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O destino e as escolhas

As coisas são porque têm de ser, ou a gente pode escolher outros caminhos? Descubra como as religiões explicam a relação entre estar predestinado e exercer o livre-arbítrio
Texto: Camila Golstein e Dilson Branco // Ilustração: Adriana Komura
O destino e as escolhas
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Quem planta colhe. Estava escrito nas estrelas. Aqui se faz, aqui se paga. Deus quis assim... Há várias expressões populares que tentam explicar os motivos pelos quais as coisas acontecem em nossa vida. Elegemos as preferidas de acordo com nossa fé. Alguns ditados refletem a crença de que o destino já está traçado e que temos de nos sujeitar ao que nos foi reservado. Outros se apóiam na convicção de que as conquistas e as frustrações são conseqüência direta das escolhas que fazemos no decorrer da vida. Qual explicação você prefere?

A postura fatalista parece ser mais reconfortante nos momentos ruins. Acreditar que até mesmo as catástrofes são vontade divina ajuda a aceitá-las e, talvez, a superá-las – afinal, segundo outro ditado, Deus escreve certo por linhas tortas. Já quem acredita no livre-arbítrio, ou seja, na liberdade individual de criar a história da própria vida, talvez sofra mais diante de um infortúnio, mas possivelmente comemore com vigor dobrado os êxitos, por considerá-los a coroação de seu esforço pessoal.

Os dois pontos de vista parecem opostos, e, de fato, algumas religiões são mais identificadas com um ou outro. No calvinismo, por exemplo – doutrina cristã criada por João Calvino, no século XVI, que influenciou as igrejas metodista e presbiteriana –, o homem já nasce encaminhado à salvação ou à danação, mas só conhece sua sorte depois da morte. (Impacientes em esperar a sentença, seus seguidores passaram a acreditar quea riqueza era sinal de ter sido escolhido por Deus. Por isso, valorizavam o trabalho, o que associou a doutrina ao desenvolvimento do capitalismo.)

Mais do que permitir nossos prazeres individuais, o livre-arbítrio
nos daria a chance de fazer o bem e, assim, evoluir espiritualmente


A maioria das religiões, no entanto, tenta conciliar as duas maneiras de enxergar o futuro. Muito parecido em todas elas, o raciocínio pode ser exemplificado com esse versículo do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos: “Em verdade, assinalamos ao homem um caminho, quer seja agradecido, quer seja ingrato”. Ou seja, há um plano divino para que o ser humano atinja a iluminação espiritual, mas depende de cada um seguir ou não esse rumo.

Em doutrinas como o cristianismo, que se baseiam na figura de um Deus onisciente – que conhece tudo, inclusive o que está por vir –, a conciliação dessa idéia com a do livre-arbítrio é aparentemente contraditória. Afinal, se o Criador á sabe o que vai acontecer em na sua vida, não haveria espaço para improvisos. Uma parábola, porém, ajuda a refutar essa lógica: antes de uma viagem, um homem leva seu carro a uma oficina. O mecânico encontra uma falha no motor e prevê que em poucos quilômetros o automóvel vai pifar. O motorista, porém, não faz o conserto. Em questão de minutos, ele está parado no acostamento. Quem causou a pane? O mecânico, simplesmente porque já sabia o que iria acontecer? Ou o motorista imprudente? Moral da história: para essas crenças, Deus não impede ninguém de fazer nada, mesmo quando vai de encontro (ou contra) ao que ele planejou.

As religiões que pregam a existência de ciclos de reencarnação, como o espiritismo, o budismo e o hinduísmo, vêem na liberdade de escolha uma das chaves para a evolução espiritual. É ela que nos permite oferecer o melhor de nós a cada momento, a cada escolha, num processo que os espíritas chamam de reforma íntima. Mais do que viabilizar nossos prazeres individuais, o livre-arbítrio nos propiciaria a chance de fazer o bem ao universo, se tivermos em mente que nossas liberdades acabam onde começam as dos outros. Essa é uma das práticas que levariam à união com o sagrado – o final feliz reservado para cada um de nós.

Com se vê, o livre-arbítrio e o destino parecem tão complementares quanto contraditórios. Pense bem: se o futuro já foi escrito, mas não foi revelado, isso não o obriga a tomar decisões no escuro a todo instante? Só sua fé pode dar as respostas? Escolher ou não, eis a questão.

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