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O despertar de uma paixão

Ana Elisa Siqueira pode falar durante horas sobre seu trabalho. Aos 46 anos, ela é diretora da escola pública Desembargador Amorim Lima, em São Paulo. Caminhando pelo prédio, ela explica, com brilho nos olhos, como as coisas por lá são diferentes. Não há, por exemplo, paredes separando as salas. As crianças do 5º ao 8º ano têm aula no mesmo espaço, divididas em pequenos grupos. Capoeira, música e teatro têm o mesmo peso de matemática, ciências e português. O material didático, exclusivo, não é catalogado por disciplinas, e, sim, por assunto, como água, família e desigualdades. A responsável por todas essas inovações é a própria Ana Elisa, que está à frente da escola há 15 anos.
Implantar esse modelo pedagógico incomum teria sido bem mais fácil em um colégio particular, onde a tendência é haver mais recursos e menos obstáculos à inovação. Mas, por ideologia, Ana sempre fez questão de trabalhar na rede do Estado. Para mudar as regras da escola, ela teve de convencer a Secretaria de Educação de que sua ideia era viável e adaptar o modelo que lhe serviu de exemplo – o da Escola da Ponte, de Portugal – às diretrizes e burocracias do ensino público. Quando enfim começou a pôr o plano em prática, ela enfrentou o descontentamento de muita gente: professores pediram transferência, pais tiraram os filhos do colégio – e ainda hoje muitos torcem o nariz para a Amorim Lima.
Definitivamente, Ana poderia ter escolhido algo mais fácil para fazer de sua vida. Mas ela não é movida por um raciocínio pragmático. E, sim, pela mais potente força humana, que impulsionou as maiores realizações da história e permeia todas as conquistas do dia a dia: a paixão pela vida.
“A grande aventura da existência é se apaixonar e buscar a concretização dessa paixão”, afirma o professor da Fundação Dom Cabral e especialista em empreendedorismo Fernando Dolabela. “Quando a pessoa faz o que ama, isso é vivido de forma prazerosa, intensa. Caso contrário, o passar do tempo se torna um martírio”, completa a psicanalista e socióloga Nilda Jock.
Ninguém duvida de que a paixão seja importante, nem que ela possa tornar nossa vida mais feliz, certo? Na teoria, em que nos permitimos ser mais românticos, é assim. Na prática, muitas vezes outros interesses pesam mais. A escolha profissional é um bom exemplo disso.
Segundo Fernando Dolabela, a negação da paixão é estimulada desde a infância. Uma pergunta tipicamente feita a crianças – o que você vai ser quando crescer? – encaminha para respostas preestabelecidas: as carreiras típicas, como engenheiro, médico, advogado. E permite aos pais, ainda cedo, convencer os filhos a mudar de ideia, caso a resposta não lhes agrade. Para Fernando, a indagação ideal seria mais ampla: “Qual é o seu sonho?”. E a criança deveria poder conceber livremente seu futuro.
“Não aprendemos a sonhar. E pagamos muito caro por isso durante a vida”, defende o especialista. “O anúncio de emprego diz que procuram um ‘octógono’. Aí o indivíduo se prepara para se encaixar naquela vaga e afirma na entrevista que sempre foi um perfeito octógono. Faz concessões relativas à sua liberdade para conseguir o salário. Será um sério candidato à infelicidade”, completa.
Liberdade para identificar as próprias paixões é o primeiro passo. Mas não garante que a resposta virá fácil. Há quem descubra cedo o que traz empolgação. Outros passam a vida procurando. No caso da diretora Ana Elisa, essa revelação foi uma conveniente surpresa.
Desde criança, ela ouvia que era “bonito ser professora”. Vinda de uma família de educadores, a mãe de Ana incentivava a filha a seguir o mesmo caminho. A pressão caseira poderia ter sido um desastre vocacional, mas acabou acertando em cheio. Ana cursou magistério, depois pedagogia. E se encontrou: “Na faculdade, eu me encantei com aquele universo. Estudar e entender como as crianças aprendiam era mágico”.
