Droga Raia

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O melhor possível

Nosso mais poderoso dom é restrito. Podemos mudar a nós mesmos e ao que nos cerca, mas apenas até certo ponto. Tão difícil e nobre quanto exercer esse poder é aceitar suas limitações e, dentro delas, construir nossa felicidade
Texto: Daniela Marques e Dilson Branco // Photodesign: Felipe Gressler // Fotos: Cristiano Mariz, Guillermo Giansanti / Fotonauta e Marcelo Curia
O melhor possível
Mudar é... reconstruir a identidade para assumir o que não se pode esconder – como o homossexual Clênio
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Imagine que lhe seja pedido escrever uma carta a um completo desconhecido dizendo quem você é. O mais provável é que sua descrição comece pelas informações básicas, como nome, idade, sexo, estado civil, endereço, profissão. Com relação à aparência, poderia abranger dados como desenho do rosto, cor e corte do cabelo, medidas diversas. Talvez incluísse hábitos, conhecimentos, habilidades, a história da sua infância, quem são sua família e seus amigos.

Essas características permitiriam identificá-lo entre várias outras pessoas. Elas o definem, fazem-no ser você mesmo. Mas quanto dessa identidade é fixa, e que partes podem ser modificadas de acordo com sua vontade? Pense nas cirurgias plásticas de que já ouviu falar, nos tratamentos de beleza, nas liberdades políticas que a sociedade oferece, nas variadas terapias disponíveis, nos produtos milagrosos vendidos na TV, nos cursos e treinamentos em escolas de todos os tipos, nas possibilidades de crescimento profissional, nas promessas dos livros de autoajuda... A conclusão não pode ser outra: você é você por escolha própria. Se quiser ser diferente, haverá uma maneira de mudar.

“Que bênção viver numa época assim”, pensaria qualquer ser humano nascido alguns séculos atrás. Mudar o que não gostamos em nós mesmos é uma conquista relativamente recente na história da humanidade. Até as descobertas científicas e as transformações políticas consolidadas no fim do século 18, as pessoas – e a sociedade como um todo – eram como eram por determinação divina. De forma geral, nem sequer se cogitava a possibilidade da transformação. E, quando ela ocorria, não era por mérito do indivíduo, e sim pelas forças sobrenaturais a reger o mundo.

Moldar-nos ao nosso gosto é uma tentadora oferta da modernidade. Mas será que de fato temos todo esse poder?

Render-se a si

Com muito sofrimento, o supervisor de arquivo médico Clênio Borges conheceu a resposta para essa pergunta. Ainda criança, ele se impressionou com a beleza de um rapaz que viu na rua. Hoje, aos 29 anos, sabe que naquele momento começou a descobrir sua homossexualidade. Mas, na década e meia que seguiram aquele dia, Clênio lutou de todas as formas contra esse traço de sua identidade.

Assumir estava fora de questão. A família, de Sobradinho (DF), sempre foi muito católica. “Íamos juntos à missa e nos reuníamos em casa para rezar. Eu cheguei a ser coroinha, participava do grupo de canto. Minha mãe atua nas pastorais”, conta. “Lembro-me de ouvi-la falar que o homossexualismo não é coisa de Deus. Acho que essas conversas surgiam porque ela já desconfiava. Nessas horas eu dava um sorriso sem graça e ficava quieto”, completa Clênio.

A única opção era convencer a si mesmo de que era heterossexual e assunto encerrado. Assim, aos 18 anos, Clênio começou a namorar uma garota. Um ano depois, foram morar juntos. E logo tiveram uma filha. Ele se considerava apaixonado, achava que poderia viver com ela para sempre. Mas em pouco tempo essa estabilidade ruiu. Clênio percebeu que não conseguiria ser feliz nem garantir a felicidade da mulher. A avalanche de sentimentos o fez tomar uma dolorosa decisão: depois de três anos de casamento, pediu o divórcio. “Entrei em depressão. Não falava com ninguém nem comia, perdi 14 quilos”, lembra.

