carta do editor
O encurvamento na mão do arqueiro

Na parede da casa onde fui criado, num papel fibroso imitando pergaminho, havia um poema que eu e meus irmãos brincávamos de decorar: “Teus filhos não são teus filhos, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesmo...”. Só muitos anos depois eu entendi aqueles versos. O poeta libanês Khalil Gibran põe o dedo na ferida dos pais que, como os meus, veem seus filhos sair de casa: [Teus filhos] não te pertencem (...) Suas almas moram na mansão do amanhã, que tu não podes visitar nem mesmo em sonhos”. Lembrei desse rico texto enquanto preparávamos a matéria de capa desta edição, em que uma das personagens é justamente uma mãe que conta sobre a dor de ver o ninho vazio. E aí percebi que os versos são ainda mais universais: falam sobre todas as perdas inevitáveis. Mas nem por isso é um poema triste. Porque, como você vai ver lá na seção Crescer, deixar ir é o que há de mais natural nessa vida. E pode ser fonte de reflexão, satisfação, renovação. Não é à toa que o gênio Khalil Gibran encerra assim: “Tu és o arco do qual teus filhos são arremessados como flechas vivas. Que teu encurvamento na mão do arqueiro seja tua alegria”.
Um dos méritos das despedidas é o fato de elas permitirem os reencontros. Esse é o tema da seção Amar, mais uma vez organizada pela dedicadíssima Ana Luísa Vieira. Outros destaques são a seção Cuidar, em que a Jéssica Martineli relata como foi tentar passar uma semana sem usar plástico, e a Educar, na qual a Karina Sérgio Gomes mostra o valor da persistência para o aprendizado.
Para mim, o tema despedida não poderia ser mais apropriado. Esta é minha última edição na Sorria. Saio para embarcar no mais novo projeto da Editora MOL, uma revista nos mesmos moldes, que também vai ajudar muita gente - logo vocês vão saber mais! Agradeço do fundo do meu coração por poder ter feito parte desse projeto incrível, onde aprendi muito. E também me emocionei demais. Como ontem: trabalhando em pleno domingo, eu recebi a ligação de um leitor de Guarulhos (SP), que decidiu gastar preciosos minutos da sua vida telefonando para a redação só para dizer quanto gosta da Sorria. No meu lugar fica a Rita Loiola, que vocês já conhecem bem. Na arte, saem o Fabio Otubo e o Ricardo Sukys e entram a Mariana Bolzani e a Luana de Almeida. Tenho certeza de que vocês vão adorar o trabalho delas. Obrigado! Boa leitura! E até logo!


















