“Um dia, uma aluna disse que a capoeira é tão importante quanto a matemática.
E é. Se aquilo é o que faço bem, passa a ser fundamental em minha vida”
Contagiada pelos ideais de colegas e professores, muito identificados com as questões sociais, Ana decidiu que seu futuro estava na escola pública. E lá foi ela para a Zona Sul da cidade, uma região pobre e violenta. Um dia, deu de cara com o vigia morto no portão. Mas não desanimou. Anos depois, engajou-se no governo. Passou a trabalhar em diversos colégios, estimulando a criação e atuação de conselhos escolares e grêmios estudantis. Foi nessa época que conheceu a Amorim Lima. Percebeu que ali os pais tinham uma participação ativa e que, por estar próxima da Universidade de São Paulo (USP), a escola reunia, ao mesmo tempo, filhos de acadêmicos e crianças mais humildes. “Vi que era uma instituição com potencial de ser participativa, democrática, como eu sonhava, e tive uma vontade incontrolável de trabalhar lá”, diz. Sem pestanejar, Ana fez um concurso para diretora e assumiu a escola.
Um dia, ela tomou conhecimento da Escola da Ponte, de Portugal. Lá, não existem séries nem notas, e os alunos são livres para aprender o que quiserem. Ana se apaixonou pelo modelo e decidiu adaptá-lo à Amorim Lima. Nos últimos 15 anos, essa tem sido sua luta. Os resultados ela vê em cenas do cotidiano. Algumas situações, inclusive, revelam o que seus alunos têm aprendido sobre as paixões que a vida nos desperta: “Outro dia, num debate, achei muito bonito quando uma aluna disse que a capoeira é tão importante quanto português e matemática. É bem isso. Se aquilo é o que eu faço bem, passa a ser fundamental na minha vida. E isso deve ser respeitado como algo fundamental na constituição de cada pessoa”.
Apesar da autonomia e da liberdade que as crianças conquistaram, a Amorim Lima está longe de ser uma unanimidade. “As pessoas de fora não gostam da escola não, menina!”, diz Ana. “Quem coloca o filho aqui é porque crê no projeto.” E, porque acredita mais do que ninguém, a diretora trabalha até 16 horas por dia, sem ver o tempo passar. “A gente começa uma empreitada dessa sem saber onde vai dar. Mas eu não inicio algo preocupada se vai dar certo. Eu me preocupo com o processo. Se ele for feliz, é válido! Porque a vida é o processo. E eu amo cada coisa que faço aqui.”
60 anos com ela
Ana Elisa encontrou o significado de sua vida em uma transformação: a implantação de um projeto pedagógico inovador. Mas paixão não é só reviravolta. É, também, permanência. Como o sentimento que há 60 anos mantém unidos Mario Lino da Silva, de 79 anos, e Laura Freira da Silva, de 77. No dia 18 de julho deste ano, os dois comemoraram as bodas de diamante casando-se novamente. A cerimônia, como manda o figurino, teve padre, terno e vestido de noiva. Estavam presentes os seis filhos (dos 11 que tiveram, cinco já faleceram) e os 11 netos.
Os dois se conheceram em Várzea Alegre, no Ceará, ainda crianças. Mario estudou na escola que o pai de Laura mantinha em casa. O namoro começou quando ele tinha de 17 para 18 anos, e ela, 15. “Era uma lindura, baixinha, gordinha, muito bonita. Pedi a mão aos pais”, conta ele, rindo. Casaram-se pouco mais de um ano depois. E logo embarcaram numa grande aventura.
Em 1951, passaram 11 dias em um pau-de-arara com destino a São Paulo, apostando que na metrópole encontrariam melhores condições de vida. Foram morar na casa de uns parentes de Mario, onde passaram um ano e meio dormindo em um colchão infestado de pulgas. Ele havia conseguido um emprego numa metalúrgica e sonhava em logo proporcionar algum conforto à esposa. Mas ela chorava todo dia de saudade de casa, e ele não aguentou vê-la tão triste. Pediu as contas na fábrica, e os dois rumaram de volta ao Ceará.