Recuperado do rompimento, ele se permitiu experimentar. “Fui em busca da felicidade, conhecer o meio gay, fazer novos amigos. Foi quando conheci um rapaz e fiquei loucamente apaixonado”, conta. Porém, era tudo às escondidas. Nessa época, Clênio chegou a fingir que namorava uma amiga lésbica, só para manter as aparências.

Mas um dia a farsa se desfez. Clênio falava com o namorado ao telefone, e sua mãe, desconfiada, ouviu a conversa pela extensão. “Ela quebrou o aparelho, chorou, quis me bater. Foi horrível. Saí de casa, fui dormir na minha irmã.”

Mas tudo se resolveu mais rápido do que ele poderia esperar. No dia seguinte, Clênio voltou para casa e sua mãe quis conversar. Disse que o amava, que nada mudaria isso, que estaria com ele sempre. “Naquele momento eu me senti a pessoa mais forte e feliz do mundo.”

Hoje, Clênio mora com o namorado, com quem está junto há oito anos. Sua libertação acabou trazendo transformações para toda a família. “Agora, quando ouve qualquer crítica sobre gays, minha mãe compra a briga”, diz. Com o pai, Clênio nunca falou abertamente sobre sua sexualidade, mas sabe que é aceito. “Ele encara meu namorado como um filho, e até o defende quando brigamos!”, diverte-se. A ex-mulher tornou-se uma grande amiga, e a filha também convive bem com a novidade. “Tudo se ajeitou e construímos uma excelente relação familiar. Hoje digo que é preciso lutar contra as dificuldades e se aceitar. Porque depois da tempestade tudo volta ao normal.”

No fundo da alma

Clênio tentou mudar, viver como hetero, seguir o que sua família e a sociedade faziam parecer o mais certo. Não conseguiu. E há uma razão simples para isso: “A orientação sexual é provavelmente imutável”. Quem afirma é o psicólogo americano Martin Seligman, no livro O Que Você Pode e o Que Não Pode Mudar.

Martin diz “provavelmente” porque há relatos científicos sobre gays que se tornaram heterossexuais. Mas são experiências controversas, envolvendo choques, realizadas nos anos 1970. E, mesmo assim, entre homossexuais exclusivos (os que só sentem atração pelo mesmo sexo) geralmente falhavam.


A característica tem origem biológica? É difícil de negar? Permeia muitos
aspectos da vida? Então é profunda - e exigirá muito para ser transformada



A orientação sexual é praticamente impossível de ser mudada porque é um dos traços mais intrínsecos de nossa identidade. Essa é a teoria de Martin: quanto mais profunda for uma característica, menor o nosso poder de transformação sobre ela. E, para medir quão funda é uma condição, o psicólogo propõe três perguntas sobre ela: 1) Tem origem biológica? 2) É difícil de negar? 3) Permeia muitos aspectos da vida? Respostas positivas apontam para características menos maleáveis.

Sobre a homossexualidade, alguns estudos indicam que ela teria origem genética. Além disso, como bem sabe Clênio, negar essa característica envolve enorme esforço e sofrimento. E ela permeia tantos aspectos da vida quantos são os envolvidos num convívio amoroso. Eis o tripé da inexorabilidade.

Seguindo essa teoria, Martin analisa uma série de questões, avaliando quanto são passíveis de mudança. Na lista entram desde padrões de comportamento até distúrbios psicológicos, passando por traços de personalidade.

Mais inflexível que a orientação sexual, só a identidade sexual – ou seja, se nos enxergamos como homem ou mulher. Para essa característica, o psicólogo é taxativo: “Imutável”. Um exemplo de algo perfeitamente transformável é a síndrome de pânico, que pode ser curada com terapia. Um pouco mais profundas são as fobias e a depressão, tratáveis com terapia e medicamentos. A ansiedade e a raiva podem ser ainda mais difíceis de se controlar, mas bons resultados são possíveis com técnicas de relaxamento e meditação.




