Droga Raia

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O melhor amigo do homem

Não é só o cachorro que merece o título. Também gato, porco, papagaio, animal imaginário, até urubu: qualquer um deles pode ser o mais fiel dos companheiros. Basta ser bicho... E ser seu
Texto: Bruno Moreschi // Foto: Daniela Toviansky
O melhor amigo do homem
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Eles comem sapato, fazem xixi no sofá, roem o pé da cama, sujam a roupa, espalham pêlos, não gostam de ficar sozinhos, dão um trabalho danado, choram no meio da noite, envergonham na frente das visitas. Com a licença de Vinicius de Moraes para parafrasear seu poema sobre filhos, diríamos... “bichos, melhor não tê-los. Mas, se não os temos, como sabê-los?”. Como saber da graça de um olhar pidão, da alegria de uma lição aprendida, da fofura irresistível de um filhote, da paz de ter uma companhia sempre à espera? Bichos enchem a casa de vida e podem dar à nossa vida mais sentido. Não são filhos nem amigos, mas fazem as vezes de um ou outro. Despertam afeto, dão assunto, ocupam o tempo, nos enlouquecem, fazem rir. Cada dono tem uma história melhor para contar. 

O melhor presente
A “Arca de Noé” e Felipe Fogaça, São Paulo, SP

O designer gráfico Felipe, de 29 anos, não sabe bem quantos animais tem na chácara onde vive. Ele até tenta listar: 63 galinhas, 16 patos, 11 perus, três cachorros, dois carneiros, dois marrecos, dois gansos, uma calopsita e um gato. Isso sem contar os que já estavam ali quando ele se mudou: tucanos, macacos, tartarugas, porcos-espinhos, micos, ratos, cobras... Ele acredita que humanos são seres da natureza como quaisquer outros; portanto, nada mais natural do que viver com a bicharada. Sua visão, assim na teoria, não é propriamente peculiar. Mas e na prática? Felipe tem o costume, por exemplo, de presentear amigos com bichos. Convidado para um churrasco, apareceu com um coelho – que custou e acabou batizado Sete Reais. Alexandre Freire, o dono do churrasco, achou presente de grego. Em outras festas, vieram dez codornas, um faisão, um galo, uma galinha e um cachorro. “Procuro uma vaca pequena ou uma ovelha para levar no próximo, mas ainda não encontrei”, comenta, com naturalidade.

Porcão altivo...
Gabriel e Josemar Melo, São Paulo, SP

Josemar, de 33 anos, é cuidador profissional de cachorros, mas escolheu um porco como seu bichano de estimação. Porco mesmo, dos grandes, não porquinho de filme infantil. Trata-o como um filho: Gabriel Melo herdou até seu sobrenome. O pai só o lava com xampu especial e, antes de passear pelas ruas, coleira e tudo, passa protetor solar com aloe vera. Tudo de farmácia de manipulação. “Antes, o ensaboava com a linha infantil da Johnson & Johnson, mas Gabriel já não é mais uma criança”, explica. Hoje, com 100 quilos, o bicho continua espantando por contrariar a fama de sujismundo dos porcos. Já confundiu até uma velhinha, na rua: “Que coisa mais linda, rosinha como um porco!”. Outra vez perguntaram se Josemar o alimentava com lavagem. “Fala baixo, Gabriel nem sequer conhece essa palavra”, retrucou. “E, se descobrir, certamente ficará enojado”.

...Porquinho assustado
Joaquina e Paula Meirelles, São Paulo, SP

O orgulho é tamanho que a estudante Paula Meirelles, de 21 anos, filmou Joaquina rodopiando loucamente e colocou o vídeo no YouTube (procure por “Joaquina girando”). Ela foi comprada em fevereiro para compensar a morte do cachorro de estimação. Porém, logo se viu como um porquinho-da-índia é particular. Arisca, Joaquina zarpa de medo quando vê um humano (com exceção dos conhecidos). Ao escutar alguém entrando na cozinha, grita como se estivesse para morrer de fome. (Talvez porque o matutino pedaço de alface nunca a sacie completamente). A porquinha só relaxa vendo a dona tomar banho. Nessa hora, pula como um cachorro animado.