Paixão pela vida é... fazer das dificuldades o combustível para
manter aceso um amor de 60 anos, como o de Mario e Laura
“Nunca pensei em ficar longe da mulher, preferi voltar”, diz Mario. “Estamos juntos porque temos fibra demais, e porque ela é a mulher da minha vida. Sou completamente apaixonado, pode colocar aí no jornal!”, completa. “Tanto gosto dela que eu adorava dançar, mas como ela não é muito de baile, parei. Um cede aqui, outro mais adiante, e assim vamos indo até o fim da vida”, diz.
Concessões podem não parecer tão românticas quanto serenatas e buquês, mas são as mais importantes provas de amor. “É difícil abrir mão dos nossos desejos e caprichos em benefício do outro. Mas o que as relações pessoais exigem é justamente esse tipo de acordo”, afirma a filósofa Dulce Maria Critelli.
Desde que Mario e Laura trocaram alianças, a maneira como o casamento é visto pela sociedade mudou bastante. Naquela época, o divórcio nem sequer era permitido. Hoje em dia, a separação
é um processo cada vez mais aceito e desburocratizado. Por um lado, a mudança contribui para que as pessoas não fiquem presas a relacionamentos falidos. Mas, em alguns casos, acaba impulsionando decisões precipitadas. “Na atual visão consumista, o casamento é como algo que você compra e de que pode se desfazer a qualquer momento. A separação, que deveria ser o último recurso, muitas vezes acaba sendo o primeiro”, afirma Dulce.
Mario e Laura ainda passariam por muitas provações. Após um período no Ceará, quando tiveram seis filhos, decidiram tentar novamente a sorte em São Paulo. Ele conseguiu emprego como padeiro, depois foi novamente contratado numa metalúrgica. Ela ficava em casa, cuidando das crianças. Conseguiram comprar um terreno, onde moram até hoje. A casa demorou para ficar pronta: “Passamos uns bons anos sem reboco nas paredes. Não tinha janela, e as divisórias eram feitas com pano”, diz Laura.
Aos 37 anos, Mario sofreu um grave acidente de trabalho: um peso de mais de 60 quilos caiu sobre sua mão direita, esmagando um pedaço do osso. Ele passou por mais de dez cirurgias. Aposentou-se por invalidez, mas não pôde parar de trabalhar: se virou por 15 anos como ambulante pelas ruas da capital.
Ao relembrarem essas histórias, fazendo sua trajetória de 60 anos passar como um filme, eles dão a impressão de que cada dificuldade que enfrentaram juntos serviu para reforçar a união. E é assim até hoje. Quando descobriu que o marido tinha diabetes, Laura aproveitou para transformar a preocupante notícia em uma rotina carinhosa: todo dia, às 8 horas, ela leva, na cama, o café e o remédio que ele não pode deixar de tomar.
O poeta Fabrício Carpinejar, autor de Mulher Perdigueira, diz admirar quem envelhece junto sem perder a paixão. “É como em um conto do escritor Luiz Ruffato, que compara os casais àqueles quadros antigos, que parecem mistura de foto e pintura: a parte da pintura é esse cuidado diário. A da fotografia é o tempo que estão juntos, quanto se conhecem”, diz. Segundo ele, a paixão é essa afinidade de quem sente que pode até fazer chover para ver o outro feliz. “O apaixonado sempre dará um jeito. Ele faz promessas que nem sabe como cumprirá. Mas vai arrumar uma forma, porque é extremamente concentrado no objeto de sua paixão.”
Mudança de hábito
O foco de uma paixão pode se manter o mesmo durante uma vida inteira, como na história de Mario e Laura. Às vezes, porém, o caminho para a felicidade passa pela capacidade de saber se reorientar para um novo projeto.