Mudar é... investir com esforço diário na manutenção da reviravolta que queremos para nossa vida, como Cláudio



Mudança diária

Em geral, se uma característica é profunda o suficiente para causar um grande incômodo, será difícil transformá-la. O processo pode durar a vida inteira, exigindo esforço diário. Esse tem sido o desafio do analista de sistemas Cláudio Antonio Barbosa, de 43 anos, do Rio de Janeiro. Há três anos, ele pesava 134 quilos. Era gordo desde os tempos da escola. “Sempre fui o último a ser escolhido para o time de futebol. Via os amigos magros namorando, enquanto eu acabava sozinho”, recorda.

A característica vinha de família. Seu pai era obeso, diabético e hipertenso e faleceu após um derrame. Cláudio gostaria de ser mais magro. “Fiz algumas dietas malucas. Numa delas, quando mudava a fase da Lua, eu tinha de ficar dois dias só bebendo líquidos”, lembra. Também procurou médicos, tomou remédios, porém o resultado era sempre o mesmo: emagrecia um pouco, mas logo voltava a engordar. Então desistia. Comia tudo o que tinha vontade. E, sem disposição para esportes, mantinha-se absolutamente sedentário. “Eu me assumi como gordo. Nem sequer conseguia me imaginar magro”, diz.

Em 2007, veio o susto. Uma crise de vesícula o levou para a mesa de cirurgia, e um pós-operatório complicado resultou em trombose e embolia pulmonar. “Fui para a UTI e não acreditava que voltaria. Cheguei a me despedir de minha mulher e dos meus filhos”, conta. Foram 20 dias de internação, nos quais o medo de morrer o encheu de disposição para buscar uma vida mais saudável.

Logo que saiu do hospital, Cláudio procurou um endocrinologista e começou um processo de reeducação alimentar. Seis meses depois, começou a praticar atividades físicas. Em menos de um ano, perdeu 50 quilos. Hoje, pesa 84.

Para tanto, Cláudio precisou fazer mudanças profundas em sua rotina. Diariamente, corre e faz exercícios. Pelo menos uma vez por mês, impõe-se uma prova de 10 quilômetros. Tem tanto prazer e orgulho da nova vida de atleta que até mantém um blog sobre o assunto: eucorro.blog.terra.com.br.

A alimentação também passou por uma drástica transformação. “Eu adorava comidas gordurosas. Meu café da manhã preferido era pizza gelada e refrigerante. Agora eu não consigo mais. Uma picanha, por exemplo, eu até como. Mas tiro a gordura”, diz. Frutas e saladas, que antes passavam longe do seu prato, hoje são parte fundamental de suas refeições.

Martin Seligman considera a obesidade uma característica tão profunda quanto o alcoolismo, por exemplo. E a mais popular arma para combatê-la, as dietas, em 90% dos casos funciona só temporariamente, adverte o psicólogo. Isso ajuda a explicar por que histórias como a de Cláudio não são tão comuns.

No caso dele, dois fatores sustentam o êxito. O primeiro foi a quase tragédia que se revelou um presente do destino: a internação hospitalar. “Muitas vezes, a pessoa precisa de um susto para ter esse encontro interno que leva à mudança”, afirma a psicóloga Daniela Levy. Mas o que de fato constrói e mantém a transformação é a luta diária. “A manutenção é o mais difícil. Os novos hábitos precisam ser incorporados ao estilo de vida. Depois de um tempo que a mudança é absorvida, a pessoa ganha mais confiança e autoestima”, acrescenta Daniela.

Cláudio enfrenta provações diárias para controlar o apetite. “Resistir às massas é minha maior dificuldade. Procuro sempre comer frutas ou salada antes para não ir com muita sede ao pote”, afirma. E fica feliz de ver que seu esforço serve de inspiração para outras pessoas. Após observarem sua mudança, a irmã dele e alguns colegas de trabalho também decidiram reeducar a alimentação e praticar atividades físicas. “É muito bom ver alguém mudando antes de passar pelo susto que eu tomei”, afirma.