Estômago cheio
O “bicho” e Paulo Tringer, Rio de Janeiro, RJ

“Quando criança, criei um bicho de estimação dentro da barriga. Dividia minhas refeições com ele, até as deliciosas balas de leite condensado. Mas não se tratava de uma solitária. Amante de goiaba fresca,  subi em uma árvore e tasquei uma mordida na mais apetitosa do pé. Quando olhei o resto dela, vi a metade de um bicho. Imaginei a outra parte em busca de um canto agradável no meu estômago para montar seu lar. Por semanas, guardei segredo. Mas, querendo aprovação, contei ao meu irmão mais velho. Ele concluiu: ‘Se comeu a metade, o bicho está morto.’ Chorei muito. Meses atrás, contei a história ao meu pequeno Lucas, de 10 anos. Poupei-o do final trágico. E ressuscitei o meu bicho da goiaba, bem vivo nos pensamentos de meu filho.”

A gata sommelier
Freda e Luiz Horta, São Paulo, SP

A gata é SRD (Sem Raça Definida), ou seja, vira-lata. E nascida no bairro paulistano da Liberdade há cinco anos. Mas o nome é pomposo: Frederica Colombard Golightly de la Torre. É que “Freda” ganha um sobrenome novo por ano: Colombard é a uva do conhaque; Golightly, igual ao da personagem de Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo; de la Torre, pela sua predileção em subir nos móveis altos. Tem mais. Seu olfato é dos mais sofisticados: Luiz Horta, o dono, de 50 anos, estuda o mundo dos vinhos há 23 anos. É costume ele submeter as taças cheias também à avaliação da gata, que cheira todas com atenção. Ao pender a cabeça para os lados, percebe-se aprovação ou desagrado da felina, diz ele. Com o tempo, viu-se que à Freda agrada os doces, como os vinhos do Porto. Horta aposta: “Com o olfato espantoso dos gatos, imagino que ela saiba até de que vinhedo saiu cada vinho”.

Quitinete de estimação
Grandão e Humberto Marins, Rio de Janeiro, RJ

A história é pequena mesmo, já que nada de grandioso cabe no apartamento de 50 metros quadrados do advogado Humberto, de 32 anos. Da janela, sem varanda, ele inveja os velhinhos na rua com seus cães encoleirados. Um dia há de ter um peludo São Bernardo. Por enquanto, contenta-se com Grandão, um miúdo peixe beta.

Professor gambá
Os gambás e Carlos Jared, São Paulo, SP

Quem vê a sala desse zoólogo do Instituto Butantan pensa que seu afã são os sapos. Dentre as reverências, há um esculpido na madeira, outro de pelúcia e até mesmo uma contemplativa perereca-ímã de geladeira. Mas sua verdadeira paixão científica se chama didelphis. Ou gambá, bicho dos mais incompreendidos. Há dez anos, Jared tenta entender por que eles são imunes ao veneno de qualquer cobra. Verdade seja dita: ele não sai pelas ruas com um gambazinho na coleira. Mas já publicou tantos artigos sobre a criatura que já o considera seu bichinho de estimação acadêmico.

Skiser 3.0
Skiser e Elem Seravali, Maringá, PR

Skiser. Kiser, para os íntimos. Foram três as cachorras da aposentada Elem, de 49 anos. Todas xarás. A primeira era uma beagle, a raça do Snoopy. Serelepe, bagunçava tudo, pulava nas visitas, um estouro. Morreu e deixou espaço à segunda, de mesma raça e siricotico. Foi só com a terceira Skiser, uma dachshund (prima do cachorrinho do anúncio da Cofap), que Elem pôde sossegar. A comedida cadelinha, tranqüila, dorme sem hora para acordar, mal gosta de carinho. Coincidência ou não, chegou na época em que a casa se despedia do furor dos filhos da aposentada. Hoje, cão e dona não se cansam de flertar com o arrastar das horas.

