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O feito da vida

Qual a coisa mais importante que você já fez na vida? Ô, perguntinha difícil. Se demoramos muito a responder, logo bate aquela angústia. Será que não construímos nada de relevante?
De fato, nem todos têm feitos enormes. Ana Neri Lemes, de 63 anos, por exemplo, nos escreveu contando como ergueu, com o marido e a filha, uma bem-sucedida empresa familiar, em Pompeia (SP), após terem se mudado do Paraná apenas com a roupa do corpo. Poucas pessoas podem ostentar uma virada tão transformadora.
Mas alguns hábitos, aparentemente menores, podem ser tão significativos quanto. Patrícia Millan, de 44 anos, de São Paulo, por exemplo, ajuda a salvar desconhecidos duas vezes por ano. Para isso, ela só precisou vencer o medo da agulha e virar doadora de sangue. Por ser rápido e praticamente indolor, esse feito é menos nobre?
Pensar na maior realização da nossa vida não precisa ser angustiante. Pode ser revelador. Será que você já não faz algo importante e nem se deu conta? Em todos os casos, a reflexão é estimulante: por que não começar a construir um novo grande feito já? Inspire-se, emocione-se e divirta-se com os relatos a seguir – as maiores realizações de homens e mulheres de diferentes idades e cidades do país.
Aos 76 anos, eu decidi que era hora de realizar meu sonho de menino: entrei para a faculdade de medicina. No primeiro dia de aula, meus colegas achavam que eu era o professor... Vivi intensamente o curso, fiz amigos, fui a festas e aprendi o ofício pelo qual sempre fui apaixonado. Aos 82, eu me formei. Agora, faço cursos de especialização e quero ajudar pessoas carentes.
Edson Gambuggi, 83 anos, São Paulo (SP).
Eu e a Raquel estudávamos na mesma faculdade, mas nos conhecemos mesmo foi pela internet. Quando nos encontramos pessoalmente, dávamos um jeito de nos entender, já que ela tem deficiência auditiva. Ou trocávamos bilhetes, ou ela lia meus lábios. A comunicação fluiu tão bem que nos apaixonamos. Nem precisei fazer curso para aprender a linguagem dos sinais – bastou a convivência e o amor. Acabei virando um militante. Hoje, nós dois cuidamos do site Sur10.net, que traz notícias e divulga eventos sobre a surdez. Também adoramos andar de bicicleta. No ano passado, pedalamos 1.200 quilômetros em 26 dias, numa viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro, divulgando a linguagem dos sinais em escolas. Agora vamos dar prosseguimento ao projeto, indo especialmente em faculdades de pedagogia ensinar os futuros educadores, para que no futuro possa haver mais alunos surdos nos colégios normais.
Diego Ferrari Bruno, 27 anos, São Paulo (SP).
Meu maior feito foi por causa de uma habilidade que eu nem sabia que tinha – e, para ser sincero, nunca mais se repetiu. Aos 12 anos, eu fugia de um garoto que queria me bater. Quando percebi, estava indo para um canto sem saída. Sem parar de correr, coloquei o pé direito em uma parede, o esquerdo na outra, dei um salto e passei por cima do menino. Assim, no susto. Ele até parou de me perseguir e me cumprimentou pela manobra. Nunca mais tentou me bater. E eu, de Harry Potter, passei a ser chamado de Jackie Chan.
Pedro Antunes, 20 anos, São Paulo (SP).
Logo que construímos nossa casa, eu ganhei uma muda de pinheiro. Tinha uns poucos centímetros. Todo mundo dizia que não ia vingar, que o clima não era propício. Aí eu o cerquei com uma caixa de papelão, para as crianças não pisarem, coloquei adubo especial e aguei bastante. Com carinho diário, ele foi crescendo. Hoje, quase 20 anos depois, está maior do que o sobrado em que moramos. Vários bem-te-vis fizeram ninhos em seus galhos. No Natal, o enfeitamos com luzes, e ele fica lindo!
Emilia Oliveira, 52 anos, Nova Esperança (PR).
Em um belo dia de sol de dezembro do ano passado, tive a ideia: me vestiria de Papai Noel e distribuiria presentes para crianças carentes na noite de Natal. Foi uma correria, mas, com a ajuda de alguns amigos e do pessoal do trabalho, consegui comprar 150 brinquedos. Na hora da entrega, foi incrível: as crianças me chamavam na rua, corriam para pegar os pacotes. Já estou planejando a festa deste ano. Conto os dias para o Natal chegar com mais ansiedade do que quando era criança!
Bruno da Silva, 21 anos, Mogi Mirim (SP).
Meu maior feito foi ter aprendido a tocar Yesterday, dos Beatles, no piano. No começo foi meio difícil, mas depois eu peguei o jeito. Até aprendi a letra para cantar junto!
Ariane de Quadros, 12 anos, Catanduva (SP).

Para levar seu trabalho ao país que sempre quis conhecer,
Lucila mergulhou nos estudos e aprendeu japonês
Desde criança eu tinha vontade de conhecer o Japão. Aí cresci e me tornei comissária de bordo. A empresa em que eu trabalhava fazia voos para lá, mas, para atuar nessa rota, era preciso falar japonês. Então me matriculei num curso e mergulhei na nova língua. Durante um ano e meio, estudei seis horas por dia, mesmo trabalhando. Fiz a prova e passei! Na primeira vez em que desembarquei em Tóquio, em abril de 1998, as cerejeiras estavam todas coloridas. Elas só florescem durante uma semana no ano, parecia um presente para mim!
