer o trajeto que, de carro, levaria três insuportáveis horas. No caminho, a cidade pareceu outra. “Eram centenas de veículos disputando espaço, e a maioria deles levava apenas o condutor. Vi aquilo como um grande absurdo, que eu ajudava a alimentar”, conta.

Foi quando Sumaya percebeu que fazia parte de São Paulo e que contribuía, todos os dias, para transformá-la no caos que enxergara. Decidiu vender o carro e comprou uma bicicleta, que virou seu principal meio de transporte. A ex-motorista começou a participar de fóruns e debates sobre educação no trânsito e passou a incentivar o uso da bike. “Não tinha mais vontade de morar em São Paulo. Agora, eu vejo que é possível torná-la mais bonita e simpática para as pessoas que vivem nela. Fico feliz de estar ajudando a reconstruir uma cidade voltada para cidadãos”, afirma.

Essa coisa pública

Reconciliando-se com as ruas com asquais costumava brigar, Sumaya percebeu que o espaço público é de responsabilidade de todos – e dela também. Países, cidades e bairros não estão contra nem a favor de seus moradores, mas são construídos por eles, o tempo todo. Foi durante a República Romana (de 509 a.C. a 27 a.C.) que essa ideia ganhou os contornos que chegaram até os nossos dias. No latim, república vem de res publica, que significa coisa pública – aquilo que é comum e de responsabilidade coletiva.

“O cidadão tem responsabilidades divididas com o Estado, tanto para a manutenção do que já existe, quanto para o desenvolvimento do seu futuro”, diz Roberto de Barros Freire Filho, professor de filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Não há coisa pior do que aquele que, acreditando que o que pode fazer é pouco, não faz nada, sem perceber que são as pequenas transformações que geram as grandes mudanças.” Quem se omite deixa de exercer a sua cidadania, que nada mais é que a disposição para discutir as questões públicas.

Foi querendo cumprir plenamente esse papel que um grupo de engenheiros, administradores, técnicos ambientais e professores se reuniu no município de Indaiatuba (SP), no ano passado. No início, eles queriam debater o desenvolvimento sustentável do lugar onde moram. Mas a ideia cresceu, e, no ano passado, o Mobilização Ambiental, Mobi, também começou a fazer “arrastões” de limpeza em parques, praças e ruas e a visitar as casas dos bairros em expansão perguntando aos moradores se eles não queriam plantar árvores por ali. “A cidade está crescendo, e queremos ter qualidade de vida. Vamos tentar manter o que depende da população”, diz Norma do Valle, participante do Mobi.

A professora de 61 anos se reúne toda semana com outros membros do grupo para debater os problemas e pensar alternativas para a cidade. Juntos, eles cobram ações da prefeitura e chamam parentes, amigos e quem mais aparecer para participar das mobilizações. “No ano passado, fizemos uma pesquisa sobre os bueiros da cidade. Encontramos muito lixo e tiramos fotos”, diz Norma. “Queríamos que, antes das chuvas, a prefeitura fizesse a limpeza das bocas de lobo para evitar enchentes.” E, mesmo que a cobrança seja em vão, eles não desistem. Discutir, reclamar e encher a paciência dos políticos também está no pacote do que é ser cidadão.

Entre direitos e deveres


Assim como nós, o Estado também tem responsabilidades. Delegamos a ele alguns deveres, como a administração das cidades, e compartilhamos sua manutenção e seu desenvolvimento. “Existem políticas sociais que são de responsabilidade do Estado, como educação, saúde e meio ambiente. Mas contribuímos para elas”, diz Lucília de Almeida, professora do departamento de história da Universidade de Brasília (UnB).

Essa dificuldade em sabermos onde começam e onde terminam nossos direitos e deveres – e qual nosso papel a cumprir nos lugares públicos – tem justificativas históricas. Desde a proclamação da República, em 1889, o Brasil vem passando por momentos em que a norma era ter o Estado no controle de tudo. Foi assim com a política dos governadores, com o coronelismo e nos períodos autoritários de ditadura. Ao cidadão brasileiro cabia esperar pelo que vinha dos governantes. “Por isso, temos a concepção de que tudo deve ser feito pelo Estado”, comenta Lucília.

Unir-se e conseguir negociar limites e responsabilidades faz parte do aprendizado para viver em espaços comuns. “Para mudar essa cultura é preciso ter uma formação para a política e a cidadania”, completa a professora. Olhar para o espaço de todos e se comportar como se ele fosse só seu faz tanto estrago quanto achar que ele não é de ninguém. E compartilhar responsabilidades significa, às vezes, abrir mão de interesses próprios.
 


Quem faz a cidade somos nós. Qualquer lugar pode ser melhor se todo mundo
se importar - e der aquela mãozinha


Fiscalizando a cidadania


Na vida de todo dia, isso significa fazer o melhor para o bem comum. Mas Berenice Rabello, de 61 anos, vai além. Ela cumpre seus deveres, exige seus direitos e ainda dá um puxão de orelha em quem não está nem aí para o espaço que é de todos. Berenice anda por São José dos Campos, no interior de São Paulo, com um talão de multa moral e distribui suas folhas quando vê algo errado. “A primeira premiada com a multa foi uma vizinha que ‘varre’ a rua e a calçada com água pela mangueira”, diz a professora aposentada. “Ela não gostou muito, mas leu.” Também já “multou” um carro estacionado em local proibido e está planejando a próxima penalidade. “Tem uma pessoa na minha rua que coloca o som no último volume”, conta.

Berenice conheceu essa ideia navegando pela internet, no site de um coletivo de moradores da Vila Madalena, na capital paulista, que decidiu criar um movimento em defesa do bairro. Foi ali que ela encontrou a Multa Moral, que está disponível para download (baixe o seu talão em: http://verd.in/4z8q) e dá a chance a qualquer pessoa de tornar-se um agente de punição para atitudes incorretas. No papel, fica impresso o recado bem-humorado para o infrator: “Prometa nunca mais fazer travessuras nas ruas de nosso bairro (ou de qualquer outro)”.

A brincadeira pode até não custar nada ao infrator, mas chama atenção para o problema, e foi por isso que despertou o interesse de Berenice. “Tem pessoas folgadas, que não percebem quando estão fazendo uma bobagem”, diz. “Não se dão conta de que, no futuro, elas mesmas serão prejudicadas, como no caso da água desperdiçada.” Mas, para agir assim, a professora procura antes dar o exemplo. Ela separa o lixo reciclado, usa sacolas plásticas retornáveis e paga seus impostos regularmente. Quando vê alguma coisa errada ao seu redor, não pensa duas vezes e escreve para o vereador do bairro cobrando solução. Com esse espírito de fiscal da cidadania, Berenice dá uma aula de respeito pelo que é comum a todos. “Se o espaço é público e nós o utilizamos, o mínimo que podemos fazer é zelar por ele. Afinal, é o lugar comum a nós todos. É como se fosse a continuidade de nossa casa.”

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