Peludos, porém...
Pluto e Rosana Brandão, Curitiba, PR

Aos 10 anos, a menina sardenta foi mordida na perna direita por Arcanjo, o furioso cachorro da vizinha. A cicatriz desapareceu em poucas semanas; 17 anos depois, ficou o trauma. A solução veio da pelúcia. E da Disney. Nascidos em Orlando, nos EUA, quatro Plutos moram folgadamente na cama da dentista recém-formada. “Não fazem cocô, não espalham pêlo e o principal: não mordem”, gaba-se, para logo depois suspirar. “Pena que lhes falte vida.”

Três patas
Clarah e João Perassolo, São Paulo, SP

Em 2002, o assessor de imprensa João, de 25 anos, viu alguém doando filhotes de gatos na faculdade. Sempre guardou boa impressão desses felinos. “Perfeitos, pois dão atenção ao dono na medida certa.” Convicto, escolheu o que julgava ser o mais bonito. Em seguida, levou o animal ao veterinário e, só diante da observação do doutor, percebeu o detalhe – melhor, a falta dele. “Reparou que a gatinha não tem uma das patas?”. A esquerda traseira. Tão cedo vieram as opiniões alheias. Uns achavam bizarro, outros sugeriam uma prótese, os mais sentimentais consideravam João um “homem bom” por aceitar a gata defeituosa. Iguais aos outros, ela realmente não é.  Quando tenta se coçar com a perna imaginária, tomba. Mas João adora Clarah assim mesmo, assumidamente perneta.

Dinheiro alado
Loira e Célio da Silva, Cambuí, MG

Quando Célio, de 38 anos, viaja, Loira, seu urubu de estimação, dorme ao lado de sua cama. Tamanho carinho tem uma justificativa financeira. Ele, em sua asa-delta, e a urubu, com suas próprias asas enrugadas, fazem apresentações do vôo livre pitoresco para quem pagar 1,2 mil reais, mais transporte e hospedagem. Não é só pela estranheza que convites não faltam à dupla. Como qualquer ave, Loira rasga o céu na porção mais propícia ao vôo. Os atletas da asa a seguem, confiantes. Para livrá-la do estigma da espécie, Célio a alimenta com carne fresca. Se possível, picanha. Mas, por força do instinto, Loira tem suas recaídas na carniça. Quando o dono vê, corre ao açougue e pede seu prato preferido: crânio de porco. Fresco, pois não é bom para os negócios Loira se portar como um urubu qualquer. 

Eu sou terrível
O espelho e Alonso Ferreira, Campinas, SP

Por que diabos Alonso, de 29 anos, insiste nesta barba ruiva opulenta? E o cabelo armadão, com as raízes empapadas de gel de fixação máxima para enfurecer ainda mais o visual? O estilo homem das cavernas, ele diz, vem da infância. Quando pirralho, visitou um zoológico e se apaixonou pelo Rei das Selvas. Insistiu muito em ganhar um de presente, até os pais o convencerem de se tratar de bicho perigoso. Dez anos se passaram. “Agora cultivo o leão que está dentro de mim”, diz, se despenteando no espelho do banheiro.

Dá o pé... Fritz
Robby e o casal Hueck, São Paulo, SP

O papagaio Robby chegou há oito anos na casa da família Hueck e portou-se estranhamente. Cabisbaixo, parecia mudo. Meses se passaram, e o casal Célia e Martin, ambos de 45 anos, aceitaram que tinham um papagaio atípico. Mas um dia o bicho gritou “komm”. Komm? Som incompreensível para muitos, significa “vem” para quem domina o alemão. Depois vieram “bist du ruhig” (fica quieto) e “ach, leck mich doch (“me lambe”). Tamanha fluência tem explicação: antes de chegar aos Hueck, Robby morou 20 anos na casa de alemães. Sorte que a nova família também descende dos germânicos e entende seu palavreado. E também de Nikki, sua papagaia companheira que, brasileira mesmo, anda tendo aulas particulares. Só uma coisa ficou estranha: não seria melhor chamá-lo de Fritz?

