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O código da vida

Foi de repente. Barulho de fuzil, vidro quebrado, a dor terrível. Assim que fechou a porta do carro, em frente a seu prédio, o delegado Alexandre Neto ouviu os estampidos e encolheu-se no banco. Nove balas acertaram o para-brisa. Uma delas arrancou o dedo médio da sua mão direita. Era domingo, 2 de setembro de 2007. Naquele dia, Alexandre completava 30 anos de serviços para a Polícia Civil carioca. E tinha uma certeza: só estava sofrendo aquele atentado porque insistia em cumprir seu trabalho da maneira mais correta.
“O problema é que entrei na corporação para ser um bom profissional”, conta o ex-delegado, de 51 anos, hoje secretário de Segurança Pública da cidade de Maricá, na região dos lagos do Rio de Janeiro. “Afinal, se eu não puder seguir o caminho certo, da justiça, é melhor fazer qualquer outra coisa.”
Com dois policiais na família, desde pequeno Alexandre sonhava seguir o mesmo caminho. O avô materno, que havia sido carabinieri (tradicional força policial italiana), manteve o ofício ao emigrar para o Brasil. E o deixou como herança a um de seus filhos, que se tornou um dos primeiros responsáveis pela delegacia de entorpecentes do Rio e serviu de grande referência para Alexandre. Encantado com a profissão do tio e com a retidão de seu trabalho, o jovem fez faculdade de direito e, quatro anos depois, passou no concurso para a Polícia Civil. Trabalhou como analista, detetive e passou pela coordenadoria da capital, até se tornar delegado adjunto da divisão antissequestros. Foi então que seu trabalho ganhou maior destaque.
“Quando percebi como as coisas realmente funcionavam na polícia, foi um choque. Para mim, ser correto não é qualidade, é obrigação. Mas tem gente que aceita vender qualquer coisa para se dar bem. Decidi não aderir a esse esquema, porque quero encontrar sentido no que faço. Afinal de contas, o trabalho que escolhi é zelar para não deixar as coisas erradas acontecer”, diz Alexandre.
Em 2006, a Polícia Federal começou a investigar a corrupção na Polícia Civil. E, como o delegado tinha um passado acima de qualquer suspeita, ele foi chamado para auxiliar na busca por informações. Alexandre não só colaborou com os detalhes como escreveu textos com denúncias para os jornais cariocas. Foi nesse momento que a máfia dos caça-níqueis – que explora máquinas de jogo ilegais – começou a ser desmantelada, e nomes ligados à polícia apareceram entre os envolvidos. Alguns foram expulsos da corporação. Menos de um ano depois, os tiros espocaram em frente ao apartamento do delegado.
“Até cheguei a pensar que sofreria alguma represália pelo meu trabalho, mas eu estava disposto a enfrentar o que fosse preciso.” No hospital, Alexandre foi submetido a uma série de operações para resgatar os movimentos da mão. Depois do susto, das cirurgias, das reportagens louvando a coragem de enfrentar a banda podre da polícia e dos 30 anos de trabalho, ele se aposentou. Mas mantém sua luta: no ano passado se candidatou a deputado federal, e assumiu a secretaria de Segurança Pública de Maricá.
Apenas um dos envolvidos no atentado foi preso – e, depois, liberado. Mas Alexandre lembra-se do episódio com tranquilidade. “O sentido da minha passagem pela vida é lutar para melhorar o lugar onde vivo. Sei que não fiz e não estou fazendo absolutamente nada de especial. Essa é apenas a atitude de um cidadão que pretende participar de um mundo mais justo.”
Todos e cada um
Alexandre fala como se não tivesse escolha. Como se ele não pudesse fugir ao destino de zelar pela boa conduta de sua classe, denunciar os desvios e enfrentar as consequências, por mais ameaçadoras que elas sejam. A verdade é que ele poderia ter agido de forma diferente, sim. Só que aí não seria ele mesmo. Pois estaria contrariando seu patrimônio mais profundo, o conjunto de premissas que define quem ele é e como ele age: seus princípios.
O que regula a convivência humana são os valores. “E há duas maneiras de enxergá-los”, explica Marcelo Carvalho, professor de ética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Há os princípios individuais, sentimentos íntimos do que é certo e errado. Mas também podemos pensar neles como códigos coletivos, da sociedade, que zelam pela coexistência pacífica”, acrescenta.
Alguns especialistas chamam o primeiro modo de ver os princípios de moral, e o segundo, de ética. O nome dos conceitos pode variar, mas a diferenciação entre os valores individuais e coletivos é fundamental. É essa distinção que nos ajuda a entender, por exemplo, por que Alexandre quase foi morto apenas por fazer o que considerava certo.
Existem valores ideais compartilhados pela sociedade
em geral, como a honestidade. Mas, a partir da ética,
que é coletiva, cada um constrói sua moral, individual
“Existe um ideal de bom cidadão que todos conhecem. Ninguém é capaz de discordar que a honestidade ou a generosidade são valores desejáveis”, afirma Marcelo. A ética também pode ser pensada em grupos menores, como classes profissionais – muito se ouve falar nos códigos éticos de jornalistas e médicos, por exemplo. No entanto, decidir como aplicar no dia a dia os valores sociais depende da consciência de cada um. Ou seja: a partir da ética, coletiva, constrói-se a moral, individual. E ela varia de pessoa para pessoa.
