crescer
O garoto do cofrinho

Era um domingo frio e chuvoso de 1998. Na TV, a apresentadora Hebe Camargo pedia aos telespectadores que doassem o que podiam ao Teleton, maratona televisiva que visa a arrecadar dinheiro para a construção de hospitais para crianças deficientes. A meta era quebrar o recorde do ano anterior, e, para isso, ainda faltavam 3 milhões de reais. Felipe Ventura, então com 7 anos, assistia atento ao programa e quis fazer uma doação. Correu para o quarto, abriu seu cofrinho e derrubou as moedas no chão. Eram 75 reais e uns quebrados. E ele, ajudado pelos pais, resolveu levá-los à emissora. Naquele dia, o garoto acabou no palco do programa, ao lado de Hebe e Silvio Santos. Ele conseguiu fazer sua doação – ao vivo –, abraçou a causa e, desde então, tem como desafio aumentar a cada ano o valor arrecadado.
Por causa de sua atitude, Felipe também foi convidado a encabeçar uma ação na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) chamada “Corrente do Bem”, em que transmite aos jovens a mensagem sobre a importância de uma colaboração. A corrente ganhou elos, espalhou-se para outros países da América do Sul e rendeu a Felipe até um troféu de Responsabilidade Social. Conheça a seguir esse jovem, que, com uma atitude simples, ajuda a melhorar o mundo:
Sorria* – Você chegou ao palco do programa e se encontrou com o Silvio, mas não era bem isso o que você procurava...
Felipe –Não. Eu estava atrás do caixa do Bradesco, onde eu poderia deixar minhas moedas. Aí o Silvio Santos pediu meu cofrinho e eu não dei. Eu falei que tinha vindo porque a Hebe pediu. Minha mãe fez um sinal para que eu deixasse tudo com ele. Deixei. Então o Silvio me parou e disse: “Espero você no ano que vem com dois cofrinhos. Será que você consegue?”.
E conseguiu?
Felipe – Consegui. Voltei para casa com essa meta na cabeça. Coloquei um cofrinho na loja dos meus pais e outro na casa dos meus avós. E assim foi. No outro ano ele me pediu para levar três, depois, mais e mais. No ano passado, eu levei uma mala de quase 100 quilos com 13 mil reais dentro. Toda a minha família me ajudou.
Foi fácil juntar tudo isso?
Felipe – No começo foi difícil convencer a família. Minhas primas pensavam: “Até parece que um pouquinho de moeda vai ajudar”. Depois elas viram que realmente ajudava e começaram a contribuir também. Mas eu não ficava pedindo, acho que a ação tem de vir do coração. Se eu pedisse, elas iriam dar, mas não entenderiam por que estavam dando. Dariam para mim, que sou primo, e não para quem realmente precisa. Minha vontade era que todas as crianças pudessem viver como eu. Quem precisa, por exemplo, deve ter próteses de perna para se locomover e poder brincar.
Aí você começou a fazer parte de um projeto maior, coordenado pela AACD?
Felipe – A AACD, depois do meu quinto ano de doação, criou uma ação chamada “Corrente do Bem” e me pediu para representá-la. Eu faço isso por meio de palestras em escolas particulares e públicas todos os anos. Minha função é contar minha história, mostrar por que é tão importante ajudar e pedir às crianças para ajudarem também. Em todas as visitas, levamos um cofrinho e distribuímos às crianças para que elas juntem dinheiro durante o ano e também façam a sua parte.
Como está sendo essa experiência?
Felipe – No primeiro ano, esse projeto arrecadou 250 mil reais. Já cheguei a
falar para auditórios de 600 alunos e falei para escolas onde não havia auditório, e eu repetia a mesma história sala por sala, 50 vezes. As crianças se emocionam, falam que querem ajudar de alguma maneira, mas não sabiam como. Me agradecem por eu estar ali, pedem autógrafo. Isso é muito legal, mas, ao mesmo tempo, eu não preciso disso, minha função é fazer a ponte, transmitir a mensagem. A partir daí, cada um deve fazer a sua parte. Por isso, mesmo depois de começar a fazer o projeto, eu não abri mão de fazer a minha doação pessoal – todo ano eu pretendo sempre aumentar a quantidade doada.
E o papo é o mesmo com as crianças de classe média e crianças que têm menos recursos? Como pedir a uma criança para doar um dinheiro que seria essencial para ela?
Felipe – Na verdade, não importa o valor, a quantidade. O que importa é a ação. Dê quanto você puder dar. Se não puder, ajude de outra maneira. Um amigo meu entregou o cofrinho dele com uma nota de 50 reais. Outro menino, de escola pública, encheu o porquinho dele de moeda. A pessoa mais pobre sabe o que é a necessidade de dividir. As de um nível melhor não têm essa visão. Doar 50 reais, para quem tem esse dinheiro na carteira, é uma ação mecânica. A pessoa mais humilde passa os 365 dias do ano juntando moedinhas e pensando que aquilo fará uma diferença para alguém.
E os seus amigos o ajudam?
Felipe – Não. Eles até falavam: “Por que você vai doar seu dinheiro? Por que não compra um videogame novo?” Neste ano, um amigo meu veio me ajudar a contar as moedas para doar ao Teleton e já começou a fazer um cofrinho pra ele. Mas a maioria não está interessada, porque não faz parte do mundo deles.
Mas fez parte do seu mundo, inclusive porque você passou um tempo em uma cadeira de rodas.
Felipe – Eu já ajudava o Teleton havia dois anos quando ocorreu o acidente. Eu estava brincando de esconde-esconde com as minhas primas, me enrosquei na cortina e tomei um tombo. Bati com a coluna no chão e a vértebra saiu do lugar. Eu fiquei paraplégico durante seis meses.
E como foi se colocar no lugar das crianças que você ajudava?
Felipe – Eu sempre falo nas palestras, antes mesmo do acidente, que nem todos nascem deficientes. Qualquer um de nós pode vir a ficar nessa situação. Por isso era tão importante ajudar. Eu sabia que aquilo era apenas uma situação e que não transformaria o que sou. Você sente a discriminação, sente o olhar de pena das pessoas. Depois de seis meses eu saí andando. Acho que foi um milagre. Mas não tem de ter dó, é uma pessoa normal que está ali e é diferente de você.
E você se sente uma pessoa diferente?
Felipe – Acho que sim, pelo fato de ter começado a pensar em ajudar os outros muito cedo. Mas eu sou como todos os outros. Não faço isso para ser diferente, faço porque é parte do que eu acredito. No ano passado conseguimos juntar mais de 1 milhão de reais com a “Corrente do Bem”. Minha meta é fazer esse montante aumentar. Quem sabe um dia não chego a ter 1 milhão no meu cofrinho, não é?

















