Meu querido mutante
Pupi e Suzano Requião, Blumenau, SC

Ele nunca convenceu os pais a comprarem um bicho de estimação. Então teve de apelar para um ser imaginário que pula, corre e oferece a patinha quando quer comida. E não é gato nem cachorro. Já que ele podia escolher o que quisesse... “Parece um ganso, mas tão felpudo quanto um coelho”, diz. Quando Suzano era menor, Pupi, o ganso-elho, lhe “visitava” quase todo dia. Como a vida adulta acha a brincadeira estúpida, Pupi recolheu-se. “Mas dias desses estava triste, fechei os olhos e ele lambeu minha mão com sua língua de cobra”, garante. Cobra?

Conan, o voluntarioso
Conan e Adylson Lima, São Paulo, SP

Adestrador desde 1990, Adylson Lima já perdeu a conta de quantos cães-guias formou. Não é tarefa das mais fáceis: o treinamento dura ao menos dois anos. Na sua casa, hoje com 22 alunos caninos, está também Conan, o bárbaro. O collie sabe fazer tudo o que um bom cão-guia faz, mas é único. O motivo? Escolheu por vontade própria a profissão. Com oito meses apareceu na vida de Lima como animal de estimação, mas viu tanto o dono educar outros cachorros que resolveu se deixar levar. “Acho que ele quis ajudar os outros”, aposta o dono. Conan ele não doa a ninguém.

História triste de pardal
O pardal e Juliana Matinhago, São Paulo, SP

Quando tinha 12 anos, brincando na árvore, Juliana, hoje com 22, assistiu a um filhote de ave cair do ninho e quase se espatifar no chão. Seqüelas ficaram: uma pata machucada e a asa quebrada. Passou a cuidar do bicho, nomeado só Passarinho. Ele a seguia por onde a “mãe” ia, solto na casa, andando, nunca voando. Kevin, o cachorro do lar, aceitou bem a nova companhia. E, grato, Passarinho dormia ao lado da cama da dona num pote de sorvete improvisado em ninho. Quase um ano depois, a menina foi à rua chamar umas amigas para conhecer Passarinho, que ficou sozinho, esperando as visitas. Só que a casa estava em reformas, e o pequeno, confuso, mergulhou num pote de tinta branca. De cor original marrom e branco – um legítimo pardal –, alvejou-se por completo. E morreu. 

Eu sou de todo mundo
João e seus vizinhos, São Paulo, SP

João não é de ninguém. Melhor, é de todo mundo. De todos os moradores dos arredores das ruas Catão e Camilo, no bairro da Lapa. Há três anos, seu faro de cão vira-lata o fez acertar em cheio na escolha da morada: a calçada da pizzaria Terapia da Pizza. “Desde o dia em que a irmã do dono lhe deu um prato de comida, ele nunca mais nos deixou”, conta Sônia Canon, funcionária do lugar. João a acompanha em todas as entregas à casa dos vizinhos. Pela manhã, pontualmente às 8h, é hora de ele saudar os operários que chegam para trabalhar nas fábricas da Catão. Aceita afagos e solta latidos de boas-vindas a todos que passam. Mas abana o rabo com mais entusiasmo quando vê Dona Teresinha, uma das vizinhas. É ela quem o leva para tomar um banho a cada 15 dias e divide com outra moradora a presença do cão nas festas de fim de ano. Sônia, porém, é a única que chegou a pensar em adotá-lo. “Como ele tem aquele olhar do tipo ‘cuida de mim, mas não me prende’”, pondera ela, “concluí que o lugar dele era no meio de todo mundo”. E ele está em boas mãos. Certo dia a carrocinha tentou despejar João de sua casinha na calçada, mas o levante dos vizinhos foi tamanho que não houve jeito: o cão ficou. João é um vira-lata livre, leve e solto. Mas, desde que chegou a esse pedacinho na Lapa, nunca mais passou um Natal sozinho.

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