“Uma das características do mundo contemporâneo é a diversidade de princípios que convivem lado a lado. Em um simples ônibus que transita por uma grande cidade, por exemplo, há dezenas de pessoas que veem o mundo de formas completamente distintas entre si”, afirma Marcelo.
Comparando com um passado não muito distante, aprendemos a ser mais tolerantes em alguns pontos. Comportamentos condenados há algumas décadas, como a homossexualidade ou o divórcio, hoje são muito mais aceitos, principalmente nos grandes centros urbanos. Porém, sempre haverá espaço para conflitos morais. É nesses momentos que somos chamados a demonstrar quanto, de fato, acreditamos em nossos princípios.

Ter princípios é... seguí-los mesmo quando ninguém está olhando. Como Lourença, que devolveu os 40 mil reais
que achou no lixo
Moral sem preço
A defesa de nossos valores pode exigir que a gente ponha a boca no trombone e passe por grandes riscos, como na história de Alexandre. Mas tão difícil quanto demonstrar nossos princípios sob os holofotes é não se esquecer deles quando ninguém está olhando.
Foi o que aconteceu com Lourença da Cunha, de 58 anos. Em fevereiro de 2009, enquanto recolhia materiais recicláveis no lixo de um supermercado, em Penápolis (SP), onde mora, ela pegou, por acaso, duas sacolas plásticas recheadas de dinheiro. Passou o dia recolhendo sucata sem se dar conta de que estava carregando uma fortuna. No fim da tarde, em casa, Lourença resolveu espiar o que tinha dentro das duas sacolas esquecidas no fundo do carrinho. “Vi que era dinheiro, mas achei que fosse de mentira. Nunca tinha visto aquelas cédulas”, diz. “Ia colocar tudo no lixo, quando um amigo me garantiu que as notas eram de verdade.”
Minutos depois, ela estava no supermercado, com as duas sacolas. Percebeu que a loja estava de pernas para o ar – os funcionários, tensos, reviravam gavetas e prateleiras. Lourença chegou ao lado do proprietário, colocou o dinheiro em suas mãos e virou as costas. Antes que ela saísse, a gerente da casa – que tinha jogado no lixo o balanço do caixa por engano – deu-lhe 200 reais como gratificação. Contente com o dinheiro, que, agora sim, era seu, Lourença passou no mercado, comprou refrigerante, uns espetinhos e foi para casa comemorar o aniversário do genro.
No dia seguinte, no Fundo de Ação Social da prefeitura, onde trabalha como voluntária ajudando em bazares e campanhas há quase dez anos, Lourença contou as peripécias da véspera. “Fiquei rica e pobre no mesmo dia”, brincou com as colegas. “Eu não sabia qual era a quantia, mas imaginei que fosse alta, por ter causado aquele rebuliço todo.”
Quando a história chegou aos ouvidos da imprensa, Lourença virou celebridade. Deu entrevistas, tirou fotos, gravou reportagem na televisão e descobriu que o montante era de cerca de 40 mil reais – valor que daria para pagar a faculdade de administração do filho e melhorar a situação de sua casa, uma construção simples no fundo da oficina onde seu marido trabalhava como marceneiro.
Mas os familiares e amigos sabiam que ela nem cogitaria ficar com o dinheiro. Conhecendo bem Lourença, não esperavam outra atitude a não ser a mais honesta. Dos estranhos, porém, ela se acostumou a ouvir impropérios. “Perdi a conta de quantas vezes fui chamada de burra. As pessoas não se conformavam. Queriam que eu exigisse que o supermercado me desse um emprego, arrumasse a minha casa. Foi um período muito difícil”, diz. “No entanto, isso só aumentava a minha convicção de ter feito o que era certo. Nasci pobre, cresci pobre e sei que meu dinheiro é apenas o que ganho com meu trabalho.”
Adquirimos bons valores pelo exemplo e pela repetição.
Se aplicarmos um princípio e ele nos faz bem, tendemos
a reproduzí-lo até que vire um hábito inconsciente
Escrito no cérebro
Se Lourença tivesse ficado com a bolada, seria muito difícil encontrar argumentos para incriminá-la, e sua família poderia estar vivendo de forma financeiramente mais confortável. Mas, para apropriar-se do dinheiro, ela precisaria jogar fora algo muito mais valioso: uma trajetória inteira de lições aprendidas pelo exemplo. “Meus pais se sacrificaram muito para sustentar as quatro filhas. Mas nos ensinaram que o que mais vale é levar uma vida digna, o que inclui nunca pegar o que é dos outros”, diz. “Apesar das dificuldades, o que minha mãe fazia era doar o que podia. Costurava colchas e blusas e oferecia a quem precisasse. Acredito que ajudar o próximo e levar uma vida honesta são os únicos valores que nunca vão desaparecer.”
Formados no decorrer da vida de cada um, os princípios estão fortemente ligados ao conteúdo emocional das experiências de onde foram extraídos. Abandonar um valor, de certa forma, é deixar de lado toda a vivência ligada a ele.