Mudar é... admitir que a dor da perda de um filho não tem fim. Mas, a partir do trauma, dar um novo sentido à vida, como Diza



Apesar da dor

O inesperado trouxe a Cláudio o impulso de que ele precisava para ser mais saudável e feliz. Já na vida de Maria Edi Gonzaga, o acaso é responsável por uma ferida eterna. E isso nada pode mudar.

Em 20 de maio de 1995, a então arquiteta levou o filho Thiago, de 18 anos, a uma festa, em Porto Alegre, onde mora. Voltou para casa e, algum tempo depois, o telefone tocou. Seu marido atendeu. Diza, como é conhecida Maria Edi, lembra de ouvi-lo falar as palavras “acidente” e “Thiago”. O casal foi orientado a seguir diretamente ao local da batida. No trajeto, Diza torcia para que os documentos de Thiago tivessem sido furtados, e para que o acidentado fosse outro rapaz.

Ao chegar lá, teve a pior notícia de sua vida. O filho de quem se despedira com um beijo horas antes estava morto. Seu corpo fora arremessado do banco de trás do carro, que batera a 100 quilômetros por hora numa caçamba de entulho instalada irregularmente. Um colega de 17 anos também morreu na hora. Apenas o motorista, de 19, que não tinha habilitação, sobreviveu.
 

“Perder um filho não é a ordem natural da vida. As pessoas dizem que com o
tempo
a gente supera, mas não é verdade. Só nos resta aprender a conviver”

Arrasada, Diza começou a procurar explicações para a catástrofe. E as encontrou. Segundo estatísticas da época, o trânsito era a principal causa de óbitos de jovens do sexo masculino no Brasil. E a maioria dos acidentes acontecia de madrugada. “Percebi que a morte do meu filho era uma tragédia anunciada”, diz. Indignada por desconhecer esses dados, ela decidiu dar a eles a divulgação que achava necessária. Nos meses seguintes ao falecimento do filho, empenhou-se na criação da Fundação Thiago Gonzaga, voltada para a prevenção de acidentes de trânsito. A profissão de arquiteta acabou ficando para trás. Hoje, Diza dedica-se inteiramente à causa.

“Perder um filho não é a ordem natural da vida. As pessoas dizem que com o tempo a gente supera, mas não é verdade. Só nos resta aprender a conviver”, diz. “Tornar a própria experiência um
veículo de propagação do bem auxilia a reconstrução da vida”, concorda o psicólogo Julio Peres, doutor em neurociência e comportamento pela Universidade de São Paulo (USP). “Uma oportunidade de transformação perante o evento traumático se concretiza quando, em vez de recuar na autovitimização, a pessoa dá um passo à frente, ainda que no início isso não seja fácil”, acrescenta o especialista.

A Fundação Thiago Gonzaga atua em três frentes: campanhas de conscientização dos perigos do trânsito, atendimento psicológico a pais que perderam filhos em acidentes e pressão política pela aprovação de leis que tornem o tráfego mais seguro. “Nunca pensei que pudesse desenvolver uma atividade com tanta importância social”, conta Diza. A dor dela não tem fim. Se pudesse, não pestanejaria: voltaria no tempo e salvaria o filho. Mas, sendo isso impossível, Diza segue em frente, dando um novo significado a sua vida.

Como ela descobriu, não temos controle sobre tudo. Algumas coisas conseguimos mudar. Mas, como revela a história de Cláudio, o processo pode envolver outras transformações, exigir esforço diário. Outros aspectos independem de nossa vontade. Nos resta aceitá-los, assumi-los, o que pode ser extremamente difícil e libertador, como na vida de Clênio. E, mesmo quando o imutável parece um fardo impossível de carregar, podemos transformá-lo em vida e esperança, como faz Diza. Esses testemunhos mostram que nosso poder de transformação é limitado. Cabe a cada um de nós descobrir essas fronteiras e, dentro delas, fazer o melhor possível.

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