Foi assim com Patrícia Cavalcanti. Hoje, aos 56 anos, ela é uma chef de cozinha de sucesso. Já trabalhou na França, em um restaurante avaliado com duas estrelas pelo conceituado Guia Michelin. Foi eleita chef revelação em Belo Horizonte. E hoje comanda as criações de um badalado restaurante em Vitória (ES). Não é de estranhar que essa paixão pela culinária tenha surgido cedo, aos 19 anos, quando Patrícia gerenciava uma casa de massas com a irmã. Difícil de acreditar é que, por mais de duas décadas, ela se manteve afastada desse sonho. E sem o menor remorso.
Não é de estranhar que Patrícia tenha se apaixonado pela culinária ainda cedo.
Difícil é crer que, por 20 anos, ela se manteve afastada desse sonho. E sem remorso
Um ano depois da experiência na cantina, Patrícia casou-se e engravidou. Teve cinco filhos em cinco anos. E decidiu que ela mesma iria criá-los, sem babá nem empregada. Saía de cena a promissora cozinheira, entrava a dona de casa. “Não me arrependo, foi minha decisão. Sempre fiz tudo com amor. A casa vivia cheia de coleguinhas deles, porque o ambiente era alegre”, diz. Dedicada, ela chegou a cursar faculdade de pedagogia para melhor educar as crianças.
O amor pela culinária se manteve latente. Ela cozinhava para a família, para amigos, fazia alguns cursos para aprender truques novos. Conforme os filhos foram crescendo e se tornando menos dependentes, Patrícia retomou a dedicação ao antigo sonho. Aos 50 anos, entrou na faculdade de Gastronomia, em Belo Horizonte. Em seguida, abriu um bufê. E logo inaugurou um restaurante em um hotel. A empreitada ia de vento em popa, exceto por um detalhe: o marido não estava lidando bem com a novidade. Em determinado momento, ela percebeu que seria preciso fazer uma escolha: o casamento, desgastado, ou a carreira, que decolava. Pediu o divórcio.

Paixão pela vida é... saber o tempo certo de reviver um antigo
sonho, como a chef de cozinha Patrícia
“Enquanto achei de tive de cuidar da casa, cuidei. Quando chegou a hora de embarcar em minha outra paixão, a gastronomia, fui atrás. Tudo em seu tempo”, diz. Veio o convite para trabalhar na França, e ela aceitou. De volta ao Brasil, sem a renda do marido, foi morar com uma das filhas. Resgatou as receitas da antiga cantina e começou a cozinhar para fora. Logo, ela estava fornecendo para restaurantes. Foi chamada para um bar, onde recebeu o título de chef revelação. Deu cursos de culinária, abriu um bufê, até que recebeu o convite para ir para Vitória. Hoje, trabalha com gente que tem metade da sua idade, mas o nível de energia é o mesmo. “Sou movida a paixão. Quando você sente isso, é impulsionada para a frente”, diz.
A história de Patrícia mostra que paixões exigem escolhas – e fazer uma opção é sempre perder outra. Mas não há prejuízo quando a dedicação é sincera. Mais importante do que a conquista é a luta diária para alcançá-la. “Pode passar uma vida toda e a pessoa não encontrar seu sonho. Mas não é a chegada que define o sucesso, é a busca”, afirma Fernando Dolabela. Como se fosse um filme, a paixão só faz sentido em movimento. Enquanto a bobina gira, é que se criam as histórias. Pode ser uma trama sobre a incansável construção de um ideal, como a protagonizada pela diretora Ana Elisa. Uma história de amor à moda antiga, como a de Mario e Laura. Ou um roteiro de reviravoltas, como na vida de Patrícia. Pode ser também o que você bem entender. Afinal, o filme da sua vida quem dirige é você.

















