Lucila Scalfi, 44 anos, São Paulo (SP).
Emoldurei a felicidade. Foi assim: passei várias noites fuçando as fotos que tinha no computador de casa, sem minha mulher saber. Selecionei nove e gravei num CD. No dia seguinte, procurei em várias lojas a moldura que havia imaginado. Quando estava quase desistindo, encontrei! Mas não comprei na hora, porque as fotos só ficariam prontas no dia seguinte. Que ansiedade! À noite, não conseguia dormir. No outro dia, corri até a loja. Parcelei no cartão e fui buscar as fotos. Coloquei-as no mural e fiz um pacote bem bonito. Fui pra casa, acordei minha mulher com um beijo. Lembro-me como se fosse hoje do seu olhar de felicidade ao ver as nove fotos retratando momentos em família. Cenas de um cotidiano de alegria verdadeira que hoje enfeita a sala de casa, numa parede que parece ter sido erguida sob medida para um dia receber a moldura da felicidade.
André Luís Machado, 39 anos, Mogi Guaçu (SP).
Minha avó estava passando mal. Peguei o carro e fui levá-la ao hospital. No caminho, ela teve um infarto. Fiquei desesperado. Segurei o choro e corri o máximo que pude. Bati de leve em um carro e, ao chegar ao hospital, arrebentei a cancela. Demoraram 40 minutos para reanimá-la, e ela ficou 23 dias na UTI. Mas hoje está ótima, vendendo saúde!
Alexandre Apolo, 42 anos, Santos (SP).
Na escola, tive a chance de ser atleta, mas minha mãe não deixou – e nem sei o motivo. No ano passado, enquanto corria para esquecer os problemas, decidi que participaria da São Silvestre. Sem dinheiro para fazer academia, consegui um personal trainner pela internet. No dia da prova, me assustei com a dimensão daquilo tudo. Aí dei a mão para a menina dentro de mim que sempre quis ser atleta e fomos em frente. Na reta final, meus filhos me estenderam um troféu, com o qual cruzei a linha de chegada, no vigor dos meus 50 anos.
Márcia Peraso, 50 anos, São Paulo (SP).
Minha família não dava muita importância aos estudos. Quando eu e minha irmã terminamos a 4ª série, disseram que era suficiente. Mas nós queríamos mais. Teimosas, no primeiro dia de aula da 5ª série, nos levantamos cedo e caminhamos mais de 1 quilômetro até o colégio. Quando recebemos a lista de material, choramos. Sabíamos que não haveria dinheiro para comprar. Com a ajuda das professoras, porém, conseguimos. Ano a ano, até terminar o colegial, a história foi se repetindo. Com insistência – e um pouco de desobediência –, enfim nos formamos.
Geny Soriano, 50 anos, Adamantina (SP).
Estava numa van, indo trabalhar. De repente, o veículo rodou, capotou e ficou pendurado em um penhasco. Com 1,56 metro de altura, eu era a única que poderia sair, pela janela, e escalar o penhasco até a estrada para pedir ajuda. Logo eu, que nunca fui nem em roda-gigante, porque morro de medo de altura! Para complicar ainda mais, havia perdido meus óculos. Um dos homens que ainda estava consciente me ajudou a sair. Lá fui eu. Descobri uma força que não sabia que tinha, e hoje me sinto muito mais confiante.
Thais Amaral Juliani, 23 anos, Marília (SP).
Para mim, ficar velha não é passar o dia na cadeira de balanço! E agora o mundo inteiro pode saber disso. No ano passado, comprei um computador e publiquei na internet uma pequena demonstração de como têm sido minhas aulas de tango. Aprender a mexer no notebook não foi mais difícil do que dar um ocho ou um gancho no salão. Sou atrevida por natureza!
Daluza Amarante, 88 anos, São Paulo (SP).
Veja toda a desenvoltura da Dona Daluza em http://bit.ly/cVYs7G
Após a morte do meu irmão, minha mãe entrou numa depressão profunda, nem andava mais. Para cuidar dela, me mudei para a pensão em que ela morava. Eu a acompanhava o dia inteiro, fazia de tudo para agradá-la. Ia passear onde ela mais gostava, a enchia de beijos e abraços. Queria que ela sentisse quanto meu amor era verdadeiro. Ela faleceu em maio de 2009. Por quase 10 anos, adaptei minha vida às necessidades dela. Não me arrependo nem um pouco. Como ela mesma me ensinou, nenhum esforço é muito para cuidar de quem amamos.
Maria Helena Sampaio, 48 anos, São Paulo (SP).
Meu maior feito se chama Ricardo Augusto e tem 4 anos. Aos 40, quis engravidar. Perdi o bebê. Apesar da tristeza, engravidei novamente. Mais uma vez, perdi meu filho. Tentei outras inúmeras vezes, procurei clínicas, fiz tratamentos. Consegui de novo, agora de trigêmeos. Logo no início, um dos bebês não resistiu. Aos 7 meses, minha filha teve problemas na absorção de oxigênio. Ou eu fazia uma cesárea para salvar minha Dandy, ou esperava um pouco mais, para dar tempo de o Ricardo ficar forte para o parto. Eu queria os dois! Minha princesa nasceu com 700 g, e não resistiu a uma infecção aos 20 dias de vida. Mas meu príncipe foi crescendo, e hoje é um garoto lindo, que dá sentido à minha vida.
Odete dos Santos, 51 anos, São Paulo (SP).
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