“Mudar um princípio é possível, mas depende de muita vontade e de um profundo trabalho psicológico”, afirma a psicanalista Sônia Soussumi. Ela é uma das fundadoras do Instituto Rukha, de São Paulo, que se dedica a apresentar novos valores a comunidades carentes que se acostumaram a conviver com a violência e o desrespeito. As famílias participantes recebem visitas semanais de educadores e se reúnem numa espécie de terapia de grupo, em que bons exemplos são compartilhados. “As pessoas só percebem a importância de uma nova conduta a partir do momento em que a experimentam e veem que traz bons resultados”, afirma Sônia.
A mudança é lenta porque exige uma reprogramação do cérebro. Quando uma nova experiência acontece, os neurônios registram. E sua repetição pode levar a um hábito que, por fim, gera uma memória inconsciente, impressa na massa cinzenta. Assim nasce um valor, que passamos a pôr em prática sem nem sequer nos darmos conta. “Em termos neuronais, é a repetição das boas experiências que traz a mudança. O cérebro vai recebendo essas informações, e, com o passar do tempo, elas se tornam definidoras do caráter de alguém”, diz Sônia. “Tudo o que dá certo para a sobrevivência do ser humano é incorporado e repetido. Por isso, a importância de resgatar valores elevados e mostrar que eles levam a uma vida melhor.”

Ter princípios é... não esquecer nossas origens. Como o chef de cozinha Rodrigo, que levou a culinária de sua
família ao estrelato internacional
O sabor da identidade
Novas experiências nem sempre vêm para mudar nossos princípios. Elas podem, ao contrário, consolidá-los. Fazendo a gente descobrir na defesa deles um prazer diário e um sentido para a vida.
Rodrigo Oliveira, de 30 anos, é um dos mais badalados chefs de cozinha de São Paulo. Mas quem perambular pelos eixos gastronômicos da metrópole em busca de seus pratos não os encontrará. Para provar sua premiada culinária é preciso ir a uma pequena casa na Vila Medeiros, bairro da Zona Norte paulistana.
A cozinha que hoje ele comanda é a mesma em que se criou, em meio às panelas do pai, um pernambucano que saiu do sertão para ganhar a vida em São Paulo com uma casa de produtos nordestinos. Na hora de escolher uma carreira, a primeira opção de Rodrigo foi gestão ambiental. Mas só porque não sabia que existia graduação em gastronomia. Quando descobriu, nunca mais saiu da beira do fogão.
A faculdade lhe apresentou as diversas cozinhas do mundo. O novo conhecimento ampliou seus horizontes. Mas, ao mesmo tempo, o fez perceber como eram valiosos os pratos que sua família costumava preparar. “Fui vendo que a comida nordestina era extremamente sofisticada, mas pouco valorizada. Achei que, com as coisas que estava aprendendo, poderia repensar os nossos clássicos, extrair o melhor sabor possível dos ingredientes tradicionais.”
Aos poucos, Rodrigo foi incorporando mudanças no restaurante do pai, aumentando os quatro itens iniciais do cardápio e pesquisando os temperos que faziam sua alegria nas férias da infância, quando passava meses com a família em Pernambuco. Em 2005, assumiu a responsabilidade da casa e começou a colecionar prêmios. Entrou para o grupo dos chefs brasileiros que garantiram a projeção internacional da culinária nacional na última década.
Famoso, poderia levar o restaurante a um bairro mais rico, a um prédio mais amplo e moderno. Não quis. A casa continua no mesmo lugar, com o mesmo nome – Mocotó –, e mantém a atmosfera familiar criada por seu pai. Seu Zé, aliás, continua indo todo dia ao salão, cumprimentar os velhos frequentadores. “O que mais me importa é gerar riqueza para as pessoas que estão aqui comigo”, diz Rodrigo. “Comida, para mim, tem a ver com a minha origem. Não quero sair daqui para criar algo distante do que sou. Sei que esse pode ser um caminho arriscado, mas é o único que me realiza.”
Seguir princípios, muitas vezes, é escolher o caminho mais difícil. É entender que somos responsáveis por nossas ações e suas consequências, e realizá-las da maneira que consideramos a mais certa, mesmo que o mundo inteiro diga o contrário. É por isso que o professor Renato Janine Ribeiro, que dá aula de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo (USP), costuma afirmar que, em certas circunstâncias, ser ético é ser herói. “Não há agência certificadora para nosso caráter. Ele depende só de nós, de nossa consciência, com toda a insegurança que isso possa trazer”, diz. E, se houver dúvida, tanto melhor. É um indício de que estamos constantemente avaliando nossas posições, verificando se de fato são as mais corretas. Então, se você ficou pensando o que faria no lugar de Alexandre, Lourença e Rodrigo, bom sinal. Refletir sobre nossos princípios é o primeiro passo para reconhecê-los, pô-los em prática e, assim, dar à vida o sentido que acreditamos que ela deva ter